Cartunista brasileira compara episódio ao regime militar no Brasil e diz que profissionais não ficarão intimidados

A quadrinista Laerte Coutinho fala sobre o ataque à redação da revista Charlie Hebdo, em Paris
Aline Viana
A quadrinista Laerte Coutinho fala sobre o ataque à redação da revista Charlie Hebdo, em Paris

O atentado contra a redação da revista de sátiras Charlie Hebdo, em Paris, deixou 12 mortos. Entre eles, quatro renomados cartunistas: Stéphane Charbonnier, Jean Cabu, Bernard Verlhac e Georges Wolinski. O último, conhecido por seu trabalho de teor erótico e político, é reverenciado por cartunistas do mundo todo. 

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Os atiradores abriram fogo no local aos gritos de “Allahou akbar” e “Vocês vão pagar por insultarem o Profeta”, em referência ao profeta islâmico Maomé, satirizado em charges da publicação. O islamimo, assim como outras religiões, costuma ser retratado com humor pela revista.

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No entanto, para a cartunista brasileira Laerte Coutinho, este não foi o motivo que levou os atiradores a executar o atentado à redação. "Eles não estão interessados em Maomé. Estão interessados em guerra", disse, em entrevista ao iG .

Confira os principais trechos da conversa com a quadrinista:

iG: A Charlie Hebdo e o trabalho de Georges Wolinski influenciaram de alguma forma o seu trabalho?
Laerte Coutinho - O Wolinski foi um mestre. A Charlie Hebdo é uma revista em que a gente, no Brasil, aprendeu muita coisa sobre a profissão e as possibilidades da linguagem humorística. Na década de 1960, além da referência mais próxima de nós, O Pasquim , tínhamos algumas luzes internacionais. A Charlie Hebdo tinha muito a ver com o que a gente queria. Eu, Angeli, Caruso e outros cartunistas aprendemos muito com eles, especialmente com o Wolinski.

Você acha que isso pode inibir a liberdade de expressão de outros cartunistas?
Não. Principalmente porque acho que o objetivo do ataque não era esse. Era criar uma cultura favorável ao irracionalismo político, fomentar o pânico social, estimular a xenofobia e o ódio ao estrangeiro, criando condições propícias para grupos terroristas como esse crescerem. Eles não estão interessados em defender Maomé, estão interessados em guerra, assim como as respostas militaristas estão. Veja os resultados: a invasão ao Afeganistão e ao Iraque acabou, na prática, na construção do Estado Islâmico. Esses grupos não querem saber da liberdade de expressão na França, mas em produzir confusão, medo, pânico e aumentar a presença da irracioanalidade que já pode ser sentida com o avanço da extrema direita na Europa.

Há muito tempo se discute sobre o limite do humor, principalmente em relação a temas polêmicos, como a religião. Como você vê esse debate?
O tema da religião, assim como muito outros temas, é um assunto delicado. Essa questão foi muito bem respondiada pelo meu amigo Hugo Possolo [palhaço e ator brasileiro]: 'É possível fazer piada com qualquer coisa, tudo depende de que lado da piada você está". O humor, assim como qualquer outro discurso, é ideológico. Não existe humor neutro, não existe "só uma piada", porque todo piada é a expressão de uma ideia. O humor deve ser avaliado à luz de como aquela cultura trata o tema. Algumas culturas têm a religião como tabu. Quando estive em Cuba, fiz uma gracinha com um dos lemas da revolução e todos ficaram constrangidos. Aquilo tem outro significado lá, não é só um clichê esquerdista como no Brasil. Para a piada se realizar, precisa haver a cumplicidade entre quem conta e quem ouve e o afastamento de qualquer esfera emocional.

O mesmo acontece com o trabalho dos cartunistas?
Os cartunistas lidam com a linguagem do humor, mas são jornalistas. Eu sou a favor da liberdade de expressão, mas não acho que existe expressão acima de qualquer crítica. Se você faz um discurso estimulando pessoas a praticar violência ou discrminiação, isso precisa ser discutido. Defendo a liberdade de expressão, mas também o direito de criticar, das pessoas a quem você se refere ou que são objeto do seu discurso contestarem o que você esta falando, responderem, se queixarem, declararem que isso as humilha e é conivente com situações de opressão. O problema é que isso é agitado como um argumento pró censura, e eu sou contra ela. Tem que haver outra maneira que não seja a censura ou entrar em uma redação com metralhadoras.

Você acha que o Brasil está longe desse debate e de situações como a que ocorreu na França?
Não. Estamos convivendo com radicalização e a discussão sobre a liberdade de expressão há muito tempo. Eu acho que não precisamos ir muito longe para ver isso, o clima e as polêmicas nas eleições demonstram questões de liberdade de expressão, possibilidade de reação, tudo isso foi colocado com abundância o tempo todo. Isso está muito presente, inclusive em ações violentas contra a imprensa.

Você vê relação entre esse episódio e algum período brasileiro como, por exemplo, o do regime militar?
Claro. Na ditadura militar, os profissionais da redação do jornal O Pasquim foram presos de maneira totalmente ilegal até para aquela época. Eles ficaram presos por mais de um mês. Isso está no nosso passado recente. No fundo, não é tão diferente do que aconteceu. Mas isso arrefeceu o jornal? Não. Acho que a última coisa que vai acontecer entre os cartunistas é o medo de produzir novas coisas. Mas é claro que o impacto é evidente, porque se trata da morte de pessoas que eram referência.

Veja imagens do atentado em Paris:



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