Alto número de homicídios e confrontos entre cartéis do tráfico colocam em risco futuro de balneário imortalizado por filmes e estrelas de Hollywood

BBC

Uma caminhonete da marca Nissan, pequena, branca e discreta, cruza a cidade mexicana de Acapulco pela terceira vez em apenas um dia. Muitos reconhecem o veículo: é a caminhonete do serviço de perícia criminal.

E desta vez, a caminhonete se dirige para uma região isolada das áreas turísticas onde um passageiro foi assassinado dentro de um ônibus urbano.

O veículo estaciona em frente à cena do crime e suas luzes iluminam as dezenas de curiosos que cercam a porta traseira do ônibus.

Em poucos minutos outra caminhonete chega para levar o corpo.

Pela porta traseira do ônibus é possível ver as pernas do homem morto, iluminadas por flashes de câmeras. Não muito longe, um grupo de jovens joga basquete sem prestar atenção ao incidente.

Uma mulher chega contando a todos que apenas na semana passada, a algumas quadras do local, outro homem foi morto a tiros.

Mas, momentos depois, quando uma equipe de televisão pergunta a esta senhora o que ela acha da cidade, a resposta é rápida. "Acapulco é um paraíso."

Enclave de Hollywood

Enrique Diez Clavel é uma espécie de memória viva de Acapulco. Octogenário, sofrendo de problemas de audição, a mente dele está intacta.

Ele lê as perguntas passadas por escrito e logo sua memória transborda com imagens e histórias de atores e atrizes da Hollywood da década de 1950.

"Em 1957, no moderno Hotel Las Brisas, se casou, pela enésima vez, a atriz britânica Elizabeth Taylor. Alguns anos depois veio, em sua quarta lua-de-mel, a diva do cinema francês, Brigitte Bardot, com um cinegrafista, com quem passou vários dias. Neste caso, tive a oportunidade de entrevistá-la no Aeroporto Internacional Juan Alvarez", disse Clavel, com entusiasmo.

Estes casos ocorreram na época em que o então futuro presidente dos Estados Unidos, John F. Kennedy, passou sua lua-de-mel em Acapulco com Jackie; quando Elvis Presley filmou na cidade o filme O Seresteiro de Acapulco; e Orson Welles filmou A Dama de Xangai; quando a cidade mexicana tinha apenas cem mil habitantes.

Estamos nas mesas de uma área aberta do restaurante do Hotel Flamingo, que se equilibra em uma área de rochedos com uma vista espetacular para o mar. Em um canto, uma família de americanos almoça.

Como Acapulco, este hotel já viu dias melhores. Já foi propriedade de John Wayne e Johnny Weissmuller, que usavam o local como refúgio para escapar do público. O local era conhecido como "o esconderijo do bando de Hollywood".

Daquela época conservou a piscina original e a "casa de Tarzan", uma construção redonda na ponta norte do hotel onde o ator Weissmuller, intérprete de Tarzan, viveu por vários anos. Ele morreu e está sepultado em Acapulco.

Enrique Clavel foi declarado oficialmente em 1988 "cronista da cidade", cargo pelo qual recebe remuneração. De certa forma ele continua vivendo naquela época.

Entregamos outra pergunta por escrito: o que acha de Acapulco ser a terceira cidade mais violenta do mundo? Ele lê a pergunta sacudindo a cabeça para os lados.

"Falam muito, mas vocês e todos podem caminhar por Acapulco... Eu discordo destas pesquisas. No meu modo de ver, Acapulco não tem a categoria de grande violência", disse Clavel, sorrindo.

Mas os números contam outra história. Acapulco ficou em terceiro lugar nos dois últimos anos no ranking global das 50 cidades mais violentas do mundo, da ONG mexicana Conselho Cidadão para a Segurança Pública e Justiça Penal. A cidade é a mais violenta do México.

O método da comparação é o número de homicídios por cada cem mil habitantes.

O primeiro lugar (durante quatro anos seguidos) é de San Pedro Sula, em Honduras, que em 2014 registrou 1.317 homicídios. Com 769 mil habitantes, isto significa que a taxa é de 171,20 homicídios por cada cem mil pessoas.

No segundo lugar (também pelo segundo ano consecutivo) está Caracas, a capital da Venezuela.

Acapulco chegou ao terceiro lugar por apresentar 883 homicídios em 2014. A taxa por cada cem mil habitantes é 104,16. De acordo com números de 2012, o município tem 687.608 habitantes.

Brilho que desbota

A cidade começou a perder o brilho no meio da década de 1970, quando outros balneários, como Cancún, começaram a chamar mais atenção dos turistas.

Segundo um estudo da Secretaria de Turismo, citado pelo jornal Milenio, desde aquela época a cidade não renovou sua infraestrutura. Fazer apenas o básico em Acapulco custaria um investimento de US$ 412 milhões (cerca de R$ 1,2 bilhão).

A cidade está em uma das regiões mais disputadas pelos cartéis de tráfico de drogas. Primeiro, por ser uma das principais rotas de contrabando; e segundo, porque as montanhas de Guerrero, na região, se transformaram na principal zona de cultivo de papoulas do país - matéria-prima para a heroína.

Nos Estados Unidos o consumo de heroína aumentou cerca de 65% nos últimos quatro anos e o México se transformou no principal exportador da droga para o país, à frente inclusve da Colômbia, segundo William Brownfield, subsecretário de Estado adjunto americano para Assuntos Antinarcóticos.

A pior fase de violência em Acapulco começa com o desmoronamento do cartal dos Beltrán Leyva, no fim de 2009. Até então, o grupo criminal chefiado pelos irmãos Arturo, Alfredo, Héctor e Carlos controlava a região. Um conflito com o antigo sócio, Joaquín "El Chapo" Guzmán, levou à queda do cartel, com a prisão de alguns dos irmãos e morte de outros.

Os grupos que faziam parte do cartel, como o Los Guerreros Unidos ou Los Rojos, começaram a disputar o controle de territórios enquanto outras organizações entravam na área.

Segundo informações da polícia, o cartel que hoje atua na região com mais agressividade é o Cartel Independente de Acapulco (Cida). No começo deste mês o líder do cartel, Victo Hugo Aguirre Garzón, também chamado de "El Gordo", foi detido. Mas a violência continua.

Otimismo

Mesmo nesse contexto, alguns estão otimistas. Erick de Santiago é um deles. O empresário do setor de turismo preside a associação "Fale bem de Acapulco", criada em 2010, depois da epidemia de gripe suína e do assassinato de 20 turistas no Estado de Michoacán por parte do Cartel Independente de Acapulco (Cida).

"(A associação) nasceu como um esforço para promover o que há de bom em Acapulco, sem tapar o sol com a peneira. Nossos últimos anos não foram os melhores, mas sempre há coisas boas para falar."

"Além disso, Acapulco é enorme. Temos sete distritos. Se acontece algo a oito ou dez quilômetros, ainda é parte da cidade, pois a referência é Acapulco", acrescentou.

Santiago contou que 2011 e 2012 foram os anos mais difíceis em termos de recrudescimento da violência. Em seguida, vieram os furacões Manuel e Ingrid.

Para o empresário, outros Estados têm problemas parecidos, mas não se fala tanto deles.

Luis Uruñuela, prefeito de Acapulco, reconhece que a violência extrema afeta a cidade, mas também destaca os esforços para superar a situação. Ele cita os estrangeiros que passam férias na cidade há 35 anos.

Quando mencionamos a desconfiança do público em relação às autoridades, as denúncias de corrupção, ele não nega, mas afirma que sua obrigação é não alarmar os cidadãos.

E repete o que já escutamos: a violência está localizada em certas áreas e não afeta o turismo.

Na cidade existem sete divisões da Polícia Federal. São mais de 1,1 mil policiais liderados por José Antonio Cabrera Méndez.

"Se analisarmos a fundo, (a violência é causada) pela batalha entre os grupos criminosos que, para ganhar território, começam a brigar entre eles. Não é contra a sociedade", afirmou Méndez.

Paraíso

De certa forma, Acapulco é um paraíso. De um edifício alto é possível ver a baía luminosa da cidade.

Mas a área litorânea é a parte mais suave da cidade. À medida que se avança para longe do mar, a cidade vai endurecendo.

É possível ouvir várias testemunhas da violência. Até o momento em que ouvimos o depoimento de uma pessoa tocada diretamente pela criminalidade.

Jazmin mora em um dos bairros mais difíceis dos arredores da cidade, onde a popuação até evita o tema. A princípio, nem ela e nem o marido queriam falar, mas nos deixaram entrar em sua casa e nos contaram a sua história.

"Levaram minha filha em um dia de dezembro de 2013. Ela gritava. Os vizinhos viram quem foi. Deixaram-na no mesmo lugar no outro dia, às nove da manhã. Estrangulada com um cabo de aço. As mãos amarradas para trás, como se fosse uma criminosa."

Com a câmera desligada, ela diz que um juiz pediu 25 mil pesos (cerca de R$ 4.800) para mandar o assassino padra a cadeia. Como a família não tinha este dinheiro, o assassino continua livre.

No final, ela nos pede para colocar na reportagem o nome fictício de Jazmin, uma flor, como uma recordação de sua filha.

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