"Genocídio" armênio ainda é tabu na Turquia

Por BBC | - Atualizada às

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Armênia diz que 1,5 milhão de pessoas foram assassinadas em 1915 e considera genocídio ato, em consonância com muitos acadêmicos e cerca de 20 países – Brasil faz eco aos turcos

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Sevag Balikci nunca teve a chance de conhecer seu novo quarto. Sua família, formada por turcos de origem armênia, se mudou para seu apartamento em Istambul, na Turquia, no início de 2011.

Sevag estava terminando o serviço militar no sudeste do país. Em 24 de abril, aos 25 anos de idade, ele foi morto por um colega do Exército. O juiz considerou sua morte um acidente, sentenciando o soldado a quatro anos de prisão.

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Sua família tem certeza de que foi um ato intencional promovido por um nacionalista turco em uma data escolhida a dedo para gerar o maior impacto possível. "O genocídio estava sendo celebrado, e o assassino queria intimidar as pessoas por meio do meu filho", diz Ani Balikci, mãe de Sevag.

"Um armênio tinha de morrer naquele dia ─ e Sevag estava ali. As autoridades fizeram testemunhas mudarem seus depoimentos. É melhor para eles dizer que foi um acidente."

Armênios são deportados por turco-otomanos em abril de 1915, durante a Primeira Grande Guerra
Arquivo
Armênios são deportados por turco-otomanos em abril de 1915, durante a Primeira Grande Guerra

Momento negro
O dia 24 de abril é a data em que armênios relembram seu momento mais negro na história. Há 100 anos, eles foram deportados ou mortos por um Império Turco-Otomano em decadência.

A Armênia diz que 1,5 milhão de pessoas foram assassinadas e considera este ato um "genocídio", em consonância com muitos acadêmicos e cerca de 20 países (Brasil não incluído).

A denominação, no entanto, ainda é um tabu na Turquia, onde o governo rejeita o termo, alegando que o número de mortes é muito menor ─ e que muitas teriam sido causadas por fome ou doença ou por conflitos durante a 1ª Guerra Mundial.

O governo também afirma que as diversas mortes de turcos são ignoradas pela comunidade internacional.

Cidadãos de segunda classe
Armênios sempre foram tratados como cidadãos de segunda classe no Império Turco-Otomano e revoltas esporádicas eram suprimidas violentamente.

Com o desenrolar da 1ª Guerra Mundial, líderes otomanos culparam a frágil união nacional pelas derrotas nos Balcãs e em outros locais, enxergando na minoria armênia uma ameaça.

De uma população pré-Primeira Guerra de 2 milhões de pessoas, restam apenas 500 mil armênios na Turquia hoje em dia. Por décadas, turcos cresceram sem ter conhecimento do que ocorreu em 1915. Livros escolares omitiam o fato. Líderes políticos silenciavam diante do tema.

Quando o assunto finalmente foi abordado no país, a versão oficial turca o chamou de "os acontecimentos armênios".

Perdão
Mas, na última década, aulas de história em algumas universidades começaram a tratar do período e um pequeno grupo liberal começou a falar dele publicamente.

A primeira iniciativa nesse sentido partiu de 300 intelectuais turcos, que assinaram um documento pedindo perdão à Armênia. Entre eles, estava Ahmet Insel, professor da Universidade Galatasaray.

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"Foi um genocídio e um crime contra a humanidade", ele diz, diante do Museu de Artes Islâmicas, em Istambul, local para onde os primeiros armênios foram trazidos no início do século passado.

"A Turquia tem a obrigação moral de reconhecê-lo como tal para que se torne uma democracia moderna e civilizada." 

Ele diz não esperar que ocorra um reconhecimento oficial dentro dos próximos dez anos: "Chamar de genocídio permitiria que armênios pedissem uma compensação financeira da Turquia ─ este é um dos obstáculos".

Progresso lento
O governo atual vem realizando um lento progresso em relação à questão, devolvendo aos armênios propriedades confiscadas.

E, no ano passado, o então primeiro-ministro Recep Tayyip Erdogan ─ hoje presidente ─ ofereceu suas "condolências" para as famílias das vítimas, chamando as mortes de "desumanas".

Foi o mais longe que um líder político turco chegou, mas o gesto foi rejeitado pela Armênia pela ausência da palavra "genocídio". Com a chegada do centenário, a retórica endureceu novamente.

Quando o papa Francisco disse há duas semanas que os armênios tinham sido vítimas do "primeiro genocídio do século 20", Erdogan retrucou, dizendo que ele "reprovava" o papa, alertando para não "repetir o mesmo erro".

Nacionalismo
Em parte, o presidente busca apoio dos eleitores nacionalistas antes da eleição de junho. Mas a Turquia, que valoriza muito seu prestígio e sua imagem de força, rechaça uma palavra que possa associá-la com os genocídios de Ruanda, Srebrenica e Auschwitz.

Em Istambul, o partido de extrema direita MHP faz campanha repetindo esse discurso. "Não houve genocídio", diz Hakan Aslan, um dos presidentes regionais da legenda. "Todos os grupos étnicos que pagavam seus impostos ao Império Turco-Otomano e que não eram traidores foram deixados em paz."

Relutância
Talvez não haja evidência mais clara dessa relutância do que a comemoração do centenário em si, quando a Turquia celebrará os cem anos da campanha de Galípoli, como é chamada a vitória das forças otomanas sobre as tropas aliadas.

O fato nunca foi relembrado em 24 de abril, mas a cerimônia será realizada neste dia em 2015, algo apontado por críticos como uma forma de tirar o foco das homenagens ao povo armênio.

Erdogan convidou líderes mundiais, entre eles o presidente armênio, que enviou uma resposta raivosa, chamando a comemoração de Galípoli de uma "tentativa de distração". A maioria dos outros líderes também recusou o convite.

Um deles foi mais longe. Nesta quinta-feira (23), na véspera de um debate no parlamento sobre o tema, o presidente alemão, Joachim Gauck, descreveu as mortes de armênios como "genocídio".

"O destino dado aos armênios é um exemplo histórico de exterminações em massa, limpezas étnicas, deportações e, sim, genocídios que marcaram de forma terrível o século 20", afirmou Gauck.

Ele ainda acrescentou que cabe aos alemães parte da responsabilidade "e, em alguns casos, a cumplicidade" em relação ao "genocídio armênio". A Alemanha era aliada do Império Turco-Otomano durante a Primeira Guerra.

Túmulos
Enquanto isso, a mãe de Sevag me mostra o antigo quarto de seu filho, que ela manteve intacto. "Não podemos jogar seus pertences fora, porque seria como dizer adeus a ele", diz Ani Balikci, aos prantos.

"Há um século, minha família era morta no genocídio. E, agora, um de seus descendentes teve o mesmo destino."

O túmulo de Sevag está no centro do cemitério armênio em Istambul. Uma pedra de mármore traz seu nome, foto e data da morte. Mas, nos túmulos ao redor, nenhum data de 1915. Na verdade, não há um cemitério na Turquia dedicado a essas vítimas.

Trata-se de um sinal, segundo os críticos, de que o país segue se recusando a enfrentar seu passado.

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