Ovacionado, pontífice disse que é preciso uma participação mais real e maior adaptaçãoo de todos os países
O papa Francisco abriu os trabalhos da 70ª Assembleia Geral das Nações Unidas e pediu uma reforma da entidade para "se adaptar aos novos tempos". Ovacionado de pé ao fim da fala nesta sexta-feira (25), o Pontífice tocou em temas importantes da atual situação mundial.
"A experiência desses 70 anos demonstram que reforma e a adaptação aos novos tempos são sempre necessários, progredindo até o objetivo final de conceder a todos os países, sem exceção, uma participação e uma incidência igual nas decisões", destacou.
Para o Pontífice, isso vale para os "órgãos de capacidade executiva, como o Conselho de Segurança, organismos financeiros e grupos ou mecanismos criados, especificamente, para enfrentar as crises econômicas".
Dando destaque especial aos órgãos financeiros, Jorge Mario Bergoglio disse que a medida ajudará a "por fim" em qualquer tipo de abuso "especialmente contra os países em desenvolvimento".
"Os organismos devem vigiar a ordem do desenvolvimento sustentável dos países para evitar uma asfixiante submissão de tais nações aos sistemas de crédito que, bem longe de promover o progresso, submetem as populações a mecanismos de maiores pobrezas, exclusão e dependência", disse.
Ouvindo atentamente seu discurso, estavam a presidente brasileira, Dilma Rousseff, a chanceler alemã, Angela Merkel, a líder chilena, Michelle Bachelet, o casal Bill e Melinda Gates e a Nobel da Paz de 2014, Malala Yousafzai.
Ao mesmo tempo que pedia por mudanças, o sucessor de Bento XVI elogiou a história da entidade, que mesmo nem sempre atingindo seus objetivos, consegue ajudar na "construção" da fraternidade humana. "Todas estas realizações são luzes que contrastam com a obscuridade da desordem, causada por ambições descontroladas e egoísmo coletivo. Apesar de ter muitos problemas para resolver, todavia, é seguro dizer que se faltasse a ONU, a humanidade poderia não ter sobrevivido", elogiou.
Justiça social e meio ambiente
Como faz comumente em suas homilias e preces, o Papa interligou o respeito à natureza aos problemas sociais enfrentados pelos mais pobres. Para Francisco, é preciso "afirmar, antes de tudo, a existência de um verdadeiro direito do ambiente.
"Primeiro, porque como seres humanos fazemos parte do ambiente, vivemos em comunhão com ele e temos um dever ético de respeitá-lo. Um dano ao meio ambiente é um dano à humanidade. Em segundo lugar, porque cada uma das criaturas possui um valor existencial, de vida e de interdependência", discursou.
Citando as diversas religiões, o líder da Igreja Católica destacou que as religiões monoteístas acreditam em um "Deus Criador" e que devem utilizar a natureza sem "abusar dela ou destruí-la".
Em outras crenças politeístas, todos consideram que "o ambiente é um bem fundamental". Para Bergoglio, a exclusão econômica e social, que provoca danos à natureza, "é uma negação da fraternidade humana e um crime gravíssimo à humanidade e ao ambiente". "Pois, os mais pobres são os que sofrem mais por três motivos: são descartados pela sociedade, vivem de desperdícios e sofrem injustamente com as consequências do mau uso do ambiente. Essa é a cultura do descarte, tão difundida atualmente", ressaltou.
O líder católico também quer superar o mais rapidamente a situação de exclusão social, como o tráfico de seres humanos, exploração sexual, trabalho escravo, tráfico de armas e drogas e terrorismo", ressaltou.
O religioso ainda destacou que, mesmo com as prováveis assinaturas de acordos, o "desenvolvimento humano integral não pode ser imposto, mas deve ser construídos por cada um e por cada família".
Acordo nuclear
Durante seu longo discurso, o Pontífice ainda ressaltou a importância do fim das guerras e da prática da diplomacia para resolver conflitos. Sem citar diretamente o acordo nuclear do Irã e dos países ocidentais, Francisco disse que esse foi um exemplo do que as conversas podem trazer.
"É preciso se empenhar em um mundo sem armas nucleares, aplicando plenamente os tratados internacionais para se chegar a uma proibição total desses instrumentos. O recente acordo sobre a questão nuclear em uma região sensível no Oriente Médio é uma prova de que paciência, constância resolvem", disse o líder católico ressaltando que torce para o acordo ser "duradouro e eficaz e que com a colaboração de todos, produza os frutos esperados".
Terrorismo
Bergoglio ainda lembrou sobre a "dolorosa situação" que cristãos e minorias religiosas enfrentam na Síria e no Iraque, onde quem não se deixa "envolver pelo ódio e pela loucura" precisou "fugir ou pagar um alto preço" para ficar. "Essas realidades devem constituir um sério apelo para aqueles que têm responsabilidade em negociar a paz, seja na Ucrânia, Síria, Sudão do Sul ou Iraque", disse o Pontífice fazendo um apelo para que as pessoas não virem apenas parte de "estratégias ou números" dos conflitos.
Para Francisco, "a guerra é uma negação de todos os direitos e é uma agressão dramática ao meio ambiente". "É preciso continuar incansavelmente o esforço de evitar a guerra entre as nações e entre os povos. Para isso, é preciso assegurar o empenho incontestado dos direitos humanos como é proposto pela Carta das Nações Unidas", destacou.




