Um ano de ebola: representante da ONU diz que epidemia chega ao fim em agosto

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Relatório da Médicos Sem Fronteiras denuncia descaso de governos e OMS no início da epidemia; vírus matou 10 mil

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O chefe da Missão das Nações Unidas para o Combate ao Ebola, Ismael Ould Cheikh Ahmed, disse à BBC ter "certeza de que [o surto] terá terminado até o verão [do Hemisfério Norte], em julho ou agosto".

Ele disse que os países só serão declarados livres de ebola após 42 dias sem nenhum novo caso, e que um dos principais problemas a serem contornados ainda tem sido a demora no encaminhamento de doentes aos hospitais.

Segundo Ahmed, as pessoas têm levado os doentes ao hospital após, em média, cinco dias de infecção, o que diminui as chances de sobrevivência e aumenta a possibilidade de transmissão do vírus.

Ahmed alertou ser importante que as pessoas nos países mais afetados "percebam que quando elas trazem os doentes no primeiro ou no segundo dia eles têm 70% mais chances de sobreviver".

Enquanto isso, um relatório da organização Médicos Sem Fronteiras - divulgado há exatamente um ano do dia em que a Organização Mundial da Saúde (OMS) declarou a existência de uma epidemia de ebola na África Ocidental - diz que os primeiros pedidos de ajuda foram ignorados por governos locais e pela OMS.

Leia mais: Vírus do ebola pode ter ficado mais contagioso, advertem cientistas

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Para a Médicos Sem Fronteiras (MSF), uma "coalizão global de inação" contribuiu para o maior surto de ebola da história - nos últimos 12 meses, o vírus matou mais de 10 mil pessoas.

A ONG diz que "muitas instituições falharam, com consequências trágicas e evitáveis."

A maioria das mortes ocorreu na Guiné, Libéria e Serra Leoa.

Frustação

Acredita-se que a primeira pessoa a contrair a doença neste surto tenha sido uma criança em uma parte remota da Guiné. Ele morreu em dezembro de 2013.

Três meses depois, a OMS anunciou oficialmente a existência do surto. Cinco meses depois, em agosto de 2014, ela declarou a epidemia uma emergência internacional de saúde pública. A esta altura, mais de mil pessoas já haviam morrido.

Henry Gray, coordenador de emergência da MSF, disse à BBC: "Nós sabíamos que isso era algo diferente em março e abril do ano passado e tentamos levar a OMS e os governos dos países afetados a prestar atenção."

"E é claro que foi frustrante que não fomos ouvidos e isso provavelmente levou à escala da epidemia que vemos hoje."

A entidade diz também que deveria ter feito mais uso de seus próprios recursos no início da crise.

O relatório da MSF, que inclui dezenas de entrevistas com a equipe da organização, diz que, no final de agosto, centros de tratamento na Libéria estavam sobrecarregados.

Os profissionais de saúde foram obrigados a recusar pacientes visivelmente doentes "com pleno conhecimento de que eles provavelmente voltariam a suas comunidades e infectariam outras pessoas".

Em janeiro passado, a OMS admitiu que tinha reagido tarde demais.

"O mundo, incluindo a OMS, foi muito lento para ver o que estava acontecendo diante de nós", disse a diretora-geral Margaret Chan em uma reunião extraordinária da organização.

Ameaça contínua

Agora, há propostas para construir um sistema de resposta rápida para reagir com mais agilidade a futuras ameaças do tipo.

Os números de novos casos estão caindo, mas o MSF diz que o surto ainda não terminou. De acordo com a organização, o número total de casos não caiu de forma significativa desde janeiro.

Na sexta-feira, a Libéria registrou seu primeiro novo caso em duas semanas, afastando a possibilidade de o país ser declarado livre do vírus.

Na Guiné, os casos estão aumentando de novo após uma queda no início do ano.

"Em retrospecto, é agora evidente que o atraso de dezembro a março foi crucial na disseminação do vírus para vários locais no leste da Guiné e depois para a capital, Conacri, que continua a ser um das poucas áreas com transmissão ativa", disse Derek Gatherer, da Universidade de Lancaster.

Alguns pacientes em Serra Leoa não aparecem em listas de pessoas que tiveram contato com doentes, sugerindo que ainda existem cadeias de transmissão não detectadas no país.

O surto só será declarado oficialmente terminado quando forem registrados zero novos casos nos três países mais afetados por um período de pelo menos seis semanas.

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