Tortura não funciona como método de interrogatório, dizem analistas

Por BBC Brasil | - Atualizada às

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Relatório sobre a CIA diz que método não rende informações sobre terrorismo; interrogadores acreditam em ação 'amigável'

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Em meio a um catálogo assustador de abusos, erros e descuidos cometidos pela CIA contra pessoas presas no início dos anos 2000, uma coisa se destaca no relatório do Comitê de Inteligência do Senado americano, divulgado na terça-feira.

Terça: Métodos de interrogatório da CIA foram brutais e ineficazes, diz Senado

AP
A prisão de Guantánamo, em Cuba, era um dos locais onde os prisioneiros eram interrogados com brutalidade

Entenda: EUA revelam métodos de tortura da CIA após atentados de 11 de Setembro

"Em nenhum momento as técnicas coercivas de interrogatório da CIA resultaram na compilação de inteligência sobre ameaças iminentes, como uma bomba-relógio hipotética", diz o relatório.

Em outras palavras, todos aqueles abusos, todas aquelas horas de waterboarding (técnica que simula afogamento), de arrastar pessoas encapuzadas e acorrentadas para cima e para baixo em corredores, privando-as de sono por dias a fio e submetendo-as a "ruído branco" (usado para criar um sensação de ausência de estímulo auditivo), não resultaram em nenhuma informação real que evitasse um ataque terrorista.

O atual diretor da CIA, John Brennan, diz que isso não é verdade. "Nossas avaliações indicam que os interrogatórios de presos nos quais as 'Técnicas melhoradas de interrogatório' foram usadas produziram inteligência que ajudou a impedir planos de ataque, capturar terroristas e salvar vidas", afirmou, em resposta ao relatório.

Mas o comitê do Senado passou cinco anos e meio analisando seis milhões de páginas de documentos. Os senadores não chegaram a suas conclusões levianamente.

Os interrogatórios brutais da CIA produziram resultados, mas eles frequentemente eram pistas falsas. Humanos, assim como os animais, fazem qualquer coisa para fazer com que a dor pare.

Incontáveis dias e dólares foram desperdiçados, além do estresse sofrido pelos prisioneiros, enquanto investigadores da CIA perseguiam pistas sem valor fornecidas a eles por pessoas desesperadas em situações extremas.

Diferentemente de alguns civis afegãos infelizes que foram parar na prisão de Guantánamo por engano ou foram vendidos para agentes americanos por intermediários sem escrúpulos, os homens que a CIA mantinha em seus “locais negros” (prisões secretas) eram, em muitos casos, terroristas perigosos e endurecidos.

Alguns de fato tinham informações importantes e, no caso de homens como Abu Zubaydah, foram treinados pela Al-Qaeda para resistir aos interrogatórios.

'Sedentos por afeto'

Havia uma maneira melhor para que o governo americano adquirisse essas informações sem correr o risco de violar leis internacionais e cometer atrocidades morais? Sim, havia.

Fale com qualquer interrogador britânico treinado e ele dirá que, a longo prazo, é a "abordagem amigável lógica" que tem os melhores resultados.

Isso não significa dar tratamento VIP aos prisioneiros. Um agente de inteligência britânico experiente, que interrogou prisioneiros de guerra iraquianos valiosos, diz que quando uma pessoa é capturada, em geral após algum tipo de luta ou tiroteio, há o inevitável choque da captura e o medo do que pode acontecer com ela.

Em geral, ela pensam no pior – lembrem-se do soldado da Marinha britânica que caiu em prantos quando ele e sua tripulação foram presos no Golfo por um barco iraniano em 2007.

"Eles estão sedentos por afeto", diz o ex-interrogador sobre os prisioneiros com quem falou. "Em algum momento eles estarão dispostos a cooperar em troca de segurança e de conforto."

Não funciona sempre, mas há muitos casos documentados de prisioneiros militares e suspeitos de terrorismo que se mostraram até aliviados de poderem "descarregar" o peso da informação, garantindo sua própria segurança e relativo conforto.

Mas essa abordagem, é claro, necessita de tempo e de paciência, e a julgar pelo relatório do comitê do Senado, a CIA designou pessoas nem um pouco apropriadas para a tarefa.

"A CIA designou indivíduos (para os interrogatórios) sem a experiência ou o treinamento relevantes", diz o documento. "A CIA também designou oficiais que tinham problemas pessoais e profissionais sérios – incluindo histórico de violência e tratamento abusivo para com outras pessoas."

Até aos dois psicólogos terceirizados faltava "qualquer experiência como interrogadores, conhecimento especializado sobre a Al-Qaeda, informações sobre contraterrorismo ou qualquer especialidade cultural ou linguística relevante".

Com tantas lanças sem ponta em sua armadura, não surpreende que o programa de interrogatórios da CIA tenha se desviado tanto de seu objetivo.

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