Aluno sobrevive a tiro na cabeça, mas perde mãe professora em ataque do Taleban

Por BBC Brasil | - Atualizada às

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Drama do estudante Baqir Jafri, de 15 anos, é uma das mais de uma centena de histórias trágicas que emergem no Paquistão

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O drama do estudante Baqir Jafri, de 15 anos, é uma das mais de uma centena de histórias trágicas que emergem do massacre na escola paquistanesa alvo de um ataque do Taleban.

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AP
Baqir Jafri levou dois tiros, mas sobreviveu a massacre; sua mãe não teve a mesma sorte

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Na hora do ataque, Baqir estava no auditório, junto com vários outros meninos com idades entre 14 e 16 anos. Médicos haviam acabado de dar início a um workshop sobre primeiros socorros para os estudantes. Foi quando eles ouviram os dois primeiros disparos dos atiradores que invadiram o colégio.

Os tiros não causaram alarde. Os professores disseram que os alunos não deveriam se preocupar. Poderia ser apenas um treinamento do Exército.

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"Então, ouvimos um terceiro tiro, e nossa diretora, a senhora Tahira Qazi, que estava sentada na primeira fila, se virou e pediu a um dos professores para trancar a porta dos fundos", relembra o adolescente.

"Mas antes que isso fosse feito, o professor foi atingido por dois tiros que atravessaram o vidro e caiu."

A dupla caminhava pelas fileiras de cadeiras, atirando nos garotos aleatoriamente. A maioria foi morta. Um atirador passou por onde Baqir estava escondido, mas não o viu. Mas, depois, ele parou, se virou e viu a cabeça do rapaz.

"Quando ele atirou em mim, minha cabeça foi ligeiramente para trás. A bala passou se raspão pela minha testa. Senti uma leve ardência, mas nenhuma dor. Mais tarde, quando toquei minha cabeça, vi que estava sangrando", conta Baqir.

"O atirador provavelmente pensou que eu estava morto e seguiu em frente, atirando em mais garotos e professores. Vi ele atirar na cabeça do meu professor, por trás, três vezes."

Saraivadas de tiros

Ele diz que o auditório ficou cheio de fumaça. Os atiradores saíram pela porta da frente, rumo às salas de aula.

Os garotos ainda vivos correram para as portas laterais. Baqir correu para o palco e entrou em um pequeno vestiário à direita, que tinha uma saída para a ala da administração do colégio.

Ele podia ouvir as saraivadas de tiros de rifle vindas das salas de aula e da administração. Os prédios da escola ficaram cheios de buracos de bala. Naquele vestiário, Baqir levou outro tiro, disparado por um homem que estava indo atrás dos que tentavam escapar. A bala o atravessou e atingiu um outro garoto.

Mais alguns tiros foram disparados, e o enorme espelho do vestiário se estilhaçou. Baqir se fingiu de morto, deitado em meio aos cacos, colegas mortos e outros ainda vivos. Em outra sala do vestiário, o corpo de uma professora estava em chamas. Ela parecia estar morta.

Voluntários paquistaneses carregam estudante ferido após ataque do Taleban a escola em Peshawar, Paquistão (16/12). Foto: APEquipes de resgate paquistanesas tiram alunos feridos de ambulância após ataque do Taleban no Paquistão (16/12). Foto: APEquipe de um hospital transporta aluno ferido após ataque do Taleban em Peshawar, Paquistão (16/12). Foto: APHomem conforta estudante de pé à beira do leito de um menino que foi ferido em um ataque Taleban no Paquistão (16/12). Foto: APGuarda ajuda estudante ferido após ataque do Taleban a escola paquistanesa (16/12). Foto: APCorpos de estudantes mortos após ataque de homens armados do Taleban a uma escola do Paquistão (16/12). Foto: APCorpo de aluno morto após ataque do Taleban no Paquistão (16/12). Foto: AP

O garoto ficou deitado ali por "uma ou duas horas", ouvindo o barulho de tiros e explosões, que vinha principalmente de um lado da ala administrativa.

Então, Baqir ouviu uma pessoa chamando: "Tem alguém aí?". Ele viu um soldado e levantou sua cabeça. O soldado lhe disse para levantar as mãos e ir para fora.

Enquanto ele era levado para o hospital em uma ambulância, seu irmão mais velho, Sitwat, que havia escapado, estava preocupado com sua mãe, Farhat Jafri, uma das professoras da escola. Sitwat, de 17 anos, era um dos 45 estudantes que estavam na sala onde eram realizadas as provas, no primeiro andar da escola.

"Minha mãe estava trabalhando nesta sala, mas estava com dor de garganta e uma leve febre, então, outro professor a aconselhou a descansar na sala dos funcionários, que ficava ao lado. Ela saiu meia hora antes do tiroteio começar". Sitwat nunca mais viu sua mãe viva.

Medo

Ao ouvirem os tiros, o receio inicial dos alunos da turma de Sitwat era de que estavam sob ataque de militantes. O medo não era infundado. Sitwat diz que, há quatro ou cinco meses, uma bomba foi descoberta em um dos gramados da escola - e evacuada pelo portão dos fundos, que dá para a direção sul.

Autoridades dizem que houve um grande alerta de segurança em agosto do ano passado, o que fez com que professores pedissem que as paredes da escola ao norte e ao oeste fossem fortificadas. Estas áreas seriam mais perigosas por estarem mais perto de um campo de refugiados afegão chamado Ghundai.

"É uma região infestada de criminosos, e estas campos de refugiados afegãos tradicionalmente são usados como esconderijos por militantes em suas missões", disse um policial à BBC.

No entanto, as autoridades militares locais que administram a escola não tomaram nenhuma medida na época. Hoje, eles admitem que os militantes cortaram justamente o arame farpado destas paredes da escola para escalá-la. E foi isso que um dos estudantes que estava na mesma sala de provas de Sitwat viu.

"Um amigo meu que estava próximo da janela viu alguns homens correndo ao lado da parede e depois se separando, indo rumo a diferentes blocos da escola", afirma o rapaz.

Algumas balas atingiram as janelas e quebraram os vidros. Professores disseram aos jovens para ir para o centro da sala e deitar no chão, para que não pudessem ser vistos pelo lado de fora. Sitwat diz ter sido resgatado pelo Exército cerca de uma hora depois.

"Esperei no portão pela minha mãe. Perguntava a cada estudante que saía se a havia visto. Mas ninguém disse que sim. Telefonei para ela centenas de vezes, sem resposta. Liguei para meu pai, que disse que meu irmão estava em segurança no hospital, mas que não tinha notícias da mamãe", relembra o jovem aos prantos.

"Então, um dos garotos me disse que havia a visto sair correndo da sala dos professores para o auditório quando os tiros começaram. Sabia que ela tinha ido para lá por causa do meu irmão. E foi lá que ela morreu."

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