Especialista em Relações Internacionais afirma que embargo ao país comunista não caiu, mas troca de prisioneiros estratégicos entre os lados indica caminho para interlocução diplomática

O presidente dos EUA, Barack Obama, anunciou nesta quarta-feira (17) uma série de mudanças nas relações entre o país e Cuba
AP Photo/Doug Mills, Pool
O presidente dos EUA, Barack Obama, anunciou nesta quarta-feira (17) uma série de mudanças nas relações entre o país e Cuba

Os recentes fatos econômicos e políticos, além da pressão da comunidade mundial e da Organização das Nações Unidas (ONU), apontavam para uma aproximação gradual nas relações entre os Estados Unidos e Cuba. Essa é a avaliação do coordenador do curso de Relações Internacionais da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP).

Nesta quarta-feira (17), o presidente norte-americano, Barack Obama, declarou o fim da "abordagem ultrapassada" dos Estados Unidos a Cuba, anunciando o restabelecimento de relações diplomáticas, bem como os laços econômicos e de viagens para a ilha – uma mudança histórica na política dos EUA, que visa pôr fim a um meio século de inimizades da Guerra Fria.

“A troca de prisioneiros é o maior indicativo de retomada das relações, mas o embargo ainda não caiu. Não é uma surpresa, mas é algo importante que pode indicar o caminho inicial das relações diplomáticas em alto nível.”

Na última reunião da Assembleia-Geral da ONU, em outubro deste ano, apenas EUA e Israel votaram a favor da manutenção do embargo, contra 188 países que pediram a queda.

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Para Pereira, o grande desafio para Cuba é se manter em um regime socialista e promover a abertura do mercado. “Isso está sendo feito pelo Raúl Castro. Hoje Cuba já permite investimento estrangeiro em todos os setores do país, exceto na Educação e Saúde. O Porto de Mariel, que recebe investimentos do BNDES, é um exemplo disso.”

Pereira pontua que o embargo não trouxe resultados positivos para nenhum dos lados e que após 50 anos houve uma grande mudança.  

 “Faz parte de estratégia da política externa dos EUA ter Cuba menos antagônica, pois há uma demanda de cubanos-americanos para viagens à Cuba, precisa ser feita a flexibilização de remessas externas para Cuba, intercâmbio de pessoas e de dinheiro pode ter maior movimentação e os dois países ganham.”

Povo cubano será maior beneficiado e Obama constrói legado

O líder de Cuba, Raúl Castro, discursa sobre retomada das relações com os EUA, nesta quarta-feira
Youtube/Reprodução
O líder de Cuba, Raúl Castro, discursa sobre retomada das relações com os EUA, nesta quarta-feira

Lucas Leite, professor de Relações Internacionais da  Fundação Armando Alvares Penteado (FAAP), acredita que a reaproximação dos países e a provável queda do embargo vai favorecer principalmente o povo cubano, mas pode fortalecer a imagem do presidente Obama, que recentemente perdeu a maioria no Congresso e enfrenta oposições em questões importantes.

"Sem dúvida alguma a reabertura vai inserir a nação cubana e seu povo no cenário internacional, com fortalecimento do turismo, da economia e com a liberação da internet, o que faz a população avançar, inclusive, em termos de relações humanas", afirma Leite.

Já para o presidente dos EUA pode deixar um legado importante. "O Obama pode entrar para a história como o presidente que trabalhou na interlocução com Cuba [apoiado pela troca de comando, por Raúl Castro]. Esses reflexos poderão ser sentidos na América Latina, região do mundo ainda marginalizada pelos norte-americanos. Pode favorecer novos acordos e de alguma forma avançar em terreno tão cultivado pelos chineses", afirma o professor da FAAP.

"Obama sairá muito fortalecido [se conseguir derrubar o embargo]. Ele pode ter apoio inclusive dos republicanos por serem mais pragmáticos e pensarem nos ganhos econômicos que podem surgir com a queda do embargo. Além disso, renova credenciais do governo e pode dar andamento à reforma da imigração, renovar base eleitoral para fortalecer o candidato de seu partido à sucessão presidencial", avalia Leita.   

Na América Latina, o presidente dos EUA também pode ter ganhos políticos que colocam em segundo plano questões negativas de imagem, como a espionagem e a guerra ao terror.


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