Mais de mil mortes: como mulheres paquistanesas são punidas por se apaixonarem

Por BBC | - Atualizada às

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"Crimes de honra" seguem comuns no país; fundamentalismo religioso dificulta combate à violência contra o sexo feminino

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Em um país que luta para preservar suas tradições tribais, as mulheres paquistanesas enfrentam a brutalidade – e até a morte – caso se apaixonem pela pessoa errada. Arifa, de 25 anos, enfrentou sua família e fugiu com o homem que amava, com quem se casou em segredo.

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Mulheres protestam contra a violência contra o sexo feminino no país de maioria islâmica

No dia seguinte, em uma rua movimentada de Karachi, a cidade mais populosa do Paquistão, membros de sua família cercaram os recém-casados e os ameaçaram com armas.

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Eles levaram Arifa e passaram-se cinco dias até que seu marido, Abdul Malik, tivesse notícias dela. "Recebi uma mensagem dizendo que ela havia sido morta. Foi o dia mais difícil da minha vida", relembra, tentando evitar as lágrimas. "Depois de muito sofrimento, consegui provar que minha mulher está viva e foi escondida em algum lugar."

Com receio de ser assassinado, Malik vive escondido há três meses. "No Paquistão, o amor é um pecado grave. Séculos se passaram, o mundo fez tanto progresso – homens chegaram até os céus. Mas nossos homens ainda seguem tradições e costumes da Idade das trevas", diz ele.

Essas tradições e costumes – com foco em negar liberdade às mulheres – têm cada vez mais aceitação no Paquistão e são encorajadas por estudiosos religiosos linha dura.

Galeria de fotos - o estupro como arma de guerra:

Síria: relatório da ONU aponta que, no início do levante contra presidente, Exército era o principal responsável por violações sexuais de crianças. Foto: Reprodução/YoutubeSíria: segundo a ONU divulgou em 2013, mais de 38 mil pediram ajuda após serem vítimas de crimes como estupros. Foto: Reprodução/YoutubeNepal: insurreição maoísta de dez anos terminou em 2006. Está em lista da ONU dos países com mais denúncias de estupro. Foto: Reprodução/YoutubeSerra Leoa: Guerra civil de uma década terminou em 2002. Mais de 70% das vítimas eram menores, disse a ONG Save the Children em 2013. Foto: Reprodução/YoutubeLibéria: país foi palco de guerras civis (1989-1996 e 1999-2003). Das vítimas de estupro, 83% tinham menos de 17 anos, diz Save the Children. Foto: Reprodução/YoutubeBósnia: durante conflitos no início dos anos 1990, entre 20 mil e 50 mil mulheres foram estupradas, diz ONU. Foto: Reprodução/YoutubeAfeganistão: país é palco de invasões e da atuação do Taleban. Em janeiro, houve 'estupros públicos', disse comissão de direitos humanos afegã. Foto: Reprodução/YoutubeCongo: relatório da ONU mostra que mais de 3,6 mil foram vítimas de violência sexual no país entre 2010 e 2013. Foto: Reprodução/YoutubeCongo: 25% das vítimas eram crianças. Um terço dos relatos indica que os agressores eram membros do Exército nacional. Foto: NYTIêmen: em 2012, a Unicef disse que a Al-Qaeda na Península Arábica forçou meninas, incluindo menores de 13, a se casar com combatentes. Foto: Reprodução/YoutubeSudão do Sul: estupro é considerado alto em Estados como o Alto Nilo, afetados pela disputa política e étnica entre forças do presidente e milícias. Foto: Reprodução/YoutubeCosta do Marfim: milícias são acusadas de estupro, segundo a ONU. A ex-primeira-dama Simone Gbagbo foi acusada de ter papel em crimes. Foto: Reprodução/YoutubeMali: em 2013, relatório da ONU indicou que grupos extremistas vitimaram mulheres sob execução da lei islâmica, cometendo estupros, execuções etc.. Foto: Reprodução/YoutubeMali: documento da ONU diz que a violência aconteceu tanto no norte, ocupado por rebeldes islâmicos, quanto em áreas sob controle do governo. Foto: Reprodução/YoutubeRepública Centro-Africana: em relatório deste ano, a ONU cita 'indícios de estupro de guerra nos ataques de março a dezembro de 2013'. Foto: Reprodução/YoutubeLuanda: segundo a ONU, cerca de 700 mulheres foram estupradas em 2010 na fronteira com o Congo por soldados angolanos. Foto: Reprodução/YoutubeAngola: relatório deste ano divulgado pela ONU colocou o país entre os 21 onde o estupro é usado como arma de guerra. Foto: Reprodução/Youtube

"Crimes de honra"
Este é um mundo em que, na prática, a mulher tem poucos direitos – ela é propriedade da família até o momento em que se casa. Seus "donos", então, passam a ser os familiares de seu marido e ela pode morrer se for considerado que desonrou a família.

Só em 2014, mais de mil mulheres foram mortas nos chamados "crimes de honra" – este é a apenas o número de casos dos quais as autoridades têm conhecimento.

Em maio, o caso da jovem Farzana Parveen chocou o mundo. Ela estava grávida quando foi apedrejada até a morte pela própria família por ter se casado com um homem por quem se apaixonou ao invés de com aquele que os familiares escolheram para ela.

O detalhe mais chocante é que o caso aconteceu diante do supremo tribunal de Lahore, de policiais e de transeuntes.

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Em novembro, por causa da atenção que o caso recebeu da mídia internacional, o pai, o irmão o primo e o ex-noivo de Parveen foram condenados à pena de morte por assassinato. Outro de seus irmãos foi condenado a 10 anos de prisão.

Mas, na maior parte das vezes, os perpetradores desses atos brutais contra mulheres nunca são acusados, já que são protegidos pelas leis tribais. Alguns religiosos linha-dura acreditam que só por meio da morte do membro da família que a ofendeu – geralmente uma mulher – a honra pode ser restituída ao resto dos familiares e à tribo.

O mais surpreendente é que poucas pessoas no Paquistão de hoje estão dispostas a desafiar as tradições e os costumes tribais. Na verdade, de acordo com uma pesquisa recente do Instituto Pew, a maioria dos paquistaneses apoia a implementação total da sharia – o sistema legal do Islã.

Apedrejamento e chicotadas
Nas ruas de Karachi, encontro uma madrassa (espécie de seminário) onde milhares de garotos recebem ensinamentos religiosos. Quero perguntar ao clérigo local o que ele pensa sobre adultério, razão pela qual as mulheres também são mortas em "crimes de honra".

"A punição deve ser aquela prescrita na sharia, que é de apedrejamento e chicotadas", diz o mulá. Seus alunos o apoiam.

Em 1970, o general Zia-ul-Haq, ditador no Paquistão, criou a chamada ordenança Hudood – um conjunto de leis polêmicas que pretendia islamizar o país. Entre outras coisas, as leis de fato tornaram o adultério um crime passível de apedrejamento e chicotadas.

Em 2006, o então presidente Pervez Musharraf tentou relaxar algumas dessas leis para proteger as mulheres, mas suas mudanças tiveram pouca aplicação prática. Adultério ainda é crime no país.

Uma prisão central para mulheres em Karachi é onde muitas das acusadas de adultério vão parar. É o caso de Sadia, 24 anos. Ela chegou à prisão 14 meses atrás, depois que seu marido há nove anos a acusou de dormir com outro homem. Ela aguarda julgamento.

"Meu marido se divorciou de mim, me bateu e me expulsou de casa. Depois ele foi à polícia e disse que eu fugi com outro homem. Na verdade, ele e sua família me expulsaram", conta ela.

Sadia afirma que não tem acesso a um advogado e não sabe quando conseguirá sair da prisão. No momento da minha visita, há 80 mulheres no local – muitas não sabem por que estão lá e acabam ficando presas por anos, sem julgamento.

Algumas das mulheres com mais sorte vão para algum dos abrigos espalhados pelo país. Um desses locais, o abrigo Edhi para mulheres, é um complexo fortificado em um dos bairros mais perigosos do subúrbio de Karachi, reduto de simpatizantes do Talebã.

A maioria das mulheres estão aqui após terem fugido de relacionamentos abusivos ou serem expulsas de casa por familiares. Elas vivem pacificamente no abrigo, compartilhando tarefas, ajudando umas as outras a cozinhar, limpar o local e cuidar das crianças. Ninguém faz perguntas sobre o porquê de estarem ali.

Há uma regra, porém, à qual todos obedecem: ninguém pode entrar no local sem que as mulheres permitam, incluindo autoridades.

"Se uma mulher está tendo um caso fora daqui, não nos importamos, não perguntamos. Ela pode ficar aqui o tempo que quiser. Se a família quiser levá-la de volta e ela tiver vontade de ir, está livre para ir", diz Samina, que trabalha como voluntária no abrigo.

Samina diz, no entanto, que se a polícia for à procura de alguma das mulheres por acusações de adultério, as funcionárias do abrigo não a entregarão.

"Meus filhos gritavam"
Ayesha diz já ter deixado sua casa cinco vezes, levando seus dois filhos pequenos, para encontrar segurança no abrigo. Todas as vezes, seu marido volta para levá-la, mas os abusos e a tortura aos quais ela é submetida ao voltar a fazem fugir de novo.

"Meu marido me trancava no quarto e me batia, além de qualquer limite, me forçando a dizer que estava tendo um caso", conta ela. "Meus filhos gritavam: 'Por favor, alguém ajude nossa mãe'. Mas ninguém ouvia, ninguém aparecia."

Ayesha diz que agora não vai mais voltar para casa. O futuro ainda é incerto, mas ela diz ter sorte de estar viva.

Apesar de um aumento da classe média e de tentativas de modernizar as leis, o combate à misoginia (ódio às mulheres) institucionalizada está cada vez mais difícil no Paquistão.

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