Classe política do país está dividida: Marine Le Pen, líder da extrema direita, criticou o que chamou de falta de ação do governo para lutar contra o radicalismo islâmico

BBC

Os três dias de ataques extremistas - iniciados com o massacre na revista satírica Charlie Hebdo, na quarta-feira, em Paris - devem favorecer a extrema direita francesa, que pode tentar tirar proveito político do drama, segundo especialistas ouvidos pela BBC Brasil.

Para homenagear os 17 mortos na série de ataques, o governo do socialista François Hollande organizou uma marcha que pode reunir milhares de pessoas e até 40 líderes mundiais neste domingo. A ideia é dizer que os participantes comparecerão ao ato para defender as liberdades garantidas pelas leis francesas, como a liberdade de expressão, e gerar um clima de união nacional. 

Mas a classe política do país está dividida. Marine Le Pen, líder do Front National, da extrema direita, disse que não recebeu um convite oficial do governo e afirma que a união nacional é "fictícia". 

Ela se recusou a participar da marcha em Paris e pediu aos seus partidários para desfilarem em outras cidades da França. Le Pen foi aclamada neste domingo em Beaucaire, no sul do país, onde participou de um evento em homenagem às vítimas dos atentados.

"A partir de amanhã vai começar o debate sobre o que não foi feito. Será que a política internacional da França é a boa política? Será que são utilizados todos os meios para combater o islamismo na França", questionou Le Pen durante o evento em Beaucaire neste domingo.

Hollande havia convidado tanto Le Pen quanto Jean-Luc Melenchon, da extrema esquerda, e o centrista Francois Bayrou, para participar de reniões políticas com o governo na sexta-feira. 

Após o atentado contra a Charlie Hebdo, Hollande se reuniu com líderes de vários partidos, incluindo Marine Le Pen. 

Veja imagens da marcha contra o terror:


Declarações

As primeiras declarações de Le Pen após o ataque à Charlie Hebdo haviam sido mais comedidas que seus discursos habituais.

 Mas logo depois Le Pen criticou o que chamou de falta de ação do governo para lutar contra o radicalismo islâmico, dizendo que esse atentado "era previsível". Ela voltou a defender, já no dia seguinte ao primeiro ataque, um referendo sobre o retorno da pena de morte na França. 

As forças de segurança do governo fizeram na sexta-feira operações de grandes proporções que resultaram na morte de três extremistas. Dois deles teriam participado do ataque à Charlie Hebdo e o terceiro teria matado uma policial e quatro reféns em dois ataques diferentes. 

"Parte da população que está emocionada e chocada com o ataque (à revista Charlie Hebdo) pode ser atraída por discursos populistas e aderir às ideias do Front National", disse à BBC Brasil o cientista político Stéphane Monclaire, da Universidade da Sorbonne. 

"O atentado pode reforçar a posição de Marine Le Pen no curto prazo e permitir a banalização de suas ideias", afirma Monclaire. 

Segundo ele, o racismo contra pessoas de origem árabe deve crescer na França.

"Atualmente, poucos dias após o atentado, a França vive um momento de emoção, onde é preciso ser solidário. Passado isso, em uma segunda etapa, o Front National vai relançar o debate sobre a imigração e a integração da comunidade muçulmana", diz Montclaire. 

O Front National venceu na França, em maio passado, as eleições europeias. Foi a primeira vez na história que o partido chegou em primeiro lugar em um pleito disputado no país. 

Ressurgimento

O sociólogo Michel Wieviorka, especialista em questões ligadas ao terrorismo, também diz acreditar que os atentados favorecerão a extrema direita. Ele ressalta que os grandes problemas por trás das ações não estão resolvidos: a situação nas periferias do país e a questão da educação e da laicidade. 

"Por enquanto, tudo isso está sendo deixado de lado em nome da união nacional. Mas isso ressurgirá e de uma maneira mais dura, principalmente em relação ao Islã", diz Wieviorka.

"A França deverá enfrentar grandes tensões políticas e sociais. Essas tensões abrirão um grande espaço para o Front National, que é o único que conseguirá tirar proveito dessa situação", completa o sociólogo.

A comunidade muçulmana já foi visada: quatro mesquitas e salas de orações foram atacadas, uma delas inclusive com granadas, após o ataque à Charlie Hebdo.

"O clima é pesado", diz Samy Debah, presidente do Coletivo contra a Islamofobia na França, país que reúne a maior comunidade árabe da Europa, estimada em 6 milhões de pessoas. Vários muçulmanos no país afirmam temer que haja uma confusão entre Islã e terrorismo. 

Todas as federações muçulmanas francesas pediram aos imãs no país para condenar o atentado durante as orações na última sexta-feira. Elas participarão da grande manifestação "de união popular" no domingo.

'Guerra contra terrorismo'

O primeiro-ministro, Manuel Valls, declarou na sexta-feira que a França está fazendo uma "guerra contra o terrorismo e não contra uma religião". O ex-presidente Nicolas Sarkozy, afirmou na quinta-feira, ao se referir ao atentado à revista, que ele representa uma "guerra contra a civilização".

"O atentado reforça um clima que já vem sendo favorável ao Front National, que ganhou força política. E pode contribuir para difundir suas ideias de que o Islã representa um problema", disse à BBC Brasil Bruno Cautrès, pesquisador do Centro da Vida Política Francesa (Cevipof), do Instituto de Estudos Políticos de Paris.

Ele disse acreditar que a extrema direita poderá se beneficiar com a situação, mas com algumas condições. "O Front National não pode dar a impressão de que está tirando proveito político", afirmou.

Sua opinião é compartilhada pelo cientista político Dominique Reynié, da Fundação para a Inovação Política, ligada ao partido UMP (sigla para União pelo Movimento Popular), da direita.

Segundo ele, se houver mais ataques surgirão mais interrogações sobre a segurança no país e discussões sobre a imigração, o que poderia ser favorável ao Front National.

Marcha

Mais de um milhão de pessoas e cerca de 40 líderes mundiais devem participar neste domingo da marcha em homenagem às vítimas dos ataques extremistas da semana passada.

Familiares das vítimas devem encabeçar o ato. Entre as autoridades esperadas estão o premiê britânico David Cameron, a chanceler (premiê) alemã Angela Merkel, o líder palestino, Mahmoud Abbas, e o premiê israelense, Binyamin Netanyahu.

A marcha deve partir por volta das 15h (meio-dia, no horário de Brasília) da Place de la République, no centro de Paris. 

Mais de dois mil policiais e 1.350 militares estão sendo posicionados para garantir a segurança da população e das autoridades. Organizadores esperam que o ato seja um dos maiores da história recente da França.

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