Soldado confirma participação da Rússia em conflito na Ucrânia

Por BBC Brasil | - Atualizada às

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Dmitry Sapozhnikov, que se recupera em São Petersburgo após lutar, diz que as ações são lideradas por vários generais russos

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Quem são os "voluntários" russos que colaboram com as forças rebeldes pró-Rússia no leste da Ucrânia? A repórter da BBC Olga Ivshina obteve uma rara entrevista com um soldado das forças especiais da Rússia, que descreveu o papel-chave dos militares do país no confronto.

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Dmitry Sapozhnikov juntou-se às forças rebeldes
Dmitry Sapozhnikov
Dmitry Sapozhnikov juntou-se às forças rebeldes "República Popular de Donetsk (DPR)" em outubro do ano passado

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Atualmente se recuperando de uma concussão em São Petersburgo, ele conversou com a BBC por Skype de Donetsk, no leste da Ucrânia, antes da viajar à cidade russa para receber o tratamento.

Dmitry Sapozhnikov juntou-se às forças rebeldes "República Popular de Donetsk (DPR)" em outubro do ano passado, mas foi ferido em meio a um intenso combate, quando os rebeldes apoiados pela Rússia expulsaram as tropas ucranianas da cidade de Debaltseve, em fevereiro.

Moscou nega repetidamente que soldados russos como ele estejam lutando no leste da Ucrânia.

Mas Dmitry afirma que "todas as operações, especialmente as de maior escala, são lideradas por militares russos, por generais russos".

"Eles desenvolvem planos junto com nossos comandantes (das forças rebeldes). E então nós seguimos as ordens".

Reforços militares

Um cessar-fogo instável permanece em funcionamento, apesar das muitas violações. A cidade estratégica de Debaltseve foi tomada pelo rebeldes pouco depois de a trégua ter sido firmada.

A DPR diz que a unidade de forças especiais de Dmitry, formada por "voluntários" russos, lutou na linha de frente da batalha por Debaltseve.

Em 9 de fevereiro, sua unidade conseguiu tomar o controle da principal estrada, impedindo o acesso das forças ucranianas ao interior do país. Os rebeldes, no entanto, não conseguiram mantê-la por muito tempo, explicou Dmitry.

"Mas então os tanques russos chegaram. Era um tanque de Buryatia [uma região da Sibéria]. Graças a ajuda deles e do blindado nós conseguimos tomar o controle de Debaltseve."

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. Foto: APEmblema em veículo e placas de outros carros indicam que tropas são do Exército russo (1/3). Foto: APHomens armados não identificados e vestidos com uniformes de camuflagem bloqueiam a entrada do prédio do Parlamento da Crimeia em Simferopol, Ucrânia (1/3). Foto: APHomens armados não identificados bloqueiam entrada de Parlamento da Crimeia em Simferopol, Ucrânia (1/3). Foto: APHomem armado não identificado com uniforme de camuflagem bloqueia estrada que leva a aeroporto militar em Sevastopol, na Crimeia. Foto: APSoldados em uniformes sem identificação montam guarda durante tomada de controle de escritórios da Guarda Costeira em Balaklava, Crimeia, na Ucrânia (1/3). Foto: APSoldados em uniformes sem identificação montam guarda durante tomada de controle de escritórios da Guarda Costeira em Balaklava, Crimeia, na Ucrânia (1/3). Foto: APSoldados em uniformes sem identificação montam guarda nos arredores de Sevastopol, na ucraniana Crimeia. Foto: APHomem com uniforme sem identificação patrula aeroporto de Simferopol, na Ucrânia (28/2). Foto: AP

Dmitry havia servido anteriormente como recruta nas forças do Ministério do Interior russo. Ele conta que a maior parte de suas tarefas consistia em fazer a guarda da infraestrutura de transporte em São Petersburgo.

Mas depois de se juntar aos rebeldes na região de Donetsk, no leste da Ucrânia, Dmitry passou a integrar as forças especiais. A ascensão, conta ele, se deveu a seu bom desempenho em um campo de treinamento no local.

Posteriormente, explica, um russo que havia servido na Legião Estrangeira da França treinou Dmitry e seu companheiros.

Decepção na Crimeia

As unidades regulares da Rússia vêm desempenhando papel crucial em momentos difíceis para os rebeldes, quando as operações exigem tropas bem treinadas e disciplinadas, explicou Dmitry.

Líderes ocidentais, o governo ucraniano e a Otan dizem que há claras evidências do envolvimento dos militares russos no confronto.

Segundo o tenente-general americano Ben Hodges, aproximadamente 12 mil militares russos estão operando dentro da Ucrânia.

A Rússia nega, no entanto, as acusações. "Essas estatísticas, que não fazem nenhum sentido, tem por objetivo claro desmoralizar e desorientar a comunidade internacional", afirmou o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores russo.

Dmitry lembra que um ano atrás a Rússia já havia negado o uso de suas Forças Armadas para tomar o controle da península da Crimeia.

Mas recentemente a TV estatal russa exibiu um documentário no qual o presidente do país, Vladimir Putin, admite que havia planejado a anexação da Crimeia desde o início – antes mesmo de forças russas ou locais tomarem o controle da região.

"Acho que o mesmo vai acontecer aqui, em Donbas. Primeiro eles negam, depois eles admitem", diz Dmitry.

Em defesa dos russos

Ele suspeita que há "um acordo secreto", por meio do qual "o Ocidente fecha os olhos para o envolvimento russo e a Rússia finge não notar os soldados dos Estados Unidos e da Europa atuando do lado ucraniano".

Há poucas semanas, 35 militares britânicos começaram a treinar soldados ucranianos na cidade de Mykolaiv, no sul do país, e deverão permanecer dois meses no país. O Reino Unido está fornecendo equipamento não-letais e o treinamento foca na ajuda médica e em estratégias de defesa. A colaboração não prevê a participação de militares britânicos em combate.

Mais de 6 mil pessoas já morreram desde que o confronto teve início na Ucrânia em abril do ano passado, de acordo com um levantamento da ONU ─ mas o real saldo de mortos pode ser consideravelmente maior.

Dmitry diz que o confronto no leste da Ucrânia mudou completamente o seu entendimento de vida. Agora ele se questiona se quer retornar à região. Ele afirma que não se arrepende da decisão de defender "os interesses da população de língua russa e russos em Donbas".

Essa é uma visão compartilhada por muitos russos, embora as experiências de pessoas como Dmitry venham produzir mais questionamentos sobre o conflito no leste da Ucrânia.

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