Polícia argentina não deve usar arma ao patrulhar protesto pela morte de Nisman

Por iG São Paulo | - Atualizada às

compartilhe

Tamanho do texto

Manifestação deve reunir promotores de Justiça e políticos de oposição, que tem gerado críticas de funcionários do governo

As forças de segurança argentinas vão patrulhar protesto que será realizado em Buenos Aires nesta quarta-feira (18) sobre a morte misteriosa de um procurador da Justiça, mas sem portar armas a fim de evitar "provocações", afirmou o chefe de segurança da Argentina.

Dia 14: O que pode acontecer após o indiciamento de Cristina Kirchner na Argentina?

Homem passa por cartaz que faz referência a marcha organizada pelo Ministério Público Federal pedindo justiça após a morte de Alberto Nisman na Argentina (13/02)
AP
Homem passa por cartaz que faz referência a marcha organizada pelo Ministério Público Federal pedindo justiça após a morte de Alberto Nisman na Argentina (13/02)

O caso: Promotor que investigava Cristina Kirchner na Argentina é encontrado morto

A marcha silenciosa está sendo organizada por um grupo de promotores que exige respostas pelo assassinato de Alberto Nisman, um procurador que investigava o pior ataque terrorista do país.

Vários partidos da oposição também planejam participar da manifestação, elevando as tensões enquanto funcionários do governo dizem que organizadores querem tirar proveito político da situação oito meses antes das eleições presidenciais, a ser realizada em outubro.

Reação: "Não vão me intimidar", diz Cristina Kirchner em pronunciamento sobre Nisman

A Argentina foi abalada pela morte de Nisman no dia 18 de janeiro após o procurador alegar que a presidente Cristina Kirchner e seus aliados blindaram os iranianos acusados de serem os autores intelectuais do bombardeio de 1994 que deixou 85 mortos em um centro comunitário judaico de Buenos Aires.

A ex-mulher de Nisman, a juíza Sandra Arroyo Salgado, confirmou na terça (17) que irá à marcha com as duas filhas "para homenagear o trabalho dele como promotor e não por outros motivos políticos ou sociais". Por meio de um comunicado, ela diz se diferenciar de "outros setores sociais, políticos e midiáticos" que participarão do ato com outras reivindicações.

O secretário de Segurança da Argentina disse que pediu aos responsáveis pelo policiamento das ruas, por onde passarão os manifestantes, que não levem armas "porque pode haver provocações". Acrescentou que "80% do que se diz (sobre o caso Nisman) são mentiras” e insistiu que tudo faz parte de um golpe para debilitar o governo.

Política: Cristina Kirchner dissolve serviço de inteligência argentino

A morte de Nisman continua cercada por rumores envolvendo, desde os serviços secretos da Argentina e do Irã, até a CIA, dos Estados Unidos, e a Mossad, de Israel. No último dia 13, o promotor Gerardo Pollicita anunciou que retomaria o trabalho de Nisman, interrompido por sua morte, e acolheu a denúncia feita por ele.

Pollicita indiciou a presidenta e o chanceler, além de um deputado e um militante aliados do governo, e pediu à justiça provas adicionais para investigar se as acusações têm fundamento.

Alberto Nisman fala a jornalistas sobre ataque a uma associação em 1994 (arquivo)
AP
Alberto Nisman fala a jornalistas sobre ataque a uma associação em 1994 (arquivo)

Nisman era o promotor encarregado de investigar o atentado à Amia, ocorrido no dia 18 de julho de 1994, que matou 85 pessoas e feriu mais de 300. Tanto esse ataque terrorista quanto o anterior (em 1992, contra a embaixada israelense em Buenos Aires, que matou 29 pessoas) nunca foram esclarecidos.

Processo: Cristina Kirchner é indiciada por substituto de promotor morto na Argentina

As primeiras investigações apontavam para a chamada “pista síria”. Os atentados seriam uma vingança do regime sírio contra o então presidente Carlos Menem (1989-1999), cuja candidatura teria financiado, em troca de tecnologia nuclear, que nunca recebeu. Menem – que é de origem síria – também enviou tropas ao Golfo, para apoiar os Estados Unidos na guerra contra o Iraque, apos a invasão iraquiana do Kuwait.

Os resultados das primeiras investigações tiveram que ser arquivadas, quando se descobriu que o juiz responsável tinha comprado um testemunho falso. O próprio Menem está sendo processado por encobrir o crime. O caso Amia voltou a ganhar destaque no governo de Nestor Kirchner (2003-2007), que encarregou o promotor Alberto Nisman de retomar as investigações.

Brasil: Ministro viaja para Argentina para fortalecer parceria estratégica

O Irã sempre negou qualquer participação e tanto Nestor Kirchner quanto sua mulher e sucessora, Cristina, acusaram os iranianos de não colaborar com a Justiça argentina para apurar um ato terrorista. Em 2013, a situação mudou: Cristina Kirchner e o regime iraniano tinha finalmente decidido colaborar e os dois países acertaram criar uma comissão da verdade. O acordo foi criticado por organizações judaicas, a oposição e o próprio Nisman.

No dia 14 de janeiro, Nisman acusou Cristina e Timerman de terem negociado o acordo com o Irã para – secretamente – acobertar os suspeitos, cuja captura ele tinha pedido, e enterrarem a investigação. Os motivos seriam econômicos: a Argentina queria se reaproximar do Irã para trocar grãos e armas por petróleo.

O governo desmentiu as acusações (que Nisman colocou por escrito em um documento de 300 páginas, baseado em escutas telefônicas), alegando que o petróleo iraniano não podia ser refinado na Argentina. Timerman também apresentou uma carta, da Interpol, confirmando que ele jamais pedira a suspensão dos alertas vermelhos – como dissera Nisman.

A Justiça ainda não pode afirmar se Nisman cometeu suicídio, se foi "induzido" a se matar, ou se foi assassinado. O governo e a oposição trocaram acusações – ate a própria Cristina Kirchner colocou em dúvida a tese do suicídio, mas disse que a morte dele é parte de um complô para desestabilizar seu governo – e não um assassinato para calar o homem que a acusava.

*Com AP e Agência Brasil

Leia tudo sobre: argentinanismanbuenos airescristina kirchner

compartilhe

Tamanho do texto

notícias relacionadas