Paris: presença de alguns líderes mundiais em marcha é criticada

Por BBC | - Atualizada às

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Sociólogo francês criticou a participação de líderes de países conhecidos pela falta de liberdade de expressão

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A partir da esq: Benjamin Netanyahu (Israel), Ibrahim Boubacar Keita (Mali), Francois Hollande (presidente da França) e Angela Merkel (Alemanha)
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A partir da esq: Benjamin Netanyahu (Israel), Ibrahim Boubacar Keita (Mali), Francois Hollande (presidente da França) e Angela Merkel (Alemanha)

A presença de alguns líderes mundiais na grande marcha realizada em Paris neste domingo foi duramente criticada nas redes sociais. De acordo com estimativas da polícia, mais de 1 milhão de pessoas tomaram as ruas do centro da capital francesa para protestar contra o terror e defender a liberdade de expressão. Elas caminharam por três quilômetros sob forte esquema de segurança. 

A certa altura da passeata, cerca de 40 líderes mundiais, além de políticos franceses, deram os braços e caminharam junto à multidão. De acordo com o jornal francês Le Monde, no entanto, alguns dos nomes que participaram do evento já se mostraram contrários à liberdade de expressão e de imprensa. 

Entre as personalidades polêmicas presentes na marcha estavam o premiê turco, Ahmed Davutoglu, o chanceler russo, Sergei Lavrov, o presidente do Gabão, Ali Bongo, o rei e a rainha da Jordânia, Abdullah 2º e Rania, o premiê húngaro, Viktor Orban, o ministro de Relações Exteriores egípcio, Sameh Choukryou e Naftali Bennett, ministro israelense da economia que se já vangloriou de ter matado “vários árabes”.

Em sua conta no Twitter, a jornalista do Le Monde Marion Van Renterghem ironizou a presença de alguns líderes mundiais. 

"Netanyahu, Lavrov, Orban, Davutoglu, Bongo na manifestação pela liberdade de imprensa!!! Por que não Bashar al-Assad? #Mascarade (#BailedeMáscaras) #PauvreCharlie (#PobreCharlie, em alusão à revista satírica Charlie Hebdo, alvo de ataque no qual morreram 12 pessoas na quarta-feira)". 

Na mesma rede social, o sociólogo francês Éric Fassin também criticou a participação de líderes de países conhecidos pela falta de liberdade de expressão.

"Viktor Orban e M. Rajoy (Mariano Rajoy, premiê espanhol) vieram defender a liberdade de expressão com Ali Bongo e Erdogan (presidente turco)".

Países como Turquia e Rússia ocupam as últimas posições do ranking mundial de liberdade de imprensa, compilado pela ONG Repórteres sem Fronteiras (RSF). Em 2014, dos 180 países analisados, a Turquia ficou com o 154º lugar entre os países com maior liberdade de imprensa, e a Rússia, na 148º posição, lembra o Le Monde.

Milhões marcham em Paris contra o terrorismo e a favor da liberdade de expressão. Foto: EPA/Ian Langsdon/Agência Lusa/Direitos ReservadosA partir da esq: Benjamin Netanyahu (Israel), Ibrahim Boubacar Keita (Mali), Francois Hollande (presidente da França) e Angela Merkel (Alemanha), Donald Tusk (União Europeia) e Abbas (Autoridade Palestina). Foto: AP PhotoMulher cola a frase "Liberdade" na boca e desenha lápis para protestar contra o terrorismo. Foto: APCrianças também participam da marcha contra o terrorismo, neste domingo, em Paris. Foto: APPessoas portanto cartazes com dizeres "Eu sou Charlie" se reúnem na Place de la Nation, em Paris, na marcha contra o terrorismo que acontece neste domingo. Foto: APManifestantes carregam lápis como símbolo da liberdade de expressão. Foto: APLíderes mundiais caminham de braços dados em marcha contra o terror. Foto: AP PhotoPraça da República, em Paris, lotada de participantes da marcha contra o terror. Foto: Peter Dejong/APManifestantes lotam a Praça da República em Paris. Foto: Peter Dejong/APA multidão se reúne na Praça da República, em Paris. Foto: Peter Dejong/APMultidão reunida na Praça da República à espera do início da marcha contra o terrorismo, em Paris. Foto: Laurent Cipriani/APParticipante do protesto segura um lápis em alusão aos jornalistas mortos. Foto: Laurent Cipriani/APMulher segura poster onde se lê "Contra a estupidez que mata". Foto: Laurent Cipriani/APAgentes atentos e forte aparato policial para evitar incidentes na marcha contra o terrorismo. Foto: Francois Mori/APA rosa vermelha e o recado: Eu sou Charlie. Foto: APParticipantes da marcha contra o terrorismo acenam com bandeiras da França na Praça da República em Paris. Foto: Peter Dejong/APPoliciais franceses patrulham área da manifestação. Foto: Laurent Cipriani/APMesmo quem não foi à Praça da República deu um jeito de se manifestar. Na sacada, o cartaz e as roupas com as cores da bandeira francesa deram o recado. Foto: Francois Mori/APPremiê alemã Angela Merkel abraça presidente francês Francois Hollande. Foto: AP PhotoO primeiro ministro da Espanha, Mariano Rajoy, também compareceu à marcha. Foto: Thibault Camus/APFrançois Hollande recebe o primeiro ministro italiano Matteo Renzi. Foto: Thibault Camus/APO rei Abdullah e a rainha Rania, da Jordânia, são recebidos pelo presidente francês. Foto: Thibault Camus/APO primeiro ministro israelense Benjamin Netanyahu acena aos fotógrafos ao lado do presidente francês. Foto: Thibault Camus/APFrançois Hollande cumprimenta o líder da autoridade palestina Mahmoud Abbas em Paris. Foto: Thibault Camus/APFrançois Hollande recebe o ex primeiro ministro francês Lionel Jospin. Foto: Thibault Camus/APA presidente da Suíça Simonetta Sommaruga é recebida por François Hollande no Palácio do Eliseu. Foto: Thibault Camus/APCrianças e adultos se reúnem na Praça da República, onde esperam pelo início da marcha contra o terrorismo. Foto: Laurent Cipriani/APLíderes judaicos da França respondem às perguntas dos repórteres após terem se reunido com o presidente François Hollande no Palácio do Eliseu. Foto: David Azia / APO presidente francês François Hollande deixa o Palácio do Eliseu depois de se reunir com Joel Mergui, líder do Consistório Judaico da França. Foto: David Azia / APSacha Reingewirtz, líder dos estudantes judeus da França mostra um panfleto onde se lê “Eu sou Charlie, Eu sou um policial, Eu sou judeu, Nós somos a República”. . Foto: David Azia / APPessoas começam a se reunir na Praça da República, em Paris, para marcha que vai homenagear os 17 mortes nos ataques. Foto: AP PhotoFlores e faixas em escultura da praça da República homenageia mortos nos ataques em Paris. Foto: AP PhotoHomenagem na praça da República aos 17 mortos nos ataques a Paris. Foto: AP PhotoMinistros do Interior se reúnem antes do início da Marcha que deve reunir um milhão de pessoas em Paris. Foto: AP PhotoProcurador Geral dos EUA, Eric Holder (à esq.), é recebido por ministro do Interior da França, Bernard Cazeneuve. Foto: AP PhotoMinistro do Interior da França, Bernard Cazeneuve, com ministra do Interior da Grã-Bretanha, Theresa May. Foto: AP PhotoMinistro do Interior da Espanha, Fernadez Jorge Diaz (à esq.), é recebido por ministro do interior da França, Bernard Cazeneuve. Foto: AP PhotoMinistro do Interior alemão, Thomas de Maizière, abraça ministro francês Bernard Cazeneuve. Foto: AP Photo

Censura 

Na Turquia, o presidente Erdogan deu sinal verde à prisão de vários jornalistas opositores. O editor-chefe de um principais jornais do país, Zaman, foi um dos que foram interrogados pela polícia. 

Já na Hungria, Viktor Orban, presidente do partido ultraconservador Fidesz, foi criticado pelos ataques constantes à imprensa. 

Em 2010, o premiê húngaro sancionou uma lei que dá ao governo controle sobre as informações divulgadas pela imprensa. Criticado por toda a Europa, ele fez emendas à lei, mas o Conselho Europeu considerou as medidas insuficientes. 

Outro nome polêmico foi o do ministro da economia de Israel, Naftali Bennett, que participou da comitiva do premiê israelense, Binyamin Netanyahu, e é chefe do partido ultranacionalista Bait Yehudi. 

Em 2013, ele ganhou as manchetes mundiais ao declarar que "matei muitos árabes na minha vida. E não há problema nenhum nisso". 

Na Jordânia, cujo rei e rainha do país também participaram da marcha, jornalistas dissidentes vêm sendo presos. Em junho, as autoridades do país prenderam jornalistas e fecharam o canal de oposição iraquiana sediado na capital Amã. Na ocasião, o premiê iraquiano, Nouri al-Maliki, criticou a medida.

No Gabão, governado por mão de ferro por Ali Bongo, duas revistas de oposição anunciaram em setembro o fechamento temporário da publicação após um ataque cibernético que eles dizem ter sido promovido pelo governo. 

Em janeiro, um jornalista investigativo do país afirmou ter sido sequestrado e ameaçado por um membro do governo em seu escritório, após a publicação de um artigo denunciando rituais criminosos perpetrados no país, segundo a ONG Repórteres sem Fronteiras. 

Na Rússia, a liberdade de imprensa é oficialmente reconhecida pela Constituição, lembra oMonde, mas episódios recentes parecem mostrar que jornalistas e veículos de imprensa não gozam de independência.

Em dezembro do ano passado, o ativista e blogueiro Alexei Nalvany foi condenado a 3,5 anos de prisão por críticas ao governo de Vladimir Putin.

Já no Egito, três jornalistas da rede de TV árabe Al-Jazeera estão presos há um ano. Eles foram condenados em junho de 2014 a penas de sete a dez anos de prisão depois de terem sido acusados de apoiar a Irmandade Muçulmana. Outros 11 jornalistas foram condenados in absentia em um processo descrito como uma “farsa” por organização de defesa dos direitos humanos.

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