Os planos para normalizar as relações diplomáticas entre Estados Unidos e Cuba significam que logo uma embaixada americana pode ser aberta em Havana. Mas o que esse entendimento entre os dois países significa para o dia a dia da ilha caribenha?

BBC

Apesar de diálogo com os Estados Unidos, fim do embargo parece realidade distante na ilha
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Apesar de diálogo com os Estados Unidos, fim do embargo parece realidade distante na ilha


Eu fico intrigada com a reação das pessoas quando digo que passei um mês em Cuba.

"Você deve ter vivido uma experiência fabulosa", eles dizem de forma sonhadora, como se estivessem falando de outro paraíso caribenho.

Eu realmente tive momentos muito bons – como uma tarde regada a rum, charutos e música com o Clube de Senhoras Fumantes de Havana.

Ou uma celebração natalina da embaixada com o tema Las Vegas.

Mas eu também tive momentos de frustração tentando navegar na vida cotidiana dessa nação comunista do Caribe. 

É um mundo de escassez. 

Como uma caçadora ou coletora, eu percorri as lojas de estilo soviético abastecidas com uma seleção errática de coisas em conserva ou em pó e frequentei os mercados de produtores para encontrar frutas e vegetais mais frescos.

Um dos pontos baixos dessa busca foi não encontrar farinha de aveia no supermercado. O ponto alto foi poder comprar ótimas saladas.

Eu também fiquei hipnotizada – como todos os estrangeiros ficam – ao ver carros americanos clássicos ainda circulando pelas ruas.

Também fui seduzida pela graça e pelo ritmo dos jovens dançando a salsa em clubes noturnos.

Mas minha colega afirmou que eles estavam "pescando" – ou seja, à procura de estrangeiros para um relacionamento amoroso como bilhete para fora do país.

Reformas

Este é um mundo definido por ondas migratórias – a última delas formada por jovens que não aguentaram esperar penas reformas cautelosas que começaram a tomar forma no país nos últimos seis anos.

Quando perguntava o que o fim do embargo significaria, cada um me contou sobre sua versão do paraíso.

"Todas as esferas de nossa vida mudariam", disse uma universitária. "Todos teriam acesso à internet. Nossa comunicação com outros países mudaria, nós conseguiríamos ter acesso a qualquer material que precisássemos".

O editor de uma revista local foi mais cauteloso: "Os cubanos sempre me perguntam o que vai acontecer quando o embargo for levantado".

"Mas estamos tão acostumados com ele que a vida será um grande ponto de interrogação. Isso cria uma certa quantidade de ansiedade", disse. E também uma complexidade de emoções.

"Nós estamos culturalmente mais próximos dos Estados Unidos que qualquer outro país no hemisfério. O jazz e o baseball são parte de nós".

"Mas o desafio será conseguirmos manter uma relação normal com os Estados Unidos e ao mesmo tempo a nossa independência", disse.

Uma jovem artista descreve a ideia de forma diferente: "Nossa característica nacional é enfrentar o valentão. Mas por outro lado também queremos ser os melhores, a flecha mais rápida da América Latina".

"Se o valentão sair do cenário, podemos nos focar em ser a flecha".

Fidel Castro

Fidel Castro encarna essa determinação de traçar um curso fora da órbita dos Estados Unidos.

Muitos acreditam que a reaproximação anunciada nesta semana não teria acontecido se Fidel ainda estivesse no comando.

"Quando Castro se for, Cuba se tornará um outro país", disse um jornalista americano que viveu em Havana durante muitos anos de seu governo.

Acredita-se que agora isso pode acontecer, devido à mudança na política americana.

"Venha a Cuba enquanto ela ainda tem o charme do velho mundo. Antes que as comportas sejam abertas para os turistas americanos", diz o anúncio de uma empresa de turismo canadense.

Eu acho que essa é uma parte do raciocínio segundo o qual Cuba é fabulosa – a mística de um país congelado no tempo, com uma cultura não americanizada ou comercializada.

Isso não vai mudar agora – porque apesar do embargo ter sido relaxado, ele não foi levantado. E o governo cubano vai querer controlar o ritmo da mudança.

Mas não é impossível imaginar uma invasão de lojas Starbucks e McDonald’s.

Os cubanos não querem ficar congelados no tempo, eles querem oportunidades econômicas modernas. Eles querem se conectar ao mundo.

Mas eles também querem permanecer sendo essencialmente cubanos. E o que significará viver sem o valentão americano é um grande ponto de interrogação.

* Barbara Plett

Especialista em diplomacia americana da BBC News



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