Tsunami de 2004 acabou com conflito na Indonésia, mas não no Sri Lanka

Por Amanda Campos - iG São Paulo | - Atualizada às

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A questão humanitária sobressaiu os 28 anos de crise em Aceh; já grupo no país vizinho foi um problema para a reconstrução

Até a chegada do tsunami em 26 de dezembro de 2004, os moradores da província de Aceh, Indonésia, viviam desde 1976 sob conflito intenso entre governo e grupo separatista.

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Equipe inspeciona danos deixados por tsunami em Aceh, Indonésia (2005)

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Mas oito meses após o país sofrer seu maior desastre natural, os militantes do Movimento Aceh Livre e o governo de Jacarta deixaram de lado as diferenças políticas e firmaram trégua que deu fim ao conflito. 

"O tsunami foi 'a última gota no balde', o empurrão final para o sucesso das negociações. Eles [separatistas] deram fim ao levante em troca de mais autonomia a Aceh", explica Angelo Segrillo, coordenador do Laboratório de Estudos da Ásia (LEA) da Universidade de São Paulo (USP).

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Em matéria publicada pelo The Manila Times de 2005, Farid Husain, um dos principais negociadores do governo, disse que a extensão da catástrofe "colocou o fator humanitário em primeiro plano". Teuku Kamaruzzaman, então porta-voz dos rebeldes, concordou com ele, afirmando que "O tsunami foi um fator fundamental para o acordo". A trégua foi firmada em 15 de agosto de 2005.

O cessar-fogo foi a única consequência positiva do tsunami que deixou até 225 mil mortos em dezenas de países – cerca de 166 mil somente na região de Aceh. A catástrofe foi resultado de um terremoto submarino de magnitude 9,1 na escala Richter cujo maremoto posterior viajou centenas de quilômetros e alcançou até as Ilhas Maldivas.

Reconstrução

Por causa do cessar-fogo, foi mais fácil reconstruir o país. Cinco anos após a tragédia, a Indonésia já havia erguido 140 mil casas, 1.700 escolas, 996 prédios governamentais, 36 aeroportos e portos, 363 pontes e quase 37 mil quilômetros de estradas, segundo a Agência de Reabilitação e Coordenação de Aceh-Nias, criada especificamente para coordenar a reconstrução, em 2010. Doações estrangeiras chegaram a US$ 6,7 bilhões para as obras.

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Imagens feitas por satélites, mostram regiões da Indonésia antes e depois do Tsunami de 2004. Foto: NasaImpacto da onda gigantesca foi tão grande que alterou quadro geográfico da Indonésia (arquivo). Foto: NasaImagens mostram o antes e o depois de regiões atingidas pelo tsunami da Indonésia (arquivo). Foto: NasaCorpos estendidos após tsunami da Indonésia (arquivo). Foto: Wikimedia CommonsDestroços tomaram conta de cidade da Indonésia após tsunami de 2004 (arquivo). Foto: Reprodução/YoutubeOnda gigante atinge a costa da Tailândia, um dos 13 países atingidos pelo tsunami (arquivo). Foto: Wikimedia CommonsPai atravessa com filhas rua inundada em distrito comercial de Jacarta (17/01/2013). Foto: ReutersEquipes de resgate atuam no litoral da Indonésia (arquivo). Foto: Wikimedia CommonsMesquita Grand Baitul Makmur, em Meulaboh, após tsunami de 2004 que destruiu a Indonésia (arquivo). Foto: Wikimedia CommonsRua do centro de Banda Aceh, Indonésia, após tsunami (arquivo). Foto: Wikimedia CommonsRestos de casa em Aceh, Indonésia, um ano após tsunami (arquivo). Foto: Wikimedia CommonsJamaliah, à esq., beija a filha Raudhatul Jannah, 14, que reencontrou após dez anos. A menina sumiu durante o tsunami de 2004, em Banda Aceh (8/08). Foto: ReutersHomem ajuda criança a sair de local alagado após tsunami da Indonésia (arquivo). Foto: Reprodução/YoutubeIdoso é retirado do local alagado após onda gigante atingir área da Indonésia em 2004 (arquivo). Foto: Reprodução/YoutubeHomem tenta driblar correnteza após onda atingir a Indonésia (arquivo). Foto: Reprodução/YoutubeCriança desacordada é retirada da água após tsunami atingir Aceh, Indonésia (arquivo). Foto: Reprodução/YoutubeImagens postadas no YouTube mostram o momento em que as ondas invadiram o litoral da Indonésia (2004). Foto: Reprodução/YoutubeResorts foram invadidos pelas ondas gigantescas vindas da praia (arquivo). Foto: Reprodução/YoutubeAs ondas ultrapassaram os 30 metros na Indonésia, um dos 13 países atingidos pela tragédia (2004). Foto: Reprodução/YoutubeMilhares de mortos foram confirmados em vários países, inclusive na Indonésia (arquivo). Foto: Reprodução/Youtube

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Outra vez

A reconstrução não é garantia de que tudo continuará firme como está. O tsunami de 2004, tido como uma das piores tragédias dos últimos 50 anos no mundo, não deve ser encarada como uma página virada na história dos indonesios, segundo Ideval Souza Costa, geólogo do museu de geociências da Universidade de São Paulo (USP). É que a Indonésia é um dos países mais afetados pelo Círculo de Fogo, área situada no Oceano Pacífico onde ocorre grande parte dos tremores de terra e erupções vulcânicas do mundo.

"Certamente haverá outra tragédia. Só não é possível dizer quando", prevê Costa.

O que não significa que terá as mesmas consequências. Apesar de tsunamis, terremotos e erupções vulcânicas serem características constantes na vida dos indonesios, é possível viver com segurança e manter uma economia estável se o país investir em tecnologia e adotar mecanismos que minimizem futuros danos após esse tipo de tragédia, afirma Paulo Daniel Watanabe, doutorando em Relações Internacionais pelo programa San Tiago Dantas (UNESP/UNICAMP/PUC-SP) e professor de Relações Internacionais da FMU.

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"É preciso investir em mecanismos de previsão e minimização de danos, como o Japão faz. Essa área nunca deixará de ser mais propensa a sofrer terremotos ou tsunamis", explica.

A Indonésia tem seguido esse conselho à risca. De acordo com Watanabe, o país passou a investir mais e a melhorar em sistemas de alerta após a catástrofe de 2004, principalmente após firmar acordo de cooperação com a Alemanha – que se comprometeu a dar assistência à Indonésia na construção de novos sistemas que detectam qualquer indício de terremoto ou formação de tsunami no oceano.

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Sri Lanka

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Trem saiu dos trilhos com o impacto da onda gigante que atingiu o Sri Lanka, segundo país mais atingido pelo tsunami de 2004 na Ásia (arquivo)

No Sri Lanka, porém, segundo país mais atingido pela tragédia com cerca de 40 mil mortos, a situação foi bem diferente.

Segundo a BBC publicou em 2010, muitos dos locais afetados pelo desastre ainda não haviam sido completamente reconstruídos. Levantamento da ONU informou que a onda gigante destruiu 75% das infraestruturas costeiras no país.

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Em 2005, ONGs afirmaram a agências de notícias internacionais enfrentarem dificuldades cada vez maiores para socorrer os desabrigados, situação complicada ainda mais pela corrupção e conflitos internos entre o Exército e os Tigres de Libertação do Eelam Tâmil (LTTE). Já na Tailândia, país que não havia solicitado ajuda internacional, os turistas estavam de volta às praias devastadas pelo tsunami, onde 5.400 perderam suas vidas em menos de dois anos.

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O coordenador do Laboratório de Estudos da Ásia (LEA) da USP explica que, diferente da Indonésia e da Tailândia, as reconstruções foram mais difíceis no Sri Lanka por causa da situação econômica e dos problemas políticos internos considerados graves.

"A Indonésia e a Tailândia são considerados minitigres asiáticos, por terem uma economia dinâmica e mais robusta. O Sri Lanka é bem mais fraco economicamente e, por isso, com menos recursos e menos preparado para esse tipo de catástrofe natural", afirma Angelo Segrillo.

Brasil não é alvo

Para os especialistas, é impossível que um tsunami como o de 2004 atinja o Brasil. "O que acontece no Chile e outros países da América do Sul é resultado do choque de placas que não existem no Brasil. Há terremotos no País diariamente, mas são quase imperceptíveis. Estamos localizados bem no centro da placa Sul-Americana. Não há perigo", explica Costa, do museu de geociências da USP. 

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Já Eduardo Felipe Matias, doutor em direito internacional pela USP e autor do livro 'A humanidade Contra as Cordas', aponta outro tipo de ação natural que merece total atenção (e preocupação) do Brasil: o aumento do nível do mar, acelerado pela emissão de gases poluentes pelo homem.

De acordo com o IPCC, Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas, 60% da população de 39 grandes metrópoles vivem a menos de 100 quilômetros da costa, o que os tornaria vulneráveis a essa rápida ação. No País, cerca de 40% das praias estão vulneráveis ao aumento de 59 centímetros do nível do mar até 2100.

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"Ainda que o tsunami não esteja relacionado ao aquecimento global, todo o desastre natural tem efeitos graves sobre uma população. A diferença é que as mudanças climáticas serão notadas mais lentamente", completa Matias.

Para reverter esse quadro, Matias acredita que o País deve investir em energia verde, estabelendo, por exemplo, limites mais severos para as emissões de poluentes, o que criaria incentivos para investimentos sustentáveis, impulsionando tecnologias com baixo carbono, entre outras inovações.

O incentivo, explica, pode ser feito por meio de instrumentos como tributação – o que permitiria precificar o carbono – e a adoção de critérios socioambientais na política de compras governamentais, ajudando a viabilizar economicamente produtos sustentáveis.

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"O custo de uma adaptação desse tipo seria grande, claro. Mas nos adaptarmos a uma situação onde a mudança climática já atingiu um efeito desenfreado custará ainda mais, tanto na economia quanto na qualidade de vida da população", conlui o especialista.

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