Presidente do Kosovo desiste de evento em SP após receber visto sérvio do Brasil

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Governo cedeu um visto temporário considerando que Jahjaga é sérvia; Brasil não reconhece independência do Kosovo

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Atifete Jahjaga, presidente do Kosovo, junto com Hillary Clinton, durante cerimônia oficial
Reprodução/ U.S. Department of State from United States
Atifete Jahjaga, presidente do Kosovo, junto com Hillary Clinton, durante cerimônia oficial

Uma das principais estrelas de um evento global sobre mulheres que neste ano acontece no Brasil, a presidente do Kosovo, Atifete Jahjaga, desmarcou de última hora a vinda ao país, após recusar receber um visto temporário do governo brasileiro no qual constaria sua nacionalidade como "sérvia", segundo apurou a BBC Brasil. 

O incidente ocorreu porque o Brasil não reconhece a independência do Kosovo da Sérvia, declarada unilateralmente em fevereiro de 2008. 

Jahjaga era uma das convidadas mais esperadas do Global Summit of Women, que acontece em São Paulo. Ela deveria participar de um painel no fim da tarde de quinta-feira, junto com a ministra da Secretaria de Políticas para as Mulheres do governo brasileiro, Eleonora Menicucci, e após uma palestra do ministro da Fazenda, Joaquim Levy, que abriu o fórum. 

Conhecido como "Davos das Mulheres", o evento termina neste sábado. O Brasil foi escolhido para receber a 25ª edição da conferência em que mais de mil mulheres de 70 diferentes países, entre as quais autoridades e executivas, discutem empoderamento feminino e oportunidades de negócios.

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Procurado pela reportagem da BBC Brasil para comentar o episódio, o Ministério das Relações Exteriores confirmou, por meio de sua assessoria de imprensa, que ofereceu um "visto de cortesia" à presidente kosovar.

O "visto de cortesia" destina-se a personalidades e autoridades estrangeiras em viagem não oficial ao Brasil. No entanto, como o governo brasileiro não reconhece a independência do Kosovo ─ e, portanto, a nacionalidade "kosovar" ─ propôs emiti-lo com a nacionalidade "sérvia", o que não foi aceito por Jahjaga e sua comitiva.

"O Itamaraty informa que não houve denegação de visto por parte do governo brasileiro. Apesar de ter sido oferecido visto de cortesia à representante da referida delegação (com a aposição expressa de ressalva de que o ato de concessão de visto não implica reconhecimento do Estado pelo Governo brasileiro), os termos da concessão do visto não foram aceitos pelos membros da delegação", informou o Itamaraty à BBC Brasil. 

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A organização do evento limitou-se a dizer que a ausência de Jahjaga se deveu "a um problema com visto".

'Saia justa' 

O imbróglio diplomático causou uma saia justa inclusive a autoridades brasileiras. 

Fontes consultadas pela BBC Brasil dizem que o ministro da Fazenda, Joaquim Levy, teria demonstrado preocupação em eventualmente aparecer publicamente com a presidente kosovar. 

"A primeira coisa que ele perguntou quando saiu do carro foi se a presidente do Kosovo estava aqui, porque ficou com medo de ser fotografado com ela e criar uma saia justa diplomática", disse à BBC Brasil uma participante do evento que não quis se identificar. O episódio foi confirmado por outra fonte.

Levy abriu oficialmente o evento na tarde de quinta-feira, com uma palestra intitulada "Fazendo Negócios com o Brasil", na qual falou sobre as possibilidades do mercado brasileiro.

Durante toda a sexta-feira, do lado de fora das salas onde ocorriam os painéis, o estande do Kosovo permaneceu vazio, em contraste com o de outros países.

Reconhecimento 

O Kosovo, cuja área equivale à metade da do Estado de Sergipe, é reconhecido diplomaticamente como Estado independente por 109 países, entre eles Estados Unidos, França e Reino Unido. 

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Em contrapartida, além do Brasil, Rússia e China também não reconhecem a independência do país. Na América do Sul, apenas Colômbia e Peru reconhecem o Kosovo como Estado independente. 

De maioria albanesa, o Kosovo declarou independência da Sérvia pela primeira vez em 1991, mas naquela ocasião a declaração não foi reconhecida pela comunidade internacional. 

No fim da década de 1990, a tensão entre separatistas de origem albanesa e o governo central da Iugoslávia, liderado pelo então presidente nacionalista Slobodan Milosevic, aumentou. Em março de 1999, com o fracasso das negociações entre os envolvidos, a Otan atacou a Iugoslávia, dando início à Guerra do Kosovo. O conflito deixou milhares de desabrigados e refugiados. 

Em junho do mesmo ano, líderes ocidentais e iugoslavos chegaram a um acordo para colocar fim à guerra. 

Em fevereiro de 2008, o Parlamento kosovar declarou independência da Sérvia. O governo sérvio, no entanto, se recusa a reconhecer o Kosovo como um Estado, apesar de aceitar a legitimidade das instituições públicas e o status especial do que chama de "Província autônoma" dentro do país.

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