Palestino criado para odiar Israel e que foi baleado aos 7 cria 'turismo da paz'

Por Carolina Garcia - iG São Paulo |

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Aziz Abu Sarah conta ao iG como superou o ódio contra seus "inimigos israelenses" e agora dissemina a tolerância

Em suas lembranças da infância, o palestino Aziz Abu Sarah jogava pedras em carros com os sete irmãos. A atividade quebrava a monotonia do vilarejo al-Eizariya, ao leste de Jerusalém, que não era atrativo para crianças. O que ele não sabia é que deveria atirar as pedras apenas em carros israelenses. Nascia assim o ódio pelo outro lado do território. E a morte precoce do irmão mais velho, preso pelas forças israelenses, reforçou a figura do inimigo. Anos depois, Abu Sarah aprendeu a superar a raiva. Ele atua como ativista internacional e usa o turismo para derrubar os muros do ódio que divide palestinos e israelenses.

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O empresário e ativista falou com exclusividade ao iG sobre a companhia de turismo Mejdi Tours, fundada com dois amigos judeus, que busca criar rachaduras no muro de medo e ignorância entre os dois povos. “Os nossos sentimentos ruins surgem de experiências reais de guerra. Eu fui baleado quando tinha sete anos, perdi meu irmão e vizinhos. A gente carrega isso para sempre. Ainda assim, as diferenças devem coexistir”, explica.

Aziz Abu Sarah em apresentação da Mejdi Tour no TED Talk, no Canadá, divulgado em janeiro
Reprodução / Facebook
Aziz Abu Sarah em apresentação da Mejdi Tour no TED Talk, no Canadá, divulgado em janeiro

Em sete países, a empresa surpreende ao oferecer o passeio “Interfaith”, unindo de forma inédita os territórios de Israel e Palestina com dois guias, vítimas do conflito que representam a sua origem aos visitantes. Um dos guias israelenses é Rami Elhanan, que teve a filha de 14 anos morta em um ataque suicida em Jerusalém, em 1997.

“Os guias palestino e israelense explicam a história, arquitetura e conflito com perspectivas totalmente diferentes. É impressionante vê-los interagindo e a amizade que mantém fora do trabalho. Eles criaram laços para a vida inteira”, defendeu. Segundo Abu Sarah, visitantes cristãos, muçulmanos, judeus são transformados pelo choque de ver dois indivíduos – destinados ao ódio – debatendo um tema polêmico sem brigas. “A relação deles impressiona e muitos pensam: ‘Se eles podem discordar e ainda ser amigos, eu também posso’. O turismo é a melhor maneira para conectar pessoas." O passeio pode ser feito em até dez dias e custa R$ 2,5 mil, mas o valor é negociável. A ideia surgiu da imersão que a família de Abu Sarah passou com judeus.

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Com atuações semelhantes no Afeganistão e na Síria, Abu Sarah atualmente divide o seu tempo como ativista internacional entre Jerusalém e Washington D.C., nos EUA, onde atua como diretor-executivo do departamento de Religiões, Diplomacia e Resolução de Conflitos da Universidade de George Mason. Além disso, escreve reportagens e produz documentários para a National Geographic sobre zonas de conflito. Ele reconhece, no entanto, que a sua transformação de manifestante palestino para ativista internacional não foi tranquila.

Abu Sarah (à direita) ao lado do irmão Tayseer, que foi preso pelas forças israelenses. Após um ano foi solto, mas morreu logo depois . Foto: Arquivo pessoalAbu Sarah ao lado dos pais que ainda vivem na cidade de Jerusalém; a transformação começou em casa, ele conta. Foto: Arquivo pessoalMãe de Abu Sarah (à esquerda) apresenta a visitantes judeus a comida palestina. 'Foi emocionante ver a interação desses dois povos'. Foto: Arquivo pessoalOs passeios oferecidos pela empresa Medji Tour são ajustados de acordo com o interesse dos visitantes. Foto: Arquivo pessoalTodos os passeios da Interfaith dois guias, um israelense e outro palestino, apresentam as diferentes versões do conflito. Foto: Arquivo pessoalRegistro do tour Interfaith, que une guias palestinos e israelenses com diferentes histórias sobre os pontos turísticos da região. Foto: Arquivo pessoalApós o tour, Abu Sarah defende que os visitantes criam empatia e passam a respeitar outras culturas. Foto: Arquivo pessoal'A transformação começa ao ver os dois interagindo. Isso choca as pessoas', explica o empresário e ativista Aziz Abu Sarah. Foto: Arquivo pessoalAziz Abu Sarah em apresentação da Mejdi Tour no TED Talk, no Canadá, divulgado em janeiro. Foto: Arquivo pessoal

“Israelenses que não usam fardas”

Para conseguir entrar em uma faculdade e conseguir um bom emprego em Jerusalém, Abu Sarah precisou enfrentar aulas de hebraico. "Reconheço que fui obrigado a tomar esse passo. Antes das aulas, pensava: ‘Não vou falar com ninguém. Não estou aqui para fazer amigos’. A primeira semana foi horrível, me senti extremamente deslocado." Entre 20 alunos, Abu Sarah era o único palestino da sala de aula. Uma fala de sua professora, no entanto, mudou a forma de encarar o conflito. "Ela era muito mente aberta e discutia política dentro da sala de aula, o que era raro. Até que um dia ela falou: ‘Palestinos e Israelenses merecem os mesmos direitos, somos iguais’. Isso me deixou sem palavras."

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Era a primeira vez em 18 anos que o jovem palestino trocava algumas palavras com israelenses que não eram soldados. “Olhava com surpresa para tudo ali. Afinal, eles eram israelenses e não usavam fardas. E alguns eram amigáveis. Isso me confundiu porque a minha experiência de vida me mostrava o extremo oposto. Fiquei curioso." A curiosidade do estudante assustou a sua família palestina e tradicional. “Meus pais ficaram chocados quando comecei a fazer amizades verdadeiras. Levou muito tempo, mas eles aceitaram meus amigos e ali começou um processo de transformação”.

Durante um encontro com judeus pouco tempo depois, o pai de Abu Sarah se mostrou curioso sobre o Holocausto, evento histórico que não é ensinado aos palestinos na escola, segundo o ativista. “Ele apenas se levantou e perguntou: ‘Me falem sobre o Holocausto. É real ou mentira?’ A sua pergunta chocou muita gente, mas um se levantou e propôs uma excursão aos museus e memoriais. Depois disso, passamos um dia visitando e aprendendo sobre essa capítulo horrível da história." O efeito foi instantâneo e promoveu a conexão de pessoas que antes não se falavam e mantém laços até hoje, conta o ativista. E eles repetiram o evento, mas dessa vez sobre a história palestina.

Mãe de Abu Sarah (à esq.) apresenta a judeus a comida palestina. 'Foi emocionante ver a interação'
Arquivo pessoal
Mãe de Abu Sarah (à esq.) apresenta a judeus a comida palestina. 'Foi emocionante ver a interação'

“Ali não comparamos uma história com a outra para ver quem sofreu mais. Esses encontros mostraram a todos que não conversávamos de histórias do passado, mas discutíamos fatos que tinham acontecido com pessoas. Aí você não os enxerga como inimigos, mas como companheiros traumatizamos e que compartilham o seu sofrimento”, explicou. Os eventos serviram de inspiração para Abu Sarah criar com dois amigos judeus a Medji Tour.

O fim do conflito

Ele se define como uma pessoa realista ao dizer que o conflito entre Israel e Palestina irá acabar. Suas experiência em zonas de conflito no Oriente Médio revelam que a real pergunta não é se a guerra irá acabar, mas quando isso irá ocorrer. “O que eu faço hoje é para influenciar a resposta dessa pergunta. Eu olho para o nosso trabalho e vejo que estou ajudando a colocar um fim nessa disputa." Para Abu Sarah, as diferenças podem e devem coexistir e ainda cita o exemplo do Brasil como um país bem sucedido na convivência com as diferenças.

“Quando alguém, independente de sua origem, decide matar alguém, ele está errado. Ainda assim não podemos odiar o outro que age errado e tem perfil violento. Ele é vítima do medo, ignorância e raiva”, diz Abu Sarah. A saída, segundo ele, é divulgar que a maioria do povo israelense e palestino busca viver com liberdade, segurança e paz. E continua: “Se superamos isso, as mortes não existirão. Talvez [o conflito] não acabe no próximo mês, nem no próximo ano. Mas se acabar dez anos antes, nós já salvaríamos milhares de vidas inocentes”, conclui.

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