Irlanda registra alta participação em plebiscito inédito sobre casamento gay

Por BBC |

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A Irlanda registrou um índice "alto e incomum" na participação de eleitores no plebicito sobre a legalização do casamento gay no país.

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Com o encerramento da votação às 22h no horário local desta sexta-feira (22), foi divulgado que mais de 3,2 milhões de pessoas foram às urnas para dizer se aprovam uma emenda à Constituição irlandesa para permitir o casamento entre homossexuais.

Segundo a emissora RTÉ, o percentual de eleitores que votaram foi bem mais alto do que em referendos anteriores.

Nas cidades de Dublin, Limerick e Waterford, este índice chegou a 60% do eleitorado, enquanto em Cork, Carlow, Kilkenny, Donegal, Tipperary, Kerry e Galway, ficou acima de 50%.

Todos os cidadãos registrados como eleitores puderam votar, mas a votação pelo correio não foi permitida, fazendo com que muitas pessoas que estavam fora do país voltassem para casa para participar do plebiscito.

O resultado do referendo será conhecido no sábado.

Inédito

Esta foi a primeira vez que um país realizou um referendo para decidir sobre esse tipo de união no mundo, que já é legal em 19 países.

A opção pelas urnas difere da feita por outras nações, entre elas o Brasil, onde o casamento gay foi decidido por votação no Parlamento ou por decisão judicial.

O referendo dividiu o país. Enquanto a causa foi apoiada pelos principais partidos políticos da Irlanda, a Igreja Católica e os conservadores defenderam o "não".

Bastante conhecida dos irlandeses, a personagem Mrs. Brown, interpretada pelo comediante Brendan O'Carroll, fez um vídeo pedindo o voto "sim" no referendo.

No vídeo, Brown diz que "era ainda uma menina quando houve uma grande polêmica sobre casamentos inter-raciais e inter-religiosos, com brancos casando com negros e católicos casando com protestantes".

"Mas, você sabe, eles se casaram, e o mundo não acabou. E todos nós crescemos um pouquinho", afirma a personagem.

Já o irlandês Keith Mills não concordou com o conteúdo do vídeo. Ele é gay, mas se opõe ao casamento entre homossexuais.

"Estamos sendo questionados se achamos que um casamento homossexual é igual a um casamento heterossexual. Não é. Devemos garantir a igualdade de direitos a casais do mesmo sexo por meio de uniões civis, mas preservar o casamento para uma mãe, um pai e seus filhos", opina Mills.

'Discriminação'

O casal Denise Charlton e Paula Fargan pensa diferente. Depois de um dia inteiro de campanha pelo "sim", elas – que têm dois filhos pequenos - dizem querer se casar e dizer o tão sonhado "eu aceito" durante uma cerimônia.

Denise argumenta que tudo se resume à "igualdade" e compara sua situação à dos negros nos Estados Unidos, que lutaram por direitos iguais aos dos brancos.

"Rosa Parks (símbolo do movimento dos direitos civis dos negros nos EUA) lutou contra a discriminação quando decidiu não ceder seu lugar a um branco", lembra ela.

Rosa chegou a ser presa, e houve uma comoção nacional, "porque os negros eram tratados de maneira inferior (à dos brancos), e as pessoas reconheceram isso", afirma Denise.

"Acredito que os irlandeses estão cada vez mais cientes de que é discriminatório não permitir aos gays ter acesso à instituição do casamento. Para mim, aceitar uma instituição alternativa com menos direitos não é a igualdade que eu quero", critica.

Sua companheira, Paula, concorda e diz que o voto pelo "sim" daria maior liberdade a jovens gays para saírem do armário e serem aceitos, além de tornarem famílias com a dela mais completas para os filhos desses casais.

"Eles (filhos) nos amam e acham que a nossa família é fantástica", diz Paula.

"Nosso menino de nove anos disse noutro dia: 'Todo mundo está votando 'sim' porque todo mundo da minha sala de aula me disse que os pais estão votando 'sim'."

"Acredito que eles ficarão muito tristes se o 'não' ganhar porque eles amam a nossa família do jeito que ela é", opina Paula.

Os defensores do "não" também recorreram às mídias sociais para espalhar a mensagem contra a legalização do casamento gay.

Um dos vídeos diz: "Se nós votarmos 'sim' em 22 de maio, seremos forçados a fingir que dois pais ou duas mães são iguais a um pai e uma mãe. Por isso que a igualdade de casamento é, na verdade, desigual para as crianças."

Os principais partidos políticos, por outro lado, discordam dessa visão e estão apoiando a campanha do "sim".

'Maioria silenciosa'

O senador Rónán Mullen foi um dos poucos parlamentares a defender abertamente o "não" e diz acreditar pertencer a uma "maioria silenciosa".

"Talvez isso aconteça porque muitos irlandeses têm medo de serem julgados, de serem taxados de homofóbicos ou intolerantes, só porque querem votar a favor do direito de uma criança a ter um pai e uma mãe. Essas pessoas não são contra os homossexuais e não são contra a união civil, que já existe", argumenta Mullen.

"Essas pessoas serão soberanas nas urnas e espero que haja votos suficientes para rejeitar essa proposta", acrescenta o parlamentar.

A relação homossexual só foi descriminalizada em 1993 no país. Ativistas afirmam que, por causa disso, a legalização do casamento gay por meio de uma votação popular constituiria uma mudança importante para a Irlanda.

Visibilidade

Mas, com políticos, ex e atuais ministros, juízes, atletas, empresários e celebridades abertamente gays, a Irlanda mudou muito nas últimas duas décadas.

Pode soar estranho que enquanto os gays tenham sido historicamente discriminados e, por vezes, violentamente agredidos, agora aqueles que se opõem ao casamento entre pessoas do mesmo sexo se sintam vítimas do que, para eles, é resultado da parcialidade da mídia e do "politicamente correto".

David Farrell, professor de política da University College Dublin, acredita que a modernização e os escândalos envolvendo abuso sexual de muitas crianças por padres católicos estejam por trás das mudanças na sociedade irlandesa.

"Adoro mostrar a meus alunos duas imagens em justaposição. Uma delas é de Éamon De Valera beijando o anel de um bispo enquanto era presidente da Irlanda. A outra é do nosso atual primeiro-ministro, Enda Kenny, em um bar gay", diz ele.

"Sem dúvida alguma percorremos um longo caminho. Nunca pensei que isso seria possível nesse país."

Independentemente do resultado das urnas, ambos os lados esperam uma votação contagem de votos acirrada.

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