Caso Turquia: Psiquiatra explica como funciona a mente de um estuprador

Por BBC |

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Estupro e assassinato de universitária de 20 anos motivaram manifestações em todo país no fim de semana

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A Turquia tem testemunhado protestos furiosos de mulheres de todas as idades nos últimos dias. Eles foram motivados pela tentativa de estupro e consequente assassinato de uma universitária de 20 anos na semana passada.

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Manifestações foram organizadas em todo o país durante o último fim de semana e uma hashtag com o nome da garota, Ozgecan Aslan, foi usada mais de 3,3 milhões de vezes. Mas as redes sociais também explodiram com outras hashtags relacionadas a mulheres revelando suas próprias histórias de abuso sexual.

Num momento em que as mulheres turcas começam a levantar a voz contra o estupro, o abuso e o assédio sexual, a BBC entrevistou a psiquiatra Sahika Yuksel, em Istambul, para tentar entender como funciona a mente de um estuprador:

BBC: Por que homens estupram? O que motiva um estuprador?

Sahika Yuksel: É completamente errado supor que homens estupram por causa de necessidades hormonais. Um homem na rua não estupra uma mulher de qualquer jeito. Sabendo que é algo impróprio, eles tendem a fazê-lo secretamente.

O estupro não é um ato sexual. É um ataque. Trata-se de vencer, de conseguir um objeto – e a mulher é objetificada neste caso. Trata-se de poder. E há também pessoas que sentem prazer com isso.

O estupro é considerado o comportamento mais grave (em relação a uma mulher), isso é verdade, mas não é o único tipo de agressão que os homens cometem.

Quando a violência psicológica, a violência física, a violência financeira, o desrespeito por direitos das mulheres e a discriminação são permitidos e normalizados, também ocorrem estupros

A maneira como um homem é criado tem alguma relação com o fato de ele cometer agressão sexual na vida adulta?

As crianças são educadas de acordo com valores que atribuem mais poder aos homens na cultura. A mãe é ensinada a tratar seu marido de maneira diferente e a obedecer a sua dominação autoritária.

Portanto, ela espelha esse comportamento com seu filho e com sua filha. Sabemos que meninas cujas mães enfrentaram violência doméstica tendem a sofrer mais violência em seus próprios casamentos e relacionamentos.

Homens cujas mães apanharam de seus pais têm maior tendência a serem abusivos em seus próprios relacionamentos.

Meninos e meninas são definidos pela sociedade pelo fato de suas mães serem tratadas por seus pais como indivíduos de segunda classe.

Pode-se dizer que é um problema global e que é possível ver traços semelhantes dele em todo o mundo. Mas lutar contra isso é outra coisa.

As mulheres (na Turquia) geralmente recebem uma educação pior do que a dos homens, e políticos afirmaram diversas vezes que homens e mulheres não são equivalentes.

Como você lidaria com um indivíduo do sexo masculino que admita ter esta tendência (a praticar estupro) e que procure ajuda?

Ninguém pode mudar se não aceitar que suas ações são erradas e se responsabilizar por elas. Se ele for pego e declarar que não tinha a intenção de fazê-lo, isso não levará a uma mudança de comportamento.

É muito pequeno o número de homens que detectam essa tendência em si mesmos e pedem ajuda antes de serem pegos.

O caminho é reabilitar os que cometem crimes sexuais enquanto eles cumprem suas sentenças na prisão. Toda pessoa tem o direito de ser tratada e reabilitada.

Há muitos programas de reabilitação que tratam criminosos sexuais em todo o mundo, e o risco de reincidência entre os participantes é bem mais baixo do que entre os que não têm nenhum tipo de ajuda na prisão. Esses programas são especialmente benéficos para adolescentes que cometem crimes sexuais.

Gostaria de tocar em um ponto específico nesta discussão: há propostas de castrar criminosos sexuais e de trazer de volta a pena de morte. A pena de morte não é humanitária. Sabemos muito bem que nos Estados Unidos o número de crimes não diminuiu nos estados em que a pena de morte é aplicada. Essas medidas não são impeditivas.

Isso (estas propostas) são as pessoas em cargos altos tentando silenciar as multidões. Sempre ouvimos essa retórica após cada caso sensacional de estupro. Mas não estamos falando de vingança. Queremos que nossa sociedade fique tão livre quanto possível do abuso sexual e do estupro.

O que uma mulher (de qualquer idade) que sofreu violência sexual pode fazer – se conseguir falar sobre o assunto?

Em sociedades ou culturas onde a sexualidade é considerada um tabu e as relações sexuais antes do casamento são condenadas, ataque sexuais quase nunca são denunciados.

Um estuprador sabe bem disso e pode ameaçar as mulheres de contar às suas famílias o que aconteceu. Por isso, ele segue em frente com seus atos ilegais. Ele pode até mesmo chantagear a mulher e contar aos amigos sobre ela para continuar o abuso sexual.

Mulheres que foram estupradas podem buscar o caminho da Justiça, é claro – podem conseguir apoio social e psicológico. Elas também podem conversar com seus amigos mais próximos e confiáveis.

A melhor maneira de se recuperar do abuso ou da violência sexual é não ficar calada.

Agressões sexuais podem levar a problemas físicos, doenças sexualmente transmissíveis e a uma gravidez indesejada. Por isso, é muito importante que a mulher violentada seja examinada rapidamente, para que as medidas necessárias sejam tomadas.

Pode haver problemas de curto prazo ou de longo prazo, que precisam ser tratados ainda algum tempo depois do ataque. Seria ideal ter centros para o atendimento de mulheres que sofreram ataques, onde elas pudessem receber a ajuda necessária sem atraso.

Um homem cuja parceira sofre uma agressão sexual pode passar por momentos difíceis e também precisa de apoio psicológico e social.

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. Foto: APPolícia indiana tenta conter mulheres que protestam contra estupro coletivo de jovem de 23 anos em ônibus de Nova Délhi (23/12). Foto: APManifestantes em Nova Délhi pedem maior punição contra suspeitos de estuprar estudante em ônibus (22/12). Foto: APEstudantes seguram cartazes pedindo punição aos estupradores de uma estudante durante protesto em Allahabad, Índia (20/12). Foto: APIndianos participam de vigília à luz de velas do lado de fora de hospital onde vítima de estupro coletivo está internada em Nova Délhi (20/12). Foto: APMulheres fazem protesto em frente à casa da chefe de governo do Estado Sheila Dikshit em Nova Délhi, Índia (19/12). Foto: AP


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