Em livro de pensador francês, chargista morto retratou Marx e delitos do capital

Por iG São Paulo - Rodrigo de Almeida | - Atualizada às

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Brasileiros podem conferir livro com as charges de um dos desenhistas mortos em ataque em Paris na quarta-feira (6)

A última capa do semanário 'Charlie Hebdo' foi a um romance sobre a islamização da França – uma provocação literária lançada esta semana – mas o último trabalho em livro de Charb, o chargista e publisher da revista morto no ataque de quarta-feira (6), dedicou-se a polemizar com a ajuda de outro pária do mundo político: Karl Marx. São 60 charges divertidas que acompanham o igualmente engraçado e polêmico texto do francês Daniel Bensaïd (morto em janeiro de 2010), no livro "Marx, manual de instruções", editado no Brasil pela Boitempo Editorial. Ambos eram amigos.

Confira as reproduções das charges do livro, publicado pela Boitempo Editorial:

O cartunista Charb era diretor da revista Charlie Hebdo. Conhecido por suas sátiras políticas, ele já havia sido ameaçado de morte antes do atentado. Veja charges. Foto: Divulgação/Boitempo editorialO publisher da revista francesa Charlie Hebdo, conhecido como Charb, mostra capa polêmica. O cartunista foi morto durante ataque terrorista. Foto: AFPEm uma de suas últimas charges, Charb diz que a 'França segue sem atentados. Atenção, esperem até o final de janeiro para comemorar'. Foto: Reprodução/TwitterO cartunista Charb era diretor da revista Charlie Hebdo. Conhecido por suas sátiras políticas, ele já havia sido ameaçado de morte antes do atentado. Veja charges. Foto: Divulgação/Boitempo editorialA acidez do cartunista Charb também foi usada para ironizar o ateísmo. Foto: Divulgação/Boitempo editorialEntre as charges, Charb muitas vezes tematizou muçulmanos e o islamismo. Foto: Divulgação/Boitempo editorialO cartunista Charb era também diretor do semanário Charlie Hebdo, que sofreu ataque na última quarta (7). Foto: Divulgação/Boitempo editorialO cartunista Charb era também diretor do semanário Charlie Hebdo, que sofreu ataque na última quarta (7). Foto: Divulgação/Boitempo editorial


Bensaïd foi um dos líderes das manifestações estudantis de Maio de 1968. Filósofo e teórico trotskista, conseguiu fazer neste livro o que Charb fazia como ninguém: anedota, recreação e crítica. O livro é uma “introdução recreativa às ideias do pensador alemão e sua trajetória intelectual.

E aí você se pergunta: mais uma? Marx não morreu? A morte de suas ideias não foi decretada há tempos? Por que uma ressurreição de Marx? Bensaïd responde: “Simplesmente porque Marx é nosso contemporâneo, a consciência pesada do capital. E porque o capital, que ainda ensaiava os primeiros delitos quando ele traçou seu perfil falado, tornou-se hoje um serial killer adulto que devasta todo o planeta.”

Num mundo em que Wall Street acorda e dorme atônita com as crises financeiras sucessivas, nada mais certeiro. Com estilo instigante, provocador, irônico, agitador, o texto se afina com sabedoria ao traço e à graça de Charb. Como se vê nas reproduções desta página, mesmo nos desenhos o cartunista francês consegue não só expor a vida do pensador alemão como propor uma discussão sobre os problemas atuais, alguns dos quais enfrentados pelo “Mouro”: a religião e os fetiches, a teoria do valor, o antissemitismo, as crises, a ciência e a ecologia. A bolha financeira, as debilidades da representação política e a globalização estão no nosso dia a dia e na crítica dos dois. 

Provas de que ambos – Bensaïd e Charb – fazem falta.

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