Cinquenta e dois anos após início do embargo norte-americano a Cuba, líderes dos dois países retomam diálogos

Um dia histórico que parece marcar o início do fim de um dos episódios ainda não resolvidos da Guerra Fria, o conflito marcado pela polarização do mundo sob influência norte-americana e soviética, encerrado em 1991. Em discursos concomitantes transmitidos para o mundo todo no início desta quarta-feira (17), os líderes de Cuba e EUA falaram sobre o embargo da nação americana ao arquipélago caribenho, iniciado em 7 de fevereiro de 1962. As restrições, no entanto, permanecem.

O líder de Cuba, Raúl Castro, discursa sobre retomada das relações com os EUA, nesta quarta-feira
Youtube/Reprodução
O líder de Cuba, Raúl Castro, discursa sobre retomada das relações com os EUA, nesta quarta-feira

"Pedimos aos EUA para remover os obstáculos que há décadas acabam com os vínculos entre nossos povos", disse o presidente cubano Raúl Castro, citando conversa que teve com Obama na noite anterior, marcando o início das retomada de relações diplomáticas entre os dois países. "Os progressos alcançados por intercâmbio entre nossos cidadãos e os norte-americanos demonstram ser possível encontrar soluções a muitos dos problemas da atualidade."

Leia mais:
Barack Obama e Raúl Castro anunciam aproximação histórica entre Cuba e EUA
Cuba liberta ex-espião e EUA anunciam mudanças na relação com a ilha

Conhecido pelos cubanos como "el bloqueo" (o bloqueio), o embargo norte-americano a Cuba foi uma medida adotada pelos EUA no auge da Guerra Fria que interditou totalmente a relação econômica, financeira e comercial entre os dois países, separados por uma fronteira marítima de apenas 535 km. A medida foi imposta no início dos anos 1960, depois do revolucionário e então recém-empossado líder cubano, Fidel Castro, iniciar uma aproximação com a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS), representada pela Rússia.

Após uma restrição inicial para a importação de açúcar cubano ao território norte-americano, instituída pelo então presidente dos EUA Dwight Eisenhower em 1960, John F. Kennedy ampliou as restrições para o grau máximo dois anos depois, suspendendo relações de nações anteriormente tão próximas – antes da Revolução Cubana que removeu a ditadura de Fulgencio Batista do poder, Cuba era conhecido como um "quintal dos EUA", onde empresários exploravam seus recursos e as elites passavam temporadas gastando dólares em seus cassinos e hotéis de luxo.

Veja fotos da relação entre Cuba e EUA:

Devido ao aumento da tensão por influência entre soviéticos e norte-americanos, em 1962 Cuba foi protagonista daquela que ficou conhecida como a Crise dos Mísseis. Em resposta à instalação de mísseis nucleares na Europa e à tentativa dos EUA de derrubarem Castro em Cuba, no ano anterior, os russos colocaram mísseis em território cubano apontados diretamente para os EUA em outubro.

A tensão acabou levando os EUA a impor restrições para viagens de seus cidadãos ao país caribenho, bem como à restrição comercial total entre as nações-membro da Organização dos Estados Americanos (OEA) com os cubanos. Também colaborou para a assinatura do Tratado de Não-Proliferação de Armas Nucleares, cujo objetivo foi conter a corrida armamentista mundial, em 1968.

Leia também:
Cuba estima em US$ 116,8 bilhões prejuízo total por embargo dos EUA
Espião libertado forneceu informações cruciais para processos contra cubanos
Obama troca aperto de mão com presidente de Cuba em cerimônia por Mandela

O embargo total, no entanto, prosseguiu, com presidentes norte-americanos assinando continuamente sua prevalência ao longo dos anos. Entre eles, o próprio Barack Obama, eleito chefe do Poder Executivo do país em 2008 com a promessa de terminar com o longo bloqueio à nação caribenha, conhecida pelos mais diversos problemas sociais. Os discursos desta quarta-feira são um alento em direção a uma nova política.

"Ao reconhecer que temos muitas diferenças, devemos dialogar sobre temas como direitos humanos, política interior, democracia e soberania. Devemos aprender a forma de conviver de forma civilizada com nossas diferenças", resumiu Castro. "Voltaremos a falar sobre esses temas mais à frente."

    Faça seus comentários sobre esta matéria mais abaixo.