Radicais proibiram música, dança e até a prática de esquia no Paquistão; escola já foi atacada várias vezes

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Quando militantes do Talebã invadiram um dos maiores vales nevados do Paquistão, em 2007, eles proibiram música, dança e esqui.

Radicais do Taleban proibiram a prática do esporte no Paquistão
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Radicais do Taleban proibiram a prática do esporte no Paquistão

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A única escola de esqui do Swat Valley, na fronteira do país, foi atacada várias vezes. O hotel foi bombardeado, equipamentos destruídos e o teleférico para subir na montanha - um presente do governo austríaco nos anos 1980- desmontado.

Quatro anos após a saída do grupo, um morador decidiu reabrir a escola para devolver um pouco de alegria ao local. Sem equipamentos, crianças esquiavam com sapatos normais e tábuas de madeira no pé.

Confira imagens da escola que desafiou o Taleban



Mas, ao saber da história, dezenas de pessoas quiseram ajudar - e a escola agora voltou a funcionar, com toneladas de equipamentos.

"Queria fazer algo para contribuir com a paz e a harmonia aqui", conta Matee Ullah Khan, o principal responsável pela renascimento da escola, falando sobre 2009, o ano em que o Talebã foi expulso do local.

Ele decidiu, então, fazer uma pequena competição de esqui."Veio muito pouca gente, mas vi, pela primeira vez, sorrisos nos rostos das crianças."

A escola tinha apenas alguns esquis e dois ou três pares de bastões de esquiar. Além das tábuas, as crianças usavam galhos no lugar dos bastões.

Swat, um belo vale perto da fronteira com o Afeganistão, banhado por rios de águas cristalinas e rodeado por picos cobertos de neve, estava sob controle Talebã havia dois anos.

"A situação de segurança foi terrível sob os militantes, todos viviam com medo", diz o ex-piloto Khan.

"Muitas escolas foram destruídas, não havia vida para as crianças. Elas não podiam sequer sair e brincar ou viver normalmente."

Ele viu o esqui como uma terapia ideal para as crianças que vivenciaram esse período.

"Há certos esportes que fazem você ser corajoso. A emoção de descer uma montanha em alta velocidade faz com que você fique feliz, mas também te dá coragem. Ela dá força para ir para a frente e fazer outras coisas em sua vida também,", diz ele.

Em 2013, a BBC fez uma reportagem sobre a estação de esqui. Pessoas na França, Canadá, EUA, Noruega, Reino Unido e Áustria entraram em contato com a BBC e se ofereceram para enviar equipamentos.

"Mas era muito difícil - havia os custos de transporte, a logística era um problema e não tínhamos dinheiro para os impostos", diz Khan.

Um homem da Suíça, no entanto, persistiu. Marc Freudweiler acabou superando a burocracia e problemas de logística e enviou para a escola os equipamentos que faltavam.

Freudweiler sentiu afinidade com Khan - sua mulher Tania é de Karachi e seus três filhos são meio paquistaneses.

Ele pediu ajuda ao clube de esqui que frequenta e recebeu uma chuva de doações.

Ele conseguiu juntar quase duas toneladas de equipamentos, e o desafio passou a ser como transportá-los com segurança até Swat. Não era uma tarefa fácil, dado o custo do transporte e a burocracia na alfândega - sem falar nas questões de segurança que persistem no norte do Paquistão.

As autoridades paquistanesas afirmaram que a única maneira de levar os equipamentos para Malam Jabba era com a ajuda da Federação de Esqui do Paquistão - uma organização fundada pela força aérea paquistanesa.

Freudweiler relutou, mas acabou aceitando a ajuda em troca de alguns esquis. Depois de uma luta de dois anos, os esquis finalmente chegaram à estação, há cerca de um mês.

"Quando nós desempacotados o equipamento, todo mundo ficou contente. Meus alunos ficaram super felizes. Ganhamos todos os tamanhos de esquis, pranchas de snowboard, bastões, botas de esqui, roupas quentes e capacetes. Foi um um sonho que virou realidade ", diz Khan.

Mas o temor a respeito de novos ataques continua. "Todo mundo sente medo. Qualquer coisa pode acontecer a qualquer hora, em qualquer lugar", diz ele. "Mas é assim que as coisas são, este é o nosso país, a nossa área, temos de viver aqui e temos que fazer o que pudermos para contribuir para a paz. Mas as coisas estão melhorando agora."

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