De onde vem o dinheiro que financia grupos extremistas islâmicos?

Por BBC | - Atualizada às

compartilhe

Tamanho do texto

Cada vez mais, grupos têm fontes de financiamento interno para sustentar operações; sequestros e controle de tráfico de drogas também geram lucros para financiar ataques terroristas

BBC

Há um ano, o grupo hoje conhecido como Estado Islâmico era pouco lembrado no cenário internacional, a não ser por aqueles interessados em se tornar combatentes ou entre estudiosos que acompanham a situação na Síria e no Iraque. Mesmo quando emergiu, o grupo era considerado apenas mais um entre os vários agrupamentos envolvidos no conflito sírio.

AP
Homem cultiva plantação de ópio: plantio e comércio de drogas financia ações terroristas

Em janeiro de 2014, o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, minimizou a capacidade e o perigo representados por aqueles combatentes agitando bandeiras da Al-Qaeda em Falluja e em outras áreas no Iraque e na Síria.

Mas, poucos meses depois, o grupo Estado Islâmico assumia o controle de um vasto território no norte dos dois países.

O ex-secretário de Defesa Chuck Hagel descreveu o grupo como mais "sofisticado e bem financiado" do que qualquer outro. "Eles são mais do que um grupo terrorista... Eles são tremendamente bem financiados".

No caso do Estado Islâmico, há um foco maior da comunidade internacional sobre suas finanças – a receita que o grupo obtém através de petróleo, tributação, extorsão e roubos.

Parte considerável dos ataques aéreos da coalizão liderada pelos Estados Unidos atingiu as refinarias de petróleo e as rotas de contrabando que, acredita-se, seriam o meio de sobrevivência financeira do grupo, na crença de que cortar as fontes de financiamento acabaria por precipitar seu fim.

Uma sólida gestão financeira é o centro do sucesso de qualquer organização terrorista ou insurgente, representa sua força vital – mas é também uma das vulnerabilidades mais significativas.

Doadores
Garantir e manter um financiamento confiável é a chave para que eles evoluam de grupos radicais secundários a reconhecidas organizações terroristas – de uma existência baseada no "boca a boca" a um modelo mais planejado e organizado.

Grupos de sucesso são muitas vezes definidos não só pela experiência militar e capacidade de recrutar combatentes, mas também pela habilidade como gestores financeiros.

Em geral, grupos terroristas podem recorrer a financiamento a partir de duas fontes primárias. Internamente, fundos são gerados pela tributação de moradores, empresas e vias de transporte, recursos provenientes de sequestro e resgate, e sobre lucros do comércio.

O financiamento externo é fornecido por doadores simpáticos à causa, sejam eles pessoas endinheiradas que vivem na região – muitas vezes, em países do Golfo Pérsico – ou membros da comunidade de expatriados.

Às vezes, doações também são transferidas entre grupos terroristas com diretrizes semelhantes. Por exemplo, o grupo nigeriano Boko Haram teria recebido US$ 250 mil do grupo Al-Qaeda no Magrebe Islâmico em 2012.

Em uma carta de 2005, o ex-vice-líder da Al-Qaeda Ayman al-Zawahiri pediu que o grupo situado no Iraque transferisse US$ 100 mil já que muitas de suas próprias linhas de financiamento haviam sido cortadas.

Enquanto doações podem ser uma fonte inicial de financiamento, elas são vulneráveis à atuação de autoridades e a oferta não é confiável. Já o financiamento interno é menos suscetível a sanções da comunidade internacional.

Veja quais são os principais grupos terroristas da atualidade:

Boko Haram: radicais islâmicos têm atacado a Nigéria com atentados, assassinatos e sequestros para derrubar o governo e criar Estado islâmico. Foto: APBoko Haram: traduzido, nome que designa o grupo significa 'a educação ocidental é pecado'. Há temores de que estejam ligados a grupos como a Al-Qaeda. Foto: APFrente al-Nusra: a Frente de Suporte para o Povo da Síria, em tradução livre, é uma milícia islâmica criada em 2012 que atua na guerra síria. Foto: Reprodução/YoutubeFrente al-Nusra: a milícia, descrita pelos próprios rebeldes como bem estruturada, luta contra o presidente sírio, Bashar al-Assad. Foto: Wikimedia CommonsEstado Islâmico do Iraque e do Levante (EIIL): grupo jihadista visa a formar emirado islâmico  em territórios no Iraque e na Síria. Foto: APEstado Islâmico do Iraque e do Levante (EIIL): os militantes foram considerados verdadeiras ameaças regionais pelos EUA após tomarem Mosul. Foto: APAl-Shabab: grupo somali tem ligações com a Al-Qaeda e promove ataques contra o Quênia desde 2011 em resposta ao envio de tropas do país à Somália. Foto: APAl-Shabab: grupo, cujo nome significa 'A Juventude', apareceu como ala radical da extinta União das Cortes Islâmicas da Somália em 2006. Foto: ReutersEmirado do Cáucaso: os rebeldes reivindicam a criação de um Estado islâmico independente na região russa que inclui a Chechênia. Foto: Reprodução/YoutubeAl-Qaeda na Península Arábica: braço do grupo terrorista no Iêmen querem, entre outros objetivos, atacar ocidentais e derrubar a família real saudita, aliada dos EUA. Foto: Reprodução/YoutubeTaleban: grupo integra o movimento islâmico nacionalista no Paquistão e Afeganistão e visa a expulsar invasores dos EUA e da Otan. Foto: APAl-Qaeda no Magreb Islâmico: com essa nomenclatura desde 2007, grupo atua na Argélia e em parceria com terroristas de países vizinhos. Ocidentais são alvos. Foto: Reprodução/YoutubeAl-Qaeda: rede criada por Osama bin Laden nos anos 1980 objetiva acabar com a influência ocidental em países muçulmanos. Foto: Reprodução/Youtube

Drogas
O grupo Al-Shabab, na Somália, é um bom exemplo disso. Enquanto ele recebe algum financiamento limitado de fontes externas, desenvolveu um negócio de exportação de carvão altamente eficaz que gera até US$ 80 milhões por ano, segundo a ONU.

O Al-Shabab também domina outra ferramenta de financiamento – impostos sobre negócios, pessoal e de transporte. Assim como o Estado Islâmico, o grupo controla território e população, operando uma forma de quase-governo nas áreas sob seu comando – elevando impostos e oferecendo em troca alguns serviços, especialmente de segurança e de justiça.

O grupo Estado Islâmico promete serviços e fornecimento de alimentos para muçulmanos nas áreas sob seu controle.

O controle do território também permite o avanço de negócios lucrativos, como o cultivo de ópio no Afeganistão. Apesar dos mais de US$ 7 bilhões gastos na luta contra o tráfico de drogas no país, o cultivo da papoula atingiu o seu maior nível com o Talebã explorando a posição do Afeganistão como fornecedor de mais de 90% da produção mundial de ópio para ganhar até US$ 150 milhões por ano.

Mas nem todos os grupos controlam territórios onde a população pode ser taxada ou extorquida. A Al-Qaeda no Magreb Islâmico, que controla regiões inabitadas do Saara e do Sahel na África, obtém seu financiamento a partir de duas fontes principais.

Uma é o sequestro de turistas estrangeiros e trabalhadores em um comércio que, acredita-se, rendeu ao grupo perto de US$ 100 milhões em cinco anos. Outra é o controle de rotas de contrabando de drogas que são trazidas da América Latina, por barco ou avião, pela "Highway 10" – referência a uma rota que praticamente segue o 10º paralelo no Atlântico, da costa da Venezuela até a África Ocidental.

A Rede Haqqani, com base na região da fronteira entre o Afeganistão e o Paquistão, também depende de contrabando como uma das suas principais fontes de financiamento.

Sequestro
O sequestro para a exigência de resgate é cada vez mais usado por grupos terroristas. Estima-se que a Al-Qaeda na Península Arábica, baseada no Iêmen, tenha ganho US$ 20 milhões dessa forma, entre 2011 e 2013.

A ONU destaca a rentabilidade desse comércio e estima que grupos terroristas tenham arrecadado US$ 120 milhões em pagamentos de resgate entre 2004 e 2012. Só o Estado Islâmico teria arrecadado até US$ 45 milhões apenas no ano passado.

compartilhe

Tamanho do texto

notícias relacionadas