Ainda sem respostas, morte de procurador argentino completa um ano

Por Agência Brasil |

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Encontrado morto, Alberto Nisman investigava atentado que matou 85 pessoas em 1994; organização realizou ato público nesta segunda-feira (18) para cobrar respostas às autoridades

Agência Brasil

Um ano após a misteriosa morte do promotor Alberto Nisman, responsável pela investigação do maior atentado terrorista da história argentina, a Justiça ainda não determinou se ele cometeu suicídio com um tiro na cabeça, se foi obrigado a se matar ou se foi assassinado. A Delegação de Associações Israelitas Argentinas (DAIA) convocou para esta segunda-feira (18) um ato público para pedir respostas às autoridades.

O aniversário da morte de Nisman ocorre um dia depois do anúncio do governo iraniano em retomar relações com o mundo e o levantamento das sanções impostas ao país pelos Estados Unidos e seus aliados. Atá sua morte, Nisman acusava o Irã de ser o artífice do ataque de 1994 ao Centro Comunitário Judaico Amia, que, em pleno centro de Buenos Aires, matou 85 pessoas e feriu centenas de outras.

O corpo de Nisman foi encontrado no banheiro de seu apartamento em Buenos Aires, no luxuoso bairro de Puerto Madero, na noite de domingo, 18 de janeiro de 2015. No dia seguinte, o promotor compareceria ao Congresso argentino para explicar as sérias acusações que ele tinha feito contra a então presidente Cristina Kirchner.

Na semana anterior à sua morte, Nisman tinha pedido a abertura de inquérito contra Cristina Kirchner
Presidência da Argentina
Na semana anterior à sua morte, Nisman tinha pedido a abertura de inquérito contra Cristina Kirchner

Na semana anterior, Nisman tinha pedido a abertura de inquérito contra Cristina e o chanceler Hector Timerman, alegando ter provas de que ambos teriam conspirado com o Irã para acobertar os principais suspeitos da explosão que destruiu a Amia.

Dois anos antes do atentado, em 1992, outra bomba havia sido colocada na Embaixada de Israel em Buenos Aires, matando 29 pessoas. Ambos ocorreram durante o primeiro governo do presidente Carlos Menem, de origem síria.

As primeiras suspeitas eram de que os ataques tinham sido planejados pela Síria em represália a Menem, que supostamente teria deixado de cumprir promessas feitas ao país para adotar uma política de aliança incondicional com os Estados Unidos.

Mas um escândalo de corrupção, envolvendo o juiz que investigava o atentado, acabou paralisando o processo. O ex-presidente Nestor Kirchner (2003-2007) decidiu reativá-lo criando uma procuradoria especial. Nisman foi o promotor indicado para chefiá-la. Pouco depois de reabertas as investigações, ele acusou o grupo xiita Hezbollah de ter colocado a bomba na Amia, com a ajuda de simpatizantes infiltrados na Tríplice Fronteira (da Argentina com o Brasil e Paraguai).

Segundo Nisman, o ataque teria sido planejado por altos funcionários do regime iraniano. Diante da negativa dos suspeitos de colaborar com a Justiça argentina, Nisman pediu apoio a Interpol, que emitiu alertas vermelhos para os principais suspeitos, entre eles um ex-ministro e um presidenciável do Irã.

A cada oportunidade, Nestor Kirchner e sua viúva e sucessora, Cristina Kirchner, denunciavam o Irã à Assembleia Geral das Nações Unidas. A situação mudou em 2012, quando o governo argentino informou que o governo iraniano tinha finalmente decidido colaborar, assinando um memorando de entendimento com a Argentina.

O documento previa a criação de uma comissão da verdade para investigar o caso e a possibilidade de juízes argentinos viajarem a Teerã para ouvir os suspeitos (sempre e quando eles aceitassem prestar depoimento).

Apesar de criticado pela oposição e por organizações judaicas argentinas e internacionais, o governo conseguiu aprovar o memorando no Congresso. Segundo Cristina Kirchner, era a única oportunidade que o país tinha para destravar as investigações. Mas o parlamento iraniano não ratificou o acordo, questionado pela Justiça argentina e jamais implementado.

Nisman somou-se aos críticos que pediam a suspensão do acordo. Uma semana antes de morrer, o promotor disse ter provas (obtidas através de centenas de escutas telefônicas) de que Cristina Kirchner e Hector Timerman queriam usar o memorando para encobrir os responsáveis do atentado para poder intensificar as relações comerciais com o Irã (trocando grãos por petróleo).

O governo desmentiu as acusações, prometendo desmascarar Nisman quando ele fosse depor no Congresso. Mas ele foi encontrado morto na véspera. Os peritos da Suprema Corte consideram o suicídio a causa mais provável, mas os peritos chamados pela ex-mulher de Nisman afirmam que ele foi assassinado.

O presidente da Argentina, Mauricio Macri – que sucedeu Cristina Kirchner no último dia 10 de dezembro – prometeu as filhas de Nisman que ele iria fazer o possível para esclarecer a morte do promotor.

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