A ofensiva contra o Estado Islâmico está dando certo?

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Ações contra grupo terrorista já duram seis meses em países como Iraque e Síria, sem perspectivas de eficácia

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Há seis meses, a coalizão liderada pelos Estados Unidos lançou operações contra os militantes do Estado Islâmico no Iraque e, depois, na Síria. O saldo da ofensiva é até agora paradoxal.

Ações de combate ao Estado Islâmico se intensificaram nos últimos dias
AFP PHOTO/SAMUEL KUBANI
Ações de combate ao Estado Islâmico se intensificaram nos últimos dias

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Enquanto o progresso do movimento do grupo extremista foi interrompido no Iraque, há um sentimento próximo ao desânimo em relação aos resultados ao longo de toda a fronteira.

Uma figura importante na coalizão liderada pelos Estados Unidos me disse: "No momento, nós não estamos indo a lugar nenhum na Síria".

Relembre ações terroristas pelo mundo em 2014:

16 de dezembro - Rebeldes do Talebã invadiram escola no Paquistão e, com tiros de fuzis, rifles e bombas, mataram 145 pessoas, em sua maioria crianças. Ao menos 114 ficaram feridas. Foto: APAtaque em colégio do Paquistão matou ao menos 100 crianças
. Foto: AP/BBC22 de dezembro - Ao menos 27 pessoas morreram e outras 60 ficaram feridas quando uma bomba explodiu em uma estação rodoviária de Gombe, na Nigéria. Foto: AP15 de dezembro - Iraniano fez 17 reféns, entre eles uma brasileira, em um café em Sydney, Austrália. Três pessoas morreram, incluindo o terrorista, e quatro ficaram feridas. Foto: AP09 de dezembro - Militantes do grupo Lutadores pela Liberdade Islâmica de Bagsamoro explodiram um ônibus em Maramag, nas Filipinas. Foram 11 pessoas mortas e 43 feridas. Foto: Keith Kristoffer Bacongco04 de dezembro - Militantes armados do grupo separatista Emirado do Cáucaso atacaram um posto da polícia na região da Chechênia e mataram ao menos 26 pessoas, ferindo outras 36. Foto: AFP25 de novembro - Duas mulheres-bomba detonaram explosivos em Maiduguri, na Nigéria, matando cerca de 78 pessoas . Foto: AP23 de novembro - Boko Haram sequestra grupo de pescadores, cortando a garganta de alguns e atirando os outros no Lago Chad, em Baga, na Nigéria. Ao menos 48 pessoas morreram. Foto: AP23 de novembro - Homem-bomba se explodiu durante partida de vôlei disputada em Yahyakhel, no Afeganistão, matando 61 pessoas. O ataque foi assumido pela Rede de Haqqani. Foto: AP10 de novembro - Em ataque do Boko Haram, um homem-bomba se explodiu dentro de uma escola e matou ao menos 47 estudantes na cidade de Potiskum, na Nigéria. Foto: AP03 de novembro - Homens mascarados armados mataram cinco pessoas e deixaram uma ferida em Al-Ahsa, na Arábia Saudita. Um dos suspeitos foi morto. Foto: Thinkstock02 de novembro - Durante popular desfile na cidade paquistanesa de Lahore, próxima à fronteira com a Índia, homem-bomba se explodiu, matou 45 pessoas e feriu 55. Foto: STRINGER/REUTERS/Newscom02 de novembro - Em ataque assumido pelo grupo Estado Islâmico, uma série de carros-bomba foi detonada na capital iraquiana, Bagdá, deixando 28 mortos e 67 feridos. Foto: Reuters01º de novembro - Homem-bomba do Taleban detonou veículo em frente a um posto policial no Afeganistão. Dez pessoas morreram, incluindo o terrorista, seis policiais e três soldados. Foto: REUTERS/Mohammad IsmailTaliban atacou complexo humanitário em Cabul, capital do Afeganistão, que hospeda agentes humanitários estrangeiros  . Foto: REUTERS/Mohammad Ismail08 de agosto - 14 pessoas ficaram feridas em uma explosão de bomba no metrô de Santiago. No dia seguinte, outro ataque no Chile, desta vez em um mercado em Viña del Mar. Foto: Reuters22 de outubro - Homem matou duas pessoas, inclusive um militar, na capital do Canadá, antes de ser morto pelas autoridades; caso semelhante ocorreu em Quebec um dia antes. Foto: Reuters22 de outubro - Palestino atropelou de propositalmente grupo que aguardava transporte em um ponto. Três pessoas morreram, incluindo uma criança de três meses, e sete ficaram feridas. Foto: ReutersMilitante do grupo xiita Houthi Shiite exibe arma automática em Sanaa, capital iemenita. Foto: Reuters05 de outubro - Jovem do grupo Emirado do Cáucaso detonou bomba acoplada ao corpo no momento em que era revistado por agentes na Rússia. Seis morreram e 12 ficaram feridos. Foto: Reprodução/Youtube20 de junho - Caminhão-bomba foi detonado no vilarejo de Horrah, na Síria, deixando ao menos 34 mortos e 50 feridos. A autoria foi reivindicada pelo grupo Frente Islâmica. Foto: AP15 de junho - Armados, rebeldes do grupo islâmico Al-Shabaab renderam passageiros na cidade de Mpeketoni, no Quênia, e posteriormente mataram ao menos 48 pessoas. Foto: AP Photo08 de junho - Ao menos dez militantes do Talebam invadiram o principal aeroporto do Paquistão, em Karachi, e deixaram ao menos 29 pessoas mortas por meio de tiros e bombas. Foto: AP30 de maio - Rebeldes do grupo islâmico Séléka invadiram uma igreja católica na cidade de Bangui, na República Centro-Africana, e mataram 30 pessoas, incluindo um padre. Foto: AP24 de maio - Integrantes da Al-Qaeda invadiram prédios do governo na cidade de Seiyun, no Iêmen, matando 27 pessoas. Foto: AP24 de maio - O rebelde islâmico Mehdi Nemmouche entrou no Museu Judaico de Bruxelas, na Bélgica, e matou a tiros quatro pessoas. Foto: AP22 de maio - Depois de invadirem com dois veículos uma loja em Urumqi, na China, terroristas atiraram explosivos contra o local, matando ao menos 31 pessoas e ferindo 90. Foto: AP20 de maio - Bombas foram detonadas quase simultaneamente em Jos, na Nigéria, matando 118 e ferindo outros 56: uma em um mercado e a outra nas proximidades de um hospital. Foto: AP1º a 3 de maio - Grupo separatista indiano Frente Nacional Democrática de Bodoland abriu fogo contra casas de três vilarejos vizinhos. Ao menos 35 pessoas morreram. Foto: AP18 de abril - Rebeldes armados aliados ao presidente do Sudão, Salva Kiir Mayardit, invadiram uma unidade da ONU no Sudão do Sul e mataram 58 pessoas. Foto: AP14 de abril - Integrantes do Boko Haram são suspeitos de detonar duas bombas em uma estação de ônibus em Abuja, na Nigéria; 71 pessoas morreram e 124 ficaram feridas. Foto: AP14 de abril - Integrantes do grupo radical islâmico Boko Haram sequestraram 276 jovens estudantes de uma escola em Chibok, na Nigéria. Todas as vítimas eram mulheres. Foto: AP9 de março – Micro-ônibus foi detonado no sudeste iraquiano, destruindo 50 veículos e matando 45 pessoas e ferindo 157. O principal suspeito do ataque é a Al-Qaeda. Foto: AP1º de março - Armados com facas, integrantes de um grupo terrorista separatista invadiram a maior estação de metrô da cidade de Kunming, na China, mataram 28 pessoas e feriram 113 . Foto: Reuters27 de fevereiro - Três bombas foram detonadas simultaneamente em Bagdá, deixando 31 mortos e 70 feridos. No maior dos ataques, uma bomba explodiu em frente a um mercado . Foto: AP25 de fevereiro - Militantes islâmicos invadiram dormitórios de estudantes em Buni Yadi, na Nigéria, com tiros e bombas. A ação do Boko Haram resultou na morte de 59 pessoas. Foto: AFP15 de fevereiro - Militantes rebeldes invadiram um vilarejo em Izghe, na Nigéria, e mataram 106 pessoas (sendo 105 homens). O Boko Haram é o principal suspeito do ataque. Foto: Reuters14 de fevereiro - Ao menos 32 pessoas morreram e dezenas ficaram feridas quando um carro-bomba explodiu na frente de uma mesquita no vilarejo de Yadouda, na Síria. Foto: AP05 de fevereiro - No mesmo dia, três ataques com carros-bomba e um de homem-bomba deixaram 32 mortos em Bagdá. Ao menos 35 ficaram feridos. Nenhum grupo assumiu o ato. Foto: AP1º de fevereiro - Dois carros-bomba explodiram nas proximidades da capital síria, Aleppo, matando 25 pessoas. Nenhum grupo terrorista assumiu a autoria do atentado. Foto: AP26 de janeiro - Terroristas do grupo Boko Haram invadiram o vilarejo de Kawuri, no nordeste da Nigéria, e assassinaram 85 pessoas. Foto: AP15 de janeiro - Seis carros-bomba foram detonados na cidade de Bagdá, matando um total de 40 pessoas. Aproximadamente 88 ficaram feridas. Foto: AP



Uma série de recentes reveses acentua este ponto. Os Emirados Árabes Unidos, discretamente, se retiraram das missões de ataque na Síria, e, com isso, levantaram questões sobre o quão longe outros países, que não os Estados Unidos, estão indo neste conflito.

Também houve revelações sobre o fracasso da CIA, a agência de inteligência americana, para desenvolver uma força especial na qual rebeldes que lutam contra o presidente Bashar al-Assad possam confiar.

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Estado Islâmico queima piloto jordaniano vivo e divulga imagens na internet

A divulgação de um vídeo, que mostra o piloto jordaniano Moaz al-Kasasbeh sendo queimado vivo, demonstrou, muito claramente, que o Estado Islâmico criou um refúgio seguro onde pode agir impunemente.

No início desta semana, Vincent Stewart, diretor da Agência de Inteligência de Defesa, principal organização militar de espionagem dos Estados Unidos no exterior, entregou ao Congresso americano uma avaliação que foi considerada por muitos como surpreendentemente pessimista.

Enquanto alguns comandantes afirmaram que os ataques da coalizão interromperam as ações do Estado Islâmico em seus territórios, o general Stewart disse que, neste ano, o movimento jihadista deve "continuar consolidando-se e ganhando terreno em áreas sunitas do Iraque e da Síria. Ao mesmo tempo, continuará lutando por território fora dessas áreas".

Complexidade

Na Síria, em particular, as complexidades políticas e a falta de objetivos claros tornam mais difíceis ações militares.

Alguns parceiros da coalizão, como a Turquia e os países do Golfo, acreditam que nada pode ser feito até que a estratégia dos Estados Unidos abarque a deposição do presidente Assad ─ mas o Iraque, peça central para o plano atual dos americanos, apoia o regime sírio.

Quando os ataques americanos começaram na Síria, em dezembro do ano passado, com o temor de que o Estado Islâmico tomasse Bagdá ─ e o fato de que o governo local tinha pedido ajuda estrangeira – criou-se uma política de "Iraque em primeiro lugar".

Até agora, foram realizados mais de 1.250 ataques da coalizão no Iraque, e muitos parceiros se juntaram não só em ações aéreas, mas no esforço para treinar e reequipar o Exército iraquiano para que ele pudesse retomar o terreno perdido para os jihadistas.

O fato de ter as forças iraquianas e curdas em terra permitiu uma orientação mais efetiva dos ataques no Iraque. De fato, em alguns lugares, eles realmente conquistaram de volta alguns territórios.

Muitos ataques aéreos certamente mataram militantes do Estado Islâmico. Segundo avaliação recente do Comando Central dos Estados Unidos, o número de mortos chega a 6 mil.

Relatos diários de algumas baixas aqui ou ali levaram um oficial superior da Marinha dos Estados Unidos, com quem conversei recentemente, a avaliar o progresso em atacar o alvo como "alguns corpos de cada vez".

'Iraque em primeiro lugar'

No entanto, particularmente, oficiais americanos estão receosos em relação às chances de retomada das cidades iraquianas de Tikrit e Mosul ─ assim como outras regiões tomadas pelo Estado Islâmico no ano passado ─, acreditando que o esforço de treinamento está acontecendo muito lentamente e que as forças do governo iraquiano estão pecando em espírito ofensivo.

A ideia do 'Iraque em primeiro lugar' teve como objetivo lidar com uma ameaça estratégica urgente ─ a existência do Estado Islâmico ─ e evitou o fato de que a formulação de uma estratégia coerente para a Síria parecia incrivelmente difícil.

Agora que a frente no Iraque se estabilizou, as divergências da coalizão sobre a Síria foram reveladas. Apagar essa fronteira entre os Estados é, afinal, uma parte importante da ideologia e das operações jihadistas.

À primeira vista, o fato de que mais de 1 mil ataques da coalizão foram possíveis na Síria sugere um nível semelhante de efeito como no Iraque.

No entanto, muitos desses ataques foram na área de Kobane ─ a cidade-chave curda na fronteira com a Turquia ─ onde, efetivamente, os aliados não têm uma força terrestre para ajudá-los. Tem sido muito mais difícil em outros lugares.

É também evidente que tais missões de países fora da coalizão liderada pelos Estados Unidos "secaram".

Até o momento, esses países ─ todos árabes ─ são responsáveis por cerca de 7% de todas as ofensivas contra o Estado Islâmico na Síria.

Mas apenas oito dos 81 ataques deste tipo ocorreram no mês passado. Assim, de forma eficaz, tendo iniciado com entusiasmo em setembro passado, o elemento árabe desta coligação praticamente desapareceu.

O medo de ter parte de seu efetivo capturado pelo Estado Islâmico pode ter tido um papel primordial nisso.

Os Emirados Árabes Unidos interromperam o bombardeio porque os Estados Unidos não moveram sua força de resgate do Kuwait para uma base no norte do Iraque, mais próximo do território controlado pelo grupo extremista.

Isso reduziria o tempo de resposta caso outro caça do país fosse abatido, mas parece que as sensibilidades políticas americanas sobre colocar 'tropas terrestres' na base no norte do Iraque teriam se sobreposto à decisão correta do ponto de vista militar.

Turquia

Uma imensa maioria dos problemas enfrentados por aqueles à frente dessa campanha ─ desde resgatar pilotos abatidos ou realizar incursões com forças especiais, até reduzir o número de combatentes estrangeiros juntando-se ao EI ou apoiar a oposição síria ─ seria pelo menos atenuada se a Turquia cooperasse mais efetivamente.

No outono passado, o governo turco anunciou que daria essa ajuda ─ ao apoiar os Estados Unidos em estabelecer uma grande zona-tampão no norte da Síria. Esse é um passo que colocaria os aliados no caminho para confrontar o governo do presidente Bashar al-Assad em Damasco.

Mas a ideia de que a coalizão deponha o presidente Assad não é consenso entre seus membros.

Alguns militares de alta patente do Reino Unido e França acreditam que os Estados Unidos devem realmente estar fazendo o contrário - reconhecendo que o exército sírio é a força terrestre mais eficaz no país e cooperando com ele.

O Iraque, e seu aliado Irã, têm apoiado o presidente Assad, e ficariam encantados com tal desenvolvimento.

Os Estados Unidos, no entanto, não estão preparados para entrar em qualquer tipo de aliança formal com o presidente Assad, pois o acusam de ser o principal responsável pela chacina da guerra civil da Síria.

Eles também sabem que a diminuição da cooperação com os países do Golfo Árabe não é apenas por causa do piloto jordaniano queimado vivo.

Eles receberam mensagens explícitas - semelhante às da Turquia - de líderes da Arábia Saudita, Catar e Emirados Árabes Unidos, descrevendo o presidente Assad como a causa principal da situação da Síria e dizendo que sua deposição deve ser parte da solução.

Nova estratégia

Diante desse dilema, os estrategistas americanos estão pensando em algumas novas opções.

Uma deles, uma zona-tampão, iria explorar a cooperação turca,  a fim de assegurar bases naquele país, bem como a inserção de forças especiais e campos de treinamento dos rebeldes no norte da Síria.

Isso não funcionará desde que a proposta turca - que previa avançar em até 145 km para dentro da Síria, tomando o controle de grandes centros, como Aleppo e Idlib – mas um acordo poderia vir a ser firmado.

"Nós temos uma ‘estratégia’ para a derrota é e uma ‘política’ para lidar com [o presidente] Assad”, um representante de alta patente da coalizão me disse, destacando a incompatibilidade entre as abordagens em diferentes lados da fronteira Iraque-Síria.

Até a Casa Branca resolver sua posição em relação ao líder sírio, será muito difícil atacar efetivamente os militantes do Estado Islâmico e destrui-los.

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