Considerada terrorista "doméstica" pelos EUA e ativista dos direitos civis por Cuba, Chesimard foi presa em 1977 e libertada da prisão; FBI oferece recompensa de R$ 5,6 milhões por ela

BBC

JoAnne Chesimard foi a primeira mulher a aparecer na lista dos terroristas mais procurados pelos Estados Unidos
AP
JoAnne Chesimard foi a primeira mulher a aparecer na lista dos terroristas mais procurados pelos Estados Unidos

Um assassinato ocorrido há mais de 40 anos, uma fuga cinematográfica e uma recompensa milionária tornaram-se um obstáculo para que Cuba e Estados Unidos normalizem relações diplomáticas.

A protagonista da história se chama JoAnne Chesimard. Ou melhor, assim é chamada pelas autoridades dos Estados Unidos, onde foi condenada por matar um policial em Nova Jersey em 1973 e onde é considerada uma "terrorista doméstica".

Leia mais:  O que o Brasil ganha com a reaproximação Cuba-EUA?

Cuba não renunciará a socialismo apesar de aproximação com EUA, diz Raúl Castro

Mas ela adotou o nome de Assata Shakur, é madrinha do rapper assassinado Tupac Shakur e fez parte da 'Black Liberation Army' (Exército de Libertação Negra, em tradução livre), uma organização que lutou pela autodeterminação dos negros nos EUA.

Chesimard foi presa em 1977 e, menos de dois anos depois, três homens negros, armados com pistolas automáticas, entraram na prisão onde ela estava detida, fizeram dois guardas reféns e a libertaram.

Tempos depois, a americana apareceu em Cuba, onde recebeu asilo.

O FBI, a polícia federal americana, incluiu Chesimard em sua lista de terroristas mais procurados e, juntamente com as autoridades de Nova Jersey, ofereceu uma recompensa de US$ 2 milhões (R$ 5,6 milhões) por ela.

E, agora, enquanto negociam a retomada das relações com Cuba, os Estados Unidos têm reiterado que a querem de volta e que a consideram uma "alta prioridade".

Mas, como disse na quarta-feira Roberta Jacobson, a secretária-assistente do Departamento de Estado americano para o Hemisfério Ocidental, as autoridades cubanas "não estão interessadas em discutir o retorno (de Chasimard)".

Frustração

Josefina Vidal, a diplomata cubana que liderou as negociações com Washington, defendeu em dezembro os direitos "legítimos e soberanos" de seu país de oferecer asilo a quem Cuba considera ter sido perseguido.

Autoridades cubanas descreveram Chesimard como uma "conhecida ativista dos direitos civis" que escapou da repressão do Estado. Mas, para o FBI, se trata de uma mulher que professa uma "ideologia radical contra o governo dos Estados Unidos."

Chesimard é a fugitiva de mais alta classe que Washington quer de volta, mas não é a única.

Não há estatísticas oficiais, mas o senador Robert Menéndez disse na terça-feira, durante uma audiência no Congresso americano, que o número pode chegar a "dezenas", enquanto outros congressistas como Marco Rubio e Ted Cruz afirmaram que 70 criminosos estariam atualmente escondidos em solo cubano.

O pesquisador Teishan Latner, que estuda o assunto como parte de seus estudos de pós-doutorado na Universidade de Nova York, disse à BBC Mundo, o serviço em espanhol da BBC, que este não é o conflito mais importante entre os dois países, mas impede que os Estados Unidos vejam Cuba como um parceiro diplomático no futuro.

Além disso, os fugitivos são uma das razões pelas quais os Estados Unidos mantêm Cuba na lista de países "patrocinadores do terrorismo", embora atualmente o governo americano esteja avaliando se exclui a ilha da compilação.

Enquanto isso, Jacobson reconheceu na quarta-feira, durante uma audiência na Câmara dos Representantes, sua "frustração" com a falta de progresso com alguns fugitivos e reiterou que se trata de uma questão "crítica".

À BBC Mundo, o Departamento de Justiça dos Estados Unidos afirmou que apresenta repetidamente os casos ao governo cubano.

Mas o governo dos EUA está enfrentando crescente pressão para resolver a questão de forma mais firme.

O governador de Nova Jersey, Chris Christie, enviou uma carta ao presidente Barack Obama pedindo que ele exija a devolução de Chesimard antes de avançar nas negociações sobre o restabelecimento das relações diplomáticas entre os dois países.

Já os senadores Rubio, Cruz e David Vitter pediram ao secretário de Justiça e procurador-geral dos EUA, Eric Holder, que entregue uma lista de todos os fugitivos que o FBI acredita que estejam em Cuba e uma cópia de todos os processos envolvendo esses nomes.

"Concordamos com o presidente da Ordem Fraternal da Polícia, que recentemente escreveu ao presidente Obama que 'o sangue dos agentes da lei que faziam seu trabalho em solo americano é um preço muito alto a se pagar em troca de vínculos mais próximos com o regime cubano'", assinalaram.

Outros casos

Na carta a Obama, os senadores também ressaltam que, além de Chesimard, Cuba tem dado abrigo a outros "criminosos violentos" como Victor Manuel Gerena, membro de um grupo separatista portorriquenho e procurado por roubar cerca de US$ 7 milhões (R$ 20 milhões) de uma empresa de segurança, e Charles Hill, condenado pelo assassinato de um policial no Estado do Novo México.

Os parlamentares acrescentam que há outros casos de criminosos de baixo perfil que escaparam rumo a Cuba depois de serem acusados de lavagem de dinheiro ou fraude contra o sistema de saúde nos Estados Unidos.

No caso dos delitos comuns, alguns dos envolvidos são cidadãos cubanos. Neste ano, por exemplo, Cuba prendeu o cantor de reggaeton Gilberto Martínez, conhecido como Gilbert Man, que é acusado nos Estados Unidos por suposta fraude em cartões de crédito.

Cuba chegou a devolver algumas pessoas acusadas de crimes aos Estados Unidos, mas tende a agir com mais cautela quando se trata de casos políticos.

O regime castrista também lembrou que os Estados Unidos deram refúgio a cubanos "acusados de crimes horríveis, como terrorismo, assassinato e sequestro".

Washington, por sua vez, deixou claro que continuará insistindo na devolução de Chesimard e de outros criminosos.

    Faça seus comentários sobre esta matéria mais abaixo.