Para especialistas, além dos norte-coreanos, países como EUA, Rússia e a própria Coreia do Sul rejeitam a possível mudança

Que a própria Coreia do Norte não queira se unificar com a do Sul, muito já se fala. Afinal, Kim Jong-un , líder supremo do país, não teria razão para dividir seu poder, o apoio da população e seus investimentos nucleares em um momento de avanço social e econômico expressivo. Mas a nação mais fechada do mundo não é a única interessada em manter-se no isolamento.

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O então líder norte-coreano Kim Jong Il, à esq., caminha com o filho Kim Jong Un, à dir., enquanto assistem à marcha comemorativa na Coreia do Norte (2010)
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O então líder norte-coreano Kim Jong Il, à esq., caminha com o filho Kim Jong Un, à dir., enquanto assistem à marcha comemorativa na Coreia do Norte (2010)

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Apesar de o tema ser colocado pelas grandes potências mundiais como um desafio que, se alcançado, permitiria maior integração com o ocidente e a própria Ásia, o fato é que a unificação não interessa a ninguém. Essa é a constatação dos professores de relações internacionais da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRS), Paulo Fagundes Vizentini e Analúcia Danilevicz Pereira, que estiveram no país e escreveram o livro "A Revolução Coreana", a ser publicado pela editora da Unesp até o fim deste mês.

Segundo os pesquisadores, são vários os motivos que levam à essa rejeição. O Japão teme que uma Coreia reunificada se torne uma concorrente econômica séria na Ásia. Os Estados Unidos, que ocupam parte da fronteira sul-coreana, perderiam a razão de permanecer no continente – e, por consequência, sua expressão política na área.  Rússia perderia espaço onde ainda é relevante politicamente e a China ganharia um concorrente capitalista de alto porte. Para a Coreia do Sul, a unificação custaria bilhões apenas para reverter os anos de atraso econômico do vizinho comunista. 

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"O fato mais importante a ser considerado é que a Coreia do Norte, como está hoje, é muito importante para esses países. Todos perderiam com a unificação", analisa Analúcia.

Vizentini explica que essa relutância em reunir as duas Coreias se explica ao longo da história. Depois da guerra com o Sul [1950 – 1953], a Coreia do Norte foi apoiada pela União Soviética (URSS), enquanto os EUA se estabeleceram com a outra parte do país. Com o fim da URSS, os países imaginaram que a nação norte-coreana entraria em colapso. E de fato a economia passou por sua pior crise na década de 1990. Mas conseguiu se "reinventar".  

"Para o Norte, a unificação significaria o fim de sua independência. Mas, acima de tudo, os norte-coreanos vivem uma realidade completamente diferente da do Sul e do restante do mundo. Unir esses dois povos seria um problema interno gravíssimo", pondera o professor.

Força nuclear

Até as prioridades do governo norte-coreano diferem da de outros países, principalmente em termos bélicos. Em maio, o país alardeou o mundo ao informar, por meio do porta-voz da Comissão Nacional de Defesa do país, possuir tecnologia para miniaturizar ogivas nucleares e, por consequência, fabricar mísseis em grande escala.

Em conversa com o iG , Bradley Babson, especialista em Coreia do Norte da Universidade americana Johns Hopkins, afirma que o país tem desenvolvido capacidade nuclear tanto para se defender de possíveis avanços militares contra seu território quanto para ameaçar em direção a Coreia do Sul. 

"Além dos programas nucleares e de mísseis como armas de destruição em massa, a Coreia do Norte tem mantido uma grande e ameaçadora capacidade militar centrada na Coreia do Sul. Embora os problemas econômicos tenham degradado essa capacidade, ele ainda é muito preocupante, especialmente para o país vizinho", admite.

Sociedade moderna

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A expansão dos mercados na Coreia do Norte está em curso desde a fome de meados da década de 1990, quando o país passou por um colapso econômico que provocou escassez de alimentos, levou milhares à morte e acabou com o sistema de produção agrícola. Para sobressair, o sistema de distribuição pública foi vencido pelo mercado de agricultores, que surgiu e cresceu durante o período da fome.

Entre 2002 e 2003, esse sistema foi tão bem adaptado que os mercados privados acabaram legalizados. Nos últimos anos, esses setores se desenvolveram significativamente, principalmente por causa do comércio transfronteiriço com a China. "O Governo tem tolerado esta mudança, mas tentou de vez em quando suprimir os mercados", explica  Bradley Babson.

Agora, grande parte da renda dos norte-coreanos vem de atividades de mercado, e não de trabalhos no âmbito da economia liderada pelo Estado. O governo ainda não abraçou a idéia de apoiar ativamente reformas para gerir essa transição, o que mantém o partido e os militares peças fundamentais para a vida no país. 

Arco do Triunfo em Pyongyang, Coreia do Norte (Arquivo)
Wikimedia Commons
Arco do Triunfo em Pyongyang, Coreia do Norte (Arquivo)

Paralelamente a indústria, há ainda forte investimento na qualificação científica, inclusive do Exército, com objetivo de modernizar o país sem promover reformas que ameacem o regime e a elite dirigente. Nas salas de aula universitárias, por exemplo, todos os alunos têm acesso a computadores – mas com restrição a muitos sites. O mesmo ocorre com a telefonia celular . É possível ver em Pyongyang, capital do país, por exemplo, jovens e adultos grudados em seus aparelhos móveis.

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"Todos têm celular moderno, mas com acesso apenas às linhas nacionais. Isso tem a ver também com um recurso de defesa do país. Eles se protegem de qualquer investida digital", afirma a professora.

Segundo Paulo Fagundes Vizentini, "Esse projeto do Kim é amplamente apoiado por grande parte da sociedade norte-coreana. Mesmo nos momentos de crise" porque, para os norte-coreanos, é importante ter um líder. "É algo que nos foge porque é uma coisa cultural diferente. Mas temos de lembrar que esse país nasceu de uma guerra muito violenta com o Japão, que tentou exterminar o povo, e de conflitos com países como os EUA. Eles precisam se sentir protegidos", pondera Vizentini.

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Governo ditatorial?

Graças ao comércio interno norte-coreano, avalia o especialista, a nação vive hoje um sistema onde o Estado controla recursos estratégicos, como o de minérios, por exemplo, enquanto itens básicos de consumo são comercializados paralelamente.

Segundo notícia publicada pelo site do jornal britânico "The Guardian", a nação tenta revigorar sua economia com mudanças na administração interna. Atualmente, gestores podem, por exemplo, fixar salários e contratar e demitir empregados, além de oferecer aos agricultores participações de lucros. 

Turismo em Pyongyang

O sul-coreano Park Yang-gon, à esquerda, e seu irmão da Coreia do Norte, Park Yang Soo, se emocionam em encontro de parentes separados pelos conflitos entre os países realizado no lado norte da Coreia (02/2014)
AP
O sul-coreano Park Yang-gon, à esquerda, e seu irmão da Coreia do Norte, Park Yang Soo, se emocionam em encontro de parentes separados pelos conflitos entre os países realizado no lado norte da Coreia (02/2014)

Os professores da UFRS afirmam que, diferente do que se pensa, as ruas da capital são cheias de turistas, muitos deles europeus e norte-americanos. Analúcia destaca a rapidez em conseguir o visto na embaixada norte-coreana em Brasília mesmo após comunicar o objetivo no país: estudar a estrutura norte-coreana junto a uma comitiva.

"Não foi imposto nenhum limite, inclusive para fotografar. A única exceção foi nos lugares considerados estratégicos para os militares, como um museu da guerra", diz a estudiosa.

Ainda segundo relatos dos pesquisadores, é possível ver também famílias instaladas em casas confortáveis e coloridas em meio a bairros arborizados e agradáveis. Em regiões mais afastadas do grande centro financeiro do país, o único barulho nas ruas vem do apito dos guardas de trânsito organizando o fluxo de carros e de pedestres. Mas sem muito trabalho. "Eles são muito disciplinados".

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Grande parte dessa disciplina é aprendida em sala de aula. Há escolas em vários locais da capital e creches as fábricas, para facilitar a vida dos pais. O ensino básico é obrigatório e gratuito. Nas universidades, há ofertas de cursos em áreas como humanas, científico, exatas e técnicas, tanto em nível de graduação quanto de pós.

Kim Jong Un

Uma das características mais marcantes de Kim Jong Un – à frente do país desde 2011, quando o pai dele, Kim Jong-il (1942–2011, de acordo com registro norte-coreano), morreu – é o carisma. Segundo Vizentini, essa característica inclusive aproximou ainda mais a família ao povo norte-coreano. Analúcia concorda com a menção do colega e afirma que o jovem recuperou "todo o carisma que a família real havia perdido". 

"Há um apoio muito forte em cima do Kim porque ele recuperou a estrutura do partido e redefiniu o poder dos militares no país. Ele promoveu um novo equilíbrio politico para a Coreia do Norte e a gente sente o apoio dele nas ruas", diz a professora.

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Ainda assim, os professoras destacam que pouco se sabe sobre o jovem, que nasceu entre 1983 e 1984 e é filho da terceira mulher de Ko Yong-il, ou de seus objetivos para o país coreano. 

"Aqui no Brasil e nos EUA, todos podem falar mal do governo e não acontece nada. Porque existem outros mecanismos de controle. Lá é uma coisa totalmente diferente. Aquela sociedade é asiática, muito nacionalista. É uma maneira de preservar o sistema", afirma Vizentini.  Tecnicamente, ambas as Coreias estão em guerra desde o fim do conflito dos anos 1950, que terminou com um armistício em vez de um tratado de paz.

Cenário de polêmicas

Imagens do julgamento do norte-coreano Jang Song Thaek. Ele foi executado (Arquivo)
Reprodução/Youtube
Imagens do julgamento do norte-coreano Jang Song Thaek. Ele foi executado (Arquivo)


Em grande parte, a tensão entre as duas Coreias se dá por causa dos mísseis norte-coreanos e dos outros testes com armas que a Coreia do Sul vê como provocações. Recentemente, porém, outro motivo veio à tona. A agência de espionagem da Coréia do Sul informou na semana passada que o líder norte-coreano Kim Jong Un teve seu chefe de defesa executado a tiros no final de abril, segundo a agência de notícias Associated Press (AP).

Antes disso, em 2014, Kim foi notícia quando sua tia sofreu um AVC , acidente vascular cerebral, fatal enquanto estava ao telefone com ele, possivelmente discutindo a execução de seu marido, tio do jovem, conforme noticiou o site da "CNN".  

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Em um dos relatos mais impressionantes sobre o país liderado por Kim, a norte-coreana  Yeomni Park  afirmou ao site BBC ter comido grama e insetos para sobreviver após fugir do regime ditatorial do país rumo a China com a família, em 2007. À época com 13 anos, ela conta ainda que sua mãe acabou sendo estuprada tentando proteger os filhos. 

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