Homem é solto após passar 30 anos em corredor da morte nos EUA

Por AP | - Atualizada às

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Promotores chegaram à conclusão de que não existem provas para manter Ray Hinton preso, condenado por duplo homicídio em 1985; ativista acusa Estado de ter sido racista

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Um homem que passou quase 30 anos no corredor da morte no estado do Alabama teve sua liberdade concedida dois dias após promotores terem tomado conhecimento de que a única evidência contra ele não era forte o suficiente para mantê-lo atrás das grades.

Ray Hinton se emociona após deixar presídio onde viveu desde que tinha 29 anos de idade
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Ray Hinton se emociona após deixar presídio onde viveu desde que tinha 29 anos de idade

Ray Hinton tinha apenas 29 anos quando foi preso por dois assassinatos, em 1985. No momento em que foi libertado, na sexta-feira (03), era impossível esconder os sinais da idade. Aos 58 anos, o hoje homem livre tem cabelos e barba grisalhos.

Ele foi recepcionado com emoção pelas irmãs ao deixar a Prisão do Condado de Jefferson, localizada em um dos estados com maior histórico de racismo dos EUA. Na década de 1960, o então governador do Alabama, George Wallace, tinha como lema "segregação agora, segregação amanhã, segregação sempre".

"Eu não deveria ter ficado no corredor da morte por 30 anos. Tudo o que eles tinham contra mim era o teste da arma", disse Hinton. Ele ganhou a liberdade após promotores chegarem à conclusão de que não poderiam cravar como de mesma origem as balas encontradas na cena do crime com as achadas em sua residência. O estado do Alabama não havia feito um pedido formal de desculpas a Hinton até a tarde deste sábado (04).

"Quando você pensa que está acima da lei, você não tem respostas para ninguém. Mas eu tenho uma notícia para todos aqueles que assumiram um papel para me enviar à câmara de gás: vocês responderão a Deus", desabafou, aos prantos. "Eles não apenas tiraram minhas famílias e amigos de mim. Eles queriam me executar por algo que não fiz."

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Hinton foi preso sob a acusação de cometer latrocínio contra dois gerentes de restaurantes fast-food na cidade de Birmingham. Um terceiro homem, responsável por outro estabelecimento roubado na mesma noite, o reconheceu como o atirador. Na ocasião, promotores afirmaram no julgamento que as balas encontradas nas três cenas de crime combinavam com as da mãe de Hinton, um revólver calibre 38 da marca Smith & Wesson.

Hinton foi condenado mesmo tendo um álibi: no momento em que a terceira vítima foi baleada, ele estava no trabalho, localizado a 15 minutos dos restaurantes, trancado em um almoxarifado.

No ano passado, a Suprema Corte dos EUA chegou à conclusão de que a defesa de Hinton na época do julgamento foi "constitucionalmente deficiente", porque seu advogado deduziu erroneamente que seu cliente tinha apenas US$ 1 mil para contratar um especialista em balística para tentar derrubar a acusação da promotoria.

Bryan Stevenson, diretor do grupo Iniciativa de Equidade na Justiça do Alabama, definiu o caso como contaminado por preconceito racial e pelo fato de Hinton ser um homem pobre. "Temos um sistema que não faz a coisa certa nem quando ela está aparente. Os promotores deveriam ter feito esses testes há anos", criticou ele.

Hinton foi uma das pessoas que por mais tempo permaneceu no corredor da morte do Alabama. Mas Stevenson alerta: há muitos casos semelhantes ao dele. "Deve haver um número grande de condenações injustas", concluiu.

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