"Os cubanos não tem sentimentos antiamericanos"

Por BBC | - Atualizada às

compartilhe

Tamanho do texto

Blogueiros de Cuba falam da recepção na ilha à notícia da reaproximação com EUA e das mudanças que esperam ver

BBC

Reuters
Anúncio de reaproximação teve reação positiva em Havana

Manifestações espontâneas de alegria, surpresa, entusiasmo e ceticismo. A maior mudança nas relações entre Estados Unidos e Cuba em mais de 50 anos causou reações apaixonadas na ilha.

A BBC Mundo, serviço em espanhol da BBC, pediu a autores do blog Voces desde Cuba (Vozes de Cuba) que relatassem como eles viveram na ilha o dia histórico em que os líderes dos dois países anunciaram a reaproximação.

Yuris Nórido: um dia histórico

Poucas vezes uma notícia surpreendeu tanto o povo cubano. Milhões de cidadãos foram à TV para ouvir o presidente Raúl Castro, ao meio-dia.

A imprensa nacional tinha acabado de anunciar o pronunciamento do líder, informando que o tema seria as relações com os Estados Unidos.

Mas muitos cubanos com acesso total à internet já sabiam muito mais: Alan Gross tinha sido libertado e - a maior surpresa - os três cubanos que seguiam presos nos EUA também deixariam a cadeia.

Os rumores se espalharam, apesar do silêncio inexplicável da mídia nacional. Felizmente, graças ao sinal aberto da Telesur, muitos espectadores puderam ouvir, além do discurso do presidente Castro, ao presidente Obama.

Leia mais: O que é o plano para a reaproximação entre EUA e Cuba

A reação foi imediata. Nas ruas de Havana, havia satisfação. Esse é o grande tema, que chama atenção de todos. Em táxis, pontos de ônibus, no trabalho, filas, parques...

Não é para menos: trata-se da mudança mais importante na política dos Estados Unidos em relação a Cuba nos últimos 50 anos, resultado de negociações entre os dois governos.

Ainda é cedo para se ter uma ideia clara das mudanças específicas que esta decisão vai promover.

Obama tomou decisões importantes que, obviamente, marcam uma mudança. Por exemplo: mais viagens entre os dois países e aumento da quantidade de dinheiro que pode ser enviado a partir do Estados Unidos são, sem dúvida, medidas que irão influenciar positivamente a vida de grande parte da população.

Há outros pontos importantes: a possível saída de Cuba da lista dos EUA de países que apoiam o terrorismo, uma inclusão que tem razões mais políticas do que práticas.

A maioria das pessoas, agora, reagiu com alegria e esperança. Com o passar dos dias se descobrirá o real alcance das medidas, mas é possível sentir o otimismo.

Ao contrário do que pensam pessoas pouco informadas sobre a realidade da ilha, cubanos não têm sentimentos antiamericanos, apesar do longo enfrentamento entre os dois governos, desencontros, declarações oficiais e efeitos práticos de medidas econômicas.

Leia também: O que o Brasil ganha com a reaproximação Cuba-EUA?

As pessoas imaginavam que as relações entre os dois países mudariam para melhor, em algum momento. Poucos esperavam que, aparentemente, seria da noite para o dia.

O presidente dos EUA, Barack Obama, anunciou nesta quarta-feira (17) uma série de mudanças nas relações entre o país e Cuba. Foto: AP Photo/Doug Mills, PoolO líder de Cuba, Raúl Castro, discursa sobre retomada das relações com os EUA, nesta quarta-feira. Foto: Youtube/ReproduçãoPresidente Barack Obama durante discurso no Salão Leste da Casa Branca em Washington, EUA . Foto: APEstados Unidos e Cuba não se relacionam desde 1962 -  obstáculos às relações econômicas foram adotados pelos EUA. Foto: AP Photo/SABC Pool, FileFotos mostra Alan Gross, ex-prisioneiro americano libertado por Cuba, chegando na Andrews Air Force Base. Foto: AP Photo/Sen. Jeff FlakeAlan Gross com sua esposa, Judy, antes de deixar Cuba. Foto: AP Photo/Sen. Jeff FlakeFoto de Alan Gross, prisioneiro americano libertado por Cuba. Foto: AP Photo/James L. Berenthal, FileAlan Gros, prisioneiro americano libertado por Cuba, e sua mulher, Judy Gross, em local desconhecido . Foto: AP Photo/Gross Family, File

Regina Coyula: libertações

Não deixei de ficar surpresa, mas também não fui pega desprevenida. Havia conversado sobre isso com amigos que me chamaram de louca, para quem (o americano libertado Alan) Gross e os três não eram moeda de troca, que sem direitos humanos não haveria relações.

Eu os respeitava, mas lembrei que política é preparada com ingredientes sutis que não aparecem nas notícias - muito menos nas notícias do Granma - mas havia indícios e foi por esses indícios que a notícia do ano me surpreendeu pouco.

Agora, com Gross nos EUA e os três em Cuba, começa a implementação das conversas. Não acho que todo mundo esteja feliz, seja dentro do governo ou na dissidência.

Mas a economia, como sabemos, é muito pragmática, os investidores americanos medem o risco em números e não em violações de direitos humanos.

Caberá à sociedade civil aproveitar esta conjuntura indiscutivelmente favorável para aprofundar a luta para estabelecer um verdadeiro Estado de direito.

Leia também: Papa Francisco é responsável por intermediar reaproximação de EUA e Cuba

Já eu quero acreditar que o dia de 17 de dezembro de 2014 abre uma nova etapa na longa viagem de Cuba para inserir-se entre os países modernos e democráticos.

Alejandro Rodríguez: a grande mudança começou

Em Camagüey, uma das principais cidades da ilha, a notícia da progressão para o restabelecimento das relações diplomáticas e a troca de prisioneiros teve um efeito comparável aos acontecimentos mais importantes da história do país.

Nós cubanos não estamos acostumados às notícias e menos ainda às de alto impacto: houve, então, quem chorou e quem não acreditava.

Houve até mesmo pequenas manifestações espontâneas de alegria popular, um cenário pouco comum.

Leia mais: Carros antigos, mercado negro e racionamento: os efeitos do embargo

Embora nenhum dos anúncios signifique, de fato, o fim da política tradicional de Washington com Havana - o embargo - ou das tradicionais respostas de Havana, todos interpretaram o anúncio como o início do fim das hostilidades entre os dois países.

Isto é algo muito esperado por aqueles que nasceram no meio de uma antiga guerra que não pedimos nem queremos.

Ninguém sabe ao certo o que vai mudar a partir de agora para os cubanos, especialmente para os mais pobres, mas as pessoas sabem que uma grande mudança começou, que pode guiar Cuba para o século atual.

Leia tudo sobre: mundoEUA e Cubaembargobarack obamaraul castro

compartilhe

Tamanho do texto

notícias relacionadas