Mexicanos recorrem ao Facebook em busca de estudantes desaparecidos

Por BBC Brasil | - Atualizada às

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Famílias se organizam em grupos nas redes sociais e fazem buscas para procurar corpos de vítimas do tráfico de drogas

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Mexicanos com familiares desaparecidos há anos criaram grupos no Facebook para tentar conseguir ajuda, por não acreditar que autoridades conseguirão encontrá-los.  

Assista: Mexicanos exigem explicação sobre alunos desaparecidos

Mexicanos estabelecem grupos no Facebook para buscar por familiares desaparecidos
Reprodução/BBC
Mexicanos estabelecem grupos no Facebook para buscar por familiares desaparecidos

Dezembro: Pais de estudantes mexicanos desaparecidos gravam vídeo pedindo justiça

Mais de 25 mil pessoas desapareceram no país, a maioria delas vítima da violência gerada pelos cartéis de tráfico de drogas. Casos recentes, como o dos 43 estudantes desaparecidos há seis meses, chamaram a atenção da imprensa internacional e levaram muitos mexicanos à ação. 

Com a falta de providências das autoridades, milhares de pessoas comuns agora organizam buscas através das redes sociais.

 Uma delas foi acompanhada pelo repórter da BBC Mukul Devichand. Ele se juntou a um grupo que procurava valas comuns onde os cartéis poderiam ter sepultado seus familiares. 

O grupo, chamado no Facebook de "Procurarei por Você até Encontrá-lo", é apenas um dos muitos espaços nas redes sociais destinados a reunir familiares de desaparecidos. 

Eles se também mantêm contato uns com os outros, com o objetivo de oferecer apoio e pressionar as autoridades. 

Sequestrado 

Mario Vergara lidera o grupo "Procurarei por Você até Encontrá-lo", que busca pessoas desaparecidas em Iguala, no Estado de Guerrero, sul do México.

"Muitas pessoas nos contaram, pelo Facebook, que tinham um familiar desaparecido. Diziam: 'tenho um familiar sequestrado, levaram minha filha'", afirmou. 

Mostrando a foto de seu irmão, Tomas Vergara, sequestrado há três anos, Vergara conta como foi o dia em que ele desapareceu. 

"Não o vimos durante toda a tarde, ele não foi até o meu trabalho, perguntamos aos amigos dele, mas ninguém sabia de nada."

"Desde que ele foi sequestrado, todos os dias pensamos em meu irmão", diz. 

Vergara criou o grupo depois de um caso ocorrido na mesma cidade em 2014: 43 estudantes desaparecidos em setembro foram mortos por uma gangue de traficantes, mas a confirmação do massacre só aconteceu em novembro. 

O procurador-geral do México, Jesus Murillo, deu detalhes estarrecedores: os bandidos admitiram a participação de policiais aliciados pelo tráfico na operação. Os estudantes teriam sido entregues à gangue pela própria polícia, depois de serem presos em 26 de setembro durante um protesto em Iguala. No protesto, duramente reprimido pela polícia, morreram seis estudantes. 

Pelo menos 15 dos desaparecidos já estariam mortos por asfixiamento quando foram entregues pela polícia aos traficantes – que fuzilaram os outros estudantes antes de queimar seus corpos.  

Manifestantes olham para imagem do presidente mexicano Enrique Peãa Nieto que queima em protesto por alunos na Cidade do México (20/11) . Foto: ReutersAtivistas ateiam foto em Imagem do presidente mexicano durante protesto em praça da Cidade do México (20/11). Foto: ReutersMultidão se reúne para protestar contra desaparecimento de 43 alunos em praça da Cidade do México (20/11). Foto: ReutersAtivista grita ao ser cercada por policiais enquanto observadores de direitos humanos tentam alcançá-la durante passeata perto de aeroporto da Cidade do México (20/11). Foto: APManifestantes incendeiam veículos no estacionamento do Congresso de Guerrero, no México (12/11). Foto: APManifestantes incendeiam veículos no estacionamento do Congresso de Guerrero, no México (12/11). Foto: APManifestantes incendeiam veículos no estacionamento do Congresso de Guerrero (12/11). Foto: APManifestantes incendeiam veículos no México (12/11). Foto: APVeículos incendiados após protestos no México (12/11). Foto: APManifestantes fazem ato em frente ao palácio presidencial na Cidade do México (9/11). Foto: ReutersEx-prefeito de Iguala, José Luis Abarca, e a mulher, Maria de los Angeles Pineda Villa, falam com representantes do governo estadual em Chilpancingo, México (4/11). Foto: APPresidente Enrique Peña Nieto em coletiva após falar sobre reunião privada com as famílias dos 43 alunos desaparecidos no México (30/10). Foto: ReutersProtesto em Guadalajara, México, contra o desaparecimento de 43 estudantes pede que o governo do país acelere as investigações (24/10). Foto: Ulises Ruiz Basurto/EPA/Agência LusaAtivista mostra fotos de alunos desaparecidos durante protesto em frente ao consulado mexicano na Cidade de Guatemala, México (15/10). Foto: ReutersInvestigadores examinaram 28 corpos encontados numa vala comum, mas nenhum deles era dos estudantes desaparecidos (15/10). Foto: ReutersEstudantes da Escola de Ayotzinapa fazem vigília para lembrar os colegas desaparecidos (14/10). Foto: ReutersCarro capota e é incendiado por estudantes universitários em protesto pelo desaparecimento de alunos do lado de fora de edifício em Guerrero, México (13/10). Foto: APEstudantes mascarados protestam contra o desaparecimento de 43 colegas de classe em Chilpancingo, México (8/10). Foto: APManifestantes fazem gritam palavras de ordem e quebram vidros do Congresso de Chilpancingo (29/09). Foto: Reuters

Ao criar o grupo no Facebook, Mario Vergara queria lembrar que outros milhares também estão desaparecidos e seus casos, frequentemente, não são investigados.

Estratégia 

Os grupos que se organizam para procurar valas comuns têm um método organizado e já conseguiram encontrar 67 corpos. Primeiro, eles procuram áreas onde a terra está mais fofa, sinal de que pode ter sido remexida.

Com a ajuda de um martelo, eles enterram uma barra de ferro no local e, em seguida, a desenterram e cheiram a ponta.

Se houver restos humanos, haverá um cheiro característico que pode ser facilmente identificado.

Algumas vezes, no entanto, as autoridades de segurança locais os deixam ir sozinhos a territórios controlados pelos mesmos cartéis que podem ter matado seus parentes.

Além de Iguala 

A página de Mario Vergara faz parte de uma rede maior, que vai muito além de Iguala. Uma de suas conexões chega até Ecatepec, nos arredores da capital mexicana.

Homens, mulheres e crianças têm desaparecido em números cada vez maiores das ruas de Ecatepec. Uma das desaparecidas foi Syama Paz Lemus, que tinha 16 anos quando foi sequestrada, há cinco meses.

Ela estava em casa quando foi levada, após receber ameaças online. "Todas as contas delas, telefone, Facebook, tudo foi apagado no mesmo dia", contou a mãe de Syama, Neida Lemus.

"É o pior pesadelo para uma mãe: não saber e temer que eles a estejam obrigando a fazer coisas."

Segundo Lemus, a polícia não fez nada durante cinco meses. Eles só entraram em contato com testemunhas depois que ela mesma abriu uma página no Facebook que começou a ficar famosa.

"Cada pessoa tem pelo menos 100 contatos e estes, outros 100. O Facebook é essencial para nós porque são mais olhos para localizar nossos filhos", afirma.

Uma autoridade federal disse à reportagem da BBC que, com frequência, governos locais corruptos, trabalhando com os cartéis de tráfico de drogas, são responsáveis por sequestrar as pessoas.

"Acreditamos que cerca de 10% dos desaparecidos tenham sumido com participação ou conhecimento do governo", afirma Julio Hernandez, chefe da Comissão de Vítimas criada recentemente pelo governo.

As mensagens de solidariedade compartilhadas online não substituem um familiar desaparecido, mas, para estas famílias, podem trazer algo que o governo do México não fornece: a crença de que alguém se importa com os desaparecidos.

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