Putin diz que fará tudo para esclarecer morte de opositor

Por BBC |

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Boris Nemtsov denunciou Putin pelo papel da Rússia na crise Ucrânia, pela piora da situação econômica do país e pela suposta corrupção nos Jogos Olímpicos de Inverno de Sochi

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O presidente da Rússia, Vladimir Putin, disse que fará todo o possível para trazer à justiça aqueles que cometeram o assassinato "vil e cínico" de político da oposição Boris Nemtsov.

Em um telegrama enviado para a mãe de Nemtsov, publicado no site do Kremlin, Putin ofereceu condolências e elogiou a abertura e honestidade de Nemtsov.

Leia mais: Líder da oposição na Rússia é morto a tiros

Nemtsov foi baleado quatro vezes nas costas, nesta sexta-feira (27), em uma ponte perto do Kremlin.

Os líderes ocidentais exigiram uma investigação transparente sobre o assassinato.

No telegrama para a mãe do opositor, Dina Eydman, que tem 86 anos, Putin disse: "Vamos fazer de tudo para garantir que os autores deste crime vil e cínico e aqueles que estão por trás deles seja propriamente punidos."

"Por favor, aceite minhas mais profundas condolências sobre esta perda irreparável. Eu sinceramente compartilho sua tristeza."

Nemtsov foi um dos líderes das reformas econômicas realizadas na Rússia nos anos 1990.

Em uma entrevista recente, ele disse que temia ser morto por Putin em retaliação a sua oposição à guerra na Ucrânia.

Perfil

Nemtsov tinha 55 anos e era uma figura carismática da política russa, um reformador liberal que ganhou destaque no governo Boris Yeltsin e tornou-se um crítico feroz de Vladimir Putin.

Também era um cientista nuclear, ambientalista e pai de quatro filhos.

Nemtsov fundou uma série de movimentos oposicionistas depois de deixar o Parlamento russo em 2003 e era co-presidente do partido oposicionista republicano – Partido da Liberdade do Povo desde 2012.

Ele era um atuante crítico de Putin, denunciando-o pelo papel da Rússia na crise Ucrânia, pela piora da situação econômica do país e pela suposta corrupção em torno dos preparativos para os Jogos Olímpicos de Inverno de Sochi, em 2014.

Nemtsov também foi um dos principais membros do movimento liberal Solidarnost.

Com os colegas de oposição Alexei Navalny e Garry Kasparov, ex-mestre de xadrez, Nemtsov desempenhou um papel de destaque nas grandes marchas que a oposição realizou em Moscou após a controversa eleição da Rússia em 2011.

Foi preso por ter participado nos protestos e detido no final de 2011 para 15 dias.

Apesar de ser um importante membro da oposição, ele nem sempre concordava com a fragmentada oposição liberal russa.

Em 2011, foram divulgadas gravações em que ele se referiu a oposicionistas como "hamsters" e "pinguins com medo" – mas suas transgressões menores não causaram grandes rompimentos.

Possível presidente

Nemtsov concorreu pela primeira vez em 1989, sem sucesso, antes de ser eleito para o Parlamento da Rússia em 1990.

Ele ficou ao lado de Boris Yeltsin quando seu governo foi atacado, em 1991, e, em troca da lealdade, recebeu o cargo de governador regional de Nizhny Novgorod.

Nemtsov era jovem e eloquente, fluente em inglês e lidava bem com a mídia, e Nizhny Novgorod, com muitas indústrias militares, tornou-se uma vitrine para o investimento estrangeiro na Rússia.

Ele rapidamente se tornou um dos mais proeminentes políticos da Rússia, e observadores especularam que Yeltsin estaria preparando Nemtsov para ser seu sucessor.

Em 1997, Yeltsin fez dele vice-primeiro-ministro encarregado da reforma econômica. Mas Nemtsov, posteriormente, se arrependeu do que fez, pois isso marcou o início de seu declínio político.

Quaisquer ambições presidenciais que ele pudesse ter foram destruídas pela crise econômica de agosto de 1998, o que também lhe custou o emprego no governo.

Declínio político

Em 1999, Nemtsov fundou a União das Forças de Direita (SPS), com os colegas liberais Anatoly Chubais e Yegor Gaidar.

Inicialmente, o grupo parecia moderadamente bem sucedido, ganhando 10% das cadeiras na eleição de dezembro e formando uma frente influente no parlamento russo.

Mas, nos próximos anos, a posição da SPS em relação ao novo presidente da Rússia, Vladimir Putin, passou de um apoio condicional para oposição aberta - e o partido perdeu apoiadores.

Na eleição de 2003, o SPS não conseguiu chegar ao limiar de 5% necessário para entrar no parlamento.

Nemtsov renunciou ao cargo de líder da sigla e seguiu uma carreira de negócios, enquanto fazer tentativas frustradas de reunir liberais russos, deixados em completa desordem pela catástrofe eleitoral.

Ele tornou-se novamente um rosto proeminente da oposição em 2011, mas havia estado fora dos holofotes nos últimos anos.

Ainda assim, embora não fosse mais considerado parte da política mainstream da Rússia, sua morte chocou muitas pessoas em todo o país.

Uma manifestação da oposição prevista para este domingo ainda será feita, mas a morte de Nemtsov, sem dúvida, será vista como um aviso aos críticos de Putin.

O correligionário Garry Kasparov disse que o derramamento de sangue era inevitável na "atmosfera de ódio e violência" do presidente Putin. A mensagem é clara, acrescentou: "Oponha-se a Putin e sua vida vale pouco."

 

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