Veja a 'Arca de Noé' que atracou em telhado e salvou 59 vítimas do tsunami

Por BBC Brasil | - Atualizada às

compartilhe

Tamanho do texto

Dez anos após tragédia, 'barco salvador' segue sobre telhado de casa em Banda Aceh, na Indonésia, e serve de memorial

BBC

Quando o tsunami atingiu a região de Banda Aceh, na Indonésia, há dez anos, a família Basyariah ficou presa no andar de cima de uma casa: a água chegava até a altura do pescoço e continuava subindo rápido.

Ontem: A cena de crianças se afogando ainda me angustia, diz brasileiro sobre tsunami

Getty Images
Barco atracou no telhado de uma casa e salvou dezenas de pessoas do tsunami na Indonésia

Tsunami de 2004: Veja como aconteceu um dos maiores desastres da história

Mas os parentes conseguiram escapar de forma espetacular quando um barco arrastado pelas águas foi parar sobre o telhado da casa.

Em meio às telhas vermelhas das casas recém-construídas no vilarejo de Lampulo, há uma visão extraordinária: um enorme barco de pesca que repousa sobre duas casas.

A embarcação de madeira, com 25 metros de comprimento, tornou-se uma atração popular no roteiro turístico do tsunami. As placas apontam para Kapal di atas rumah, que significa 'o barco sobre a casa'. No local, um texto detalha como a 'arca' improvisada salvou a vida de 59 pessoas.

Uma delas é a empresária local Fauziah Basyariah. "Se não tivesse sido por aquele barco, todos nós teríamos nos afogado, porque nenhum de nós sabia nadar", ela conta.

Cenário: Círculo de Fogo do Pacífico é área com mais terremotos no mundo; entenda

Basyariah ainda cai no choro quando se lembra do dia da tragédia. "Não muito tempo depois do teremoto, as pessoas começaram a gritar que a água do mar estava chegando. Estávamos confusos, mas então vimos a água entrando em casa", diz.

Ninguém entendeu o que estava acontecendo - ninguém havia passado por uma situação como a do tsunami antes. "Pensei que era o Dia do Juízo Final", diz Basyariah.

Seu marido havia levado a moto da família para fazer compras, então ela tomou seus cinco filhos e começou a correr. Eles não podiam correr mais rápido do que a água, que subia rapidamente, então começaram a procurar abrigo em algum lugar alto.

Especialista: Haverá outro tsunami, mas é impossível dizer quando, diz geólogo

O terremoto havia destruído várias edificações na rua, mas os seis conseguiram entrar em uma casa que ainda estava de pé e subiram para o segundo andar. Em pouco tempo, porém, perceberam que não seria alto o suficiente.

"Levou menos de um minuto para a água nos alcançar", conta Basyariah. "A primeira onda estava muito escura - não sabíamos se era petróleo ou água", diz.

Pouco depois uma segunda onda, ainda maior, chegou. A família estava presa. "Estávamos flutuando, com nossas cabeças tocando o teto e a água em volta dos nossos pescoços. Pensei que íamos morrer afogados", diz Basyariah.

Galeria: Fotos mostram recuperação de áreas afetadas pelo tsunami na Indonésia

Imagens feitas por satélites, mostram regiões da Indonésia antes e depois do Tsunami de 2004. Foto: NasaImpacto da onda gigantesca foi tão grande que alterou quadro geográfico da Indonésia (arquivo). Foto: NasaImagens mostram o antes e o depois de regiões atingidas pelo tsunami da Indonésia (arquivo). Foto: NasaCorpos estendidos após tsunami da Indonésia (arquivo). Foto: Wikimedia CommonsDestroços tomaram conta de cidade da Indonésia após tsunami de 2004 (arquivo). Foto: Reprodução/YoutubeOnda gigante atinge a costa da Tailândia, um dos 13 países atingidos pelo tsunami (arquivo). Foto: Wikimedia CommonsPai atravessa com filhas rua inundada em distrito comercial de Jacarta (17/01/2013). Foto: ReutersEquipes de resgate atuam no litoral da Indonésia (arquivo). Foto: Wikimedia CommonsMesquita Grand Baitul Makmur, em Meulaboh, após tsunami de 2004 que destruiu a Indonésia (arquivo). Foto: Wikimedia CommonsRua do centro de Banda Aceh, Indonésia, após tsunami (arquivo). Foto: Wikimedia CommonsRestos de casa em Aceh, Indonésia, um ano após tsunami (arquivo). Foto: Wikimedia CommonsJamaliah, à esq., beija a filha Raudhatul Jannah, 14, que reencontrou após dez anos. A menina sumiu durante o tsunami de 2004, em Banda Aceh (8/08). Foto: ReutersHomem ajuda criança a sair de local alagado após tsunami da Indonésia (arquivo). Foto: Reprodução/YoutubeIdoso é retirado do local alagado após onda gigante atingir área da Indonésia em 2004 (arquivo). Foto: Reprodução/YoutubeHomem tenta driblar correnteza após onda atingir a Indonésia (arquivo). Foto: Reprodução/YoutubeCriança desacordada é retirada da água após tsunami atingir Aceh, Indonésia (arquivo). Foto: Reprodução/YoutubeImagens postadas no YouTube mostram o momento em que as ondas invadiram o litoral da Indonésia (2004). Foto: Reprodução/YoutubeResorts foram invadidos pelas ondas gigantescas vindas da praia (arquivo). Foto: Reprodução/YoutubeAs ondas ultrapassaram os 30 metros na Indonésia, um dos 13 países atingidos pela tragédia (2004). Foto: Reprodução/YoutubeMilhares de mortos foram confirmados em vários países, inclusive na Indonésia (arquivo). Foto: Reprodução/Youtube

Barco salvador

Então, pela janela, eles enxergaram algo esquisito: um grande barco de pesca avançando na direção deles. "As pessoas estavam gritando", conta. "Mas então ele ficou preso em cima de uma casa e parou", lembra.

Seu filho de 14 anos conseguiu fazer um pequeno buraco no teto e pulou para o telhado. Ele puxou o resto da família para fora, um a um, e todos entraram no barco. Outras pessoas se juntaram a eles.

Política: Tsunami de 2004 acabou com conflito na Indonésia, mas não no Sri Lanka

"Quando cheguei no barco, eu só rezava e rezava", conta Basyariah. "Agradecíamos a Deus pelo barco que nos salvou, mas mesmo o barco não era tão estável porque estava cheio de água, então ficamos nos segurando", diz.

Eles observavam, sem ter o que fazer, enquanto várias casas em volta caíam, com pessoas ainda dentro. "Não havia nada que pudéssemos fazer", diz Basyariah, enxugando uma lágrima do rosto.

"Apesar de ter passado dez anos do tsunami, quando falo sobre isso eu sinto como se tivésse sido ontem. Eu me sinto muito triste, e nunca vou esquecer disso", conta.

Desaparecidos

Quando as águas baixaram, Basyariah e seus filhos foram morar em um vilarejo mais longe da costa, chamado Beurawe, mas eles continuavam voltando a Lampulo para procurar por seus familiares desaparecidos.

"Eu não sabia onde meu marido estava. E meus pais também - eles correram, mas eles eram muito velhos, e eu sabia que teria sido difícil para eles escapar", diz. Ela nunca os encontrou.

Viúva, Basyariah se viu então responsável por sustentar cinco filhos sozinha. Enquanto ainda estava em acomodações temporárias, ela aprendeu novos trabalhos - como criar peixes, costurar e fazer bolos. E assim chegou à ideia de vender salgadinhos de atum seco.

Um ano após o tsunami, Basyariah abriu um negócio com um microempréstimo de 500 mil rupias (cerca de R$ 110). Ela hoje retornou a Lampulo, onde sustenta sua família e emprega outras mulheres na vila.

Do lado de fora da sua casa, um pouco para baixo do barco, mulheres embalam um atum seco que foi frito com alho e cebola. O aperitivo é chamado "tsunami de atum seco" e tem uma foto do barco na etiqueta. "Nós fomos salvos nesse barco, queríamos lembrar isso", ela conta.

Reprodução/BBC
Candida lembra, emocionada, da história de como se salvou da tragédia

Há relatos de cerca de 15 barcos de pesca encontrados nos telhados de casas em Lampulo depois do tsunami, mas os outros já foram removidos.

Zulfikar, dono desse barco, concordou em deixá-lo ali como um "memorial", apesar de tê-lo reformado pouco antes do tsunami. Naquele dia, ele tinha planos de sair para pescar.

'Arca de Noé'

Atualmente, o barco é reverenciado como uma "Arca de Noé", mas serve também como uma eterna lembrança do que aconteceu.

"Todo mundo tenta tirar vantagem sobre o fato de o barco ainda estar aqui", doz Basyariah. "Todos têm uma história diferente envolvendo o barco e como eles foram salvos por ele. As pessoas chegam até a inventar histórias."

Além de atrair turistas, as memórias da tragédia em Banda Aceh também têm um papel educacional. Antes de 2004, poucos sabiam o que era um tsunami, então quando o mar começou a recuar antes da onda vir, as pessoas correram para pegar os peixes que ficaram na areia em vez de correrem para lugares mais altos.

Agora, as crianças na escola visitam os memoriais do tsunami e são ensinadas sobre os cuidados que devem ter caso situações como aquela voltem a ocorrer.

O tsunami em 2004 matou um número desproporcional de mulheres e crianças porque elas não sabiam nadar. Foram cerca de 45 mil mulheres a mais do que homens - em algumas comunidades, foram varridas gerações inteiras de crianças e idosos.

Conhecer os sinais que anunciam a chegada do tsunami salvou muitas vidas em Simeulue, uma ilha ao oeste de Aceh, onde apenas sete pessoas morreram quando a onda atingiu - um número minúsculo se comparado com os 167 mil que morreram em Aceh.

A geografia montanhosa da ilha ajudou, mas os moradores também se preveniram graças a uma história tradicionalmente contada na região, conhecida como smong.

De acordo com um relatório da Unesco, essas histórias contadas a crianças sempre terminavam com um aviso: "Se acontecer um forte tremor e se o mar se recolher logo em seguida, corra para as montanhas, porque o mar vai voltar rápido para a costa".

*Colaborou Vibeke Venema

Leia tudo sobre: tsunami na indonesiaindonesiatsunami

compartilhe

Tamanho do texto

notícias relacionadas