Saiba quem são os líderes da Al-Qaeda pós-Bin Laden

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Morte de jornalista americano no Iêmen reflete a mudança de foco geográfico das atividades da Al-Qaeda

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A fracassada tentativa de resgate de um jornalista americano por forças especiais dos Estados Unidos no fim de semana trouxe à tona mais uma vez as atividades da organização extremista islâmica Al-Qaeda.

A ação americana, realizada no sul do Iêmen, resultou na morte do jornalista, Luke Somers, e de um professor sul-africano, Pierre Korkie, ambos mantidos reféns pela Al-Qaeda na Península Árabe (AQAP, na sigla em inglês), classificada pelos EUA como um dos ramos mais perigosos da Al-Qaeda.

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O grupo é baseado no leste e no sul do Iêmen e se fortaleceu após a queda do presidente Ali Abdullah Saleh, em 2011.

A força do grupo também reflete a mudança de foco geográfico das atividades da Al-Qaeda - hoje suas atividades são voltadas menos para o Afeganistão e Paquistão, e mais para o mundo árabe.

Ayman al-Zawahiri. Foto: BBCNasser Abdul Karim al-Wuhayshi. Foto: BBCKhalid al-Habib. Foto: BBCSaif al-Adel. Foto: BBCAdam Gadahn. Foto: BBCAbou Mossab Abdelwadoud. Foto: BBC

Essa tem sido uma tendência verificada após a morte de Osama Bin-Laden, em 2011, e de vários outros membros importantes de sua cadeia de comando.

Mas quem são seus principais líderes hoje?

Veja abaixo, uma relação com o perfil das figuras tidas como as mais importantes da organização hoje:

Ayman al-Zawahiri

Um cirurgião de olhos que ajudou a fundar o grupo militante egípcio Jihad Islâmico, Ayman al-Zawahiri foi nomeado sucessor de Bin Laden após a morte dele em 2011.

Zawahiri já era o chefe ideológico do grupo e, segundo alguns analistas, teve um papel de articulação nos atentados de 11 de Setembro de 2001.

Ele era o segundo homem mais procurado por terrorismo nos Estados Unidos, ficando atrás apenas de Bin Laden em uma lista publicada em 2001. A recompensa por sua captura ou morte chegava a US$ 25 milhões.

Uma de suas mulheres e dois de seus filhos foram mortos em um ataque aéreo no final de 2001. Ele passou a se esconder depois que a coalizão liderada pelos Estados Unidos derrubou o regime do Talebã, no Afeganistão.

Analistas dizem acreditar que ele esteja escondido na região de fronteira entre o Afeganistão e o Paquistão.

Em janeiro de 2006, os Estados Unidos lançaram um ataque aéreo contra a cidade paquistanesa de Damadola, na fronteira com o Afeganistão, onde se acreditava estar Zawahiri. Ao menos 18 moradores morreram, incluindo quatro crianças.

Fontes americanas chegaram a dizer que ele havia morrido, mas dias depois ele apareceu em um novo vídeo vivo e sem ferimentos.

Zawahiri é um dos porta-vozes mais proeminentes da Al-Qaeda, tendo aparecido em dezenas de vídeos e gravado diversas mensagens de áudio desde 2003. A mais recente foi em setembro deste ano - um chamado para o ressurgimento islâmico na Índia.

Ele foi indiciado nos Estados Unidos por seu papel nos atentados contra embaixadas americanas na África, em 1998, e sentenciado à morte no Egito por sua participação na Jihad Islâmica nos anos 1990.

Em junho de 2013, Zawahiri solicitou que o grupo islâmico radical autointitulado Estado Islâmico deixasse a Síria e se focasse no Iraque. Em fevereiro de 2014, a Al-Qaeda cortou os laços com o movimento.

Nasser Abdul Karim al-Wuhayshi

Ex-secretário privado de Bin Laden, Wuhayshi é o líder da Al-Qaeda na Península Árabe (AQAP, na sigla em inglês), que foi formada em 2009 a partir da união das ramificações da rede no Iêmen e na Arábia Saudita.

Uma autoridade do governo americano disse à rede de TV CNN que a inteligência americana acredita que, recentemente, Wuhuayshi teria sido nomeado o segundo da hierarquia da rede. Wuhayshi teria sido nomeado por Zawahiri para ser gerente-geral da organização, na medida em que esta migra seu foco de atuação do Afeganistão e do Paquistão para o mundo árabe. Ele teria 36 anos.

Wuhayshi substituiu "o Líbio", Abu Yahya al-Libi, morto em um ataque de drones no noroeste do Paquistão em junho de 2012.

Membros do alto escalão dos órgãos de contraterrorismo americano dizem que a AQAP é "a franquia mais ativa" da Al-Qaeda fora da área do Paquistão e do Afeganistão.

Wuhaysi vem da região de al-Baida, no sul do Iêmen. Ele passou boa parte da vida em instituições religiosas antes de viajar para o Afeganistão nos anos de 1990.

Em dezembro de 2001, participou da batalha de Tora Bora e escapou do país pela fronteira com o Irã – onde foi preso e depois extraditado para o Iêmen.

Em fevereiro de 2006, Wuhaysi e outros 22 prisioneiros ligados à Al-Qaeda conseguiram escapar de uma prisão em Sanaa. Entre eles também estava Jamal al-Badawi, o suposto organizador do ataque ao navio de guerra USS Cole, e Qasim al-Raumi, comandante militar do AQAP.

Ao lado de Raumi, Wuhayshi supervisionou a formação da Al-Qaeda no Iêmen, a partir de recrutas que retornavam do Iraque e do Afeganistão.

Em 2008, eles anunciaram a criação da AQAP e, já no ano seguinte, começaram a operar fora do Iêmen – realizando um atentado contra o chefe da segurança do príncipe Mohammed bin Nayef, que sobreviveu.

O grupo então arquitetou um atentando contra um avião de passageiros que voava para Detroit em 25 de dezembro de 2009. Um suspeito que levava uma bomba no corpo foi preso e disse ter sido treinado pela AQAP.

A organização participou de outras duas tentativas de ataques a aviões americanos que acabaram frustradas.

No Iêmen, o grupo de Wuhayshi se aproveitou do tumulto político da Primavera Árabe, em 2011, para capturar grandes parcelas do território da nação. No ano seguinte, uma ofensiva de forças do governo retomou boa parte da área.

Nos últimos meses, a organização tem realizado uma série de atentados à bomba contra forças de segurança locais, em retaliação a ataques de drones dos Estados Unidos contra a região, em 2011 e 2012.

Em seu país natal, o grupo de Wuhayshi capitalizou em cima da turbulência política do Iêmen para conquistar grandes regiões do território em 2011, mas foi expulso de muitas áreas em uma ofensiva do Exército em 2012.

Nos últimos meses, o grupo foi responsabilizado por um número crescente de atentados que tinham como alvo os serviços de segurança do Iêmen - como resposta a ataques de drones dos EUA, que, segundo analistas, quase triplicaram no Iêmen entre 2011 e 2012.

Em 10 de setembro de 2012, as autoridades do Iêmen disseram que o vice de Wuhayshi, o saudita Said al-Shihri, tinha sido morto em um ataque aéreo em Hadramawt, no sul do país. O grupo prometeu vingar esse e outros assassinatos de figuras de topo da AQAP.

Khalid al-Habib

Khalid al-Habib, que acredita-se ser egípcio ou marroquino, foi identificado em um vídeo novembro de 2005 como o comandante de campo da Al-Qaeda no sudeste do Afeganistão, enquanto Abd al-Hadi al-Iraqi foi nomeado comandante no Sudoeste.

No início de 2006, as autoridades paquistanesas informaram que Habib havia morrido em um ataque aéreo dos EUA perto da fronteira com o Afeganistão, mas depois as autoridades de segurança paquistanesas desmentiram a afirmação.

Habib parece ter assumido o comando geral no Afeganiastão após a captura de al-Iraqi, em 2006. Ele foi descrito como "comandante militar" da Al-Qaeda em julho de 2008.

Autoridades militares dos EUA dizem que ele supervisiona as operações "internas" da Al-Qaeda no Afeganistão e no norte do Paquistão.

Habib pode estar atuando com uma identidade falsa, de acordo com alguns analistas. Acredita-se que um dos seus nomes de guerra seja Khalid al-Harbi.

Saif al-Adel

Egípcio com idade entre 40 e 50 anos, Saif al-Adel é o nome de guerra de um ex-coronel do exército egípcio, Muhamad Ibrahim Makkawi. Ele viajou para o Afeganistão na década de 1980 para lutar com os mujahideen contra as forças soviéticas.

Adel já foi chefe de segurança de Osama Bin Laden, e assumiu muitas das funções do comandante militar Mohammed Atef depois da morte deste em um ataque aéreo dos EUA em novembro de 2001.

Suspeita-se que ele tenha integrado o grupo que assassinou o ex-presidente egípcio Anwar Sadat, em 1981.

Em 1987, o Egito acusou Adel de tentar estabelecer um braço militar do grupo islâmico militante al-Jihad e de tentar derrubar o governo.

Acredita-se que ele tivesse envolvimento na organização dos ataques às embaixadas dos EUA na África Oriental em 1998, treinando os combatentes somalis que mataram 18 soldados americanos em Mogadíscio, em 1993, e instruindo alguns dos sequestradores de aviões do 11 setembro de 2001.

Também acredita-se que, após a invasão do Afeganistão em 2001, Adel tenha fugido para o Irã com Suleiman Abu Ghaith e Saad Bin Laden, um dos filhos do ex-líder da Al-Qaeda. Eles teriam sido então mantidos sob prisão domiciliar pela Guarda Revolucionária Islâmica do Irã (IRGC). O Irã nunca admitiu publicamente que eles estivessem em seu território.

Abu Ghaith foi preso na Jordânia e extraditado para os EUA em março de 2013.

Relatórios recentes dizem que Adel pode ter sido solto e ido para o norte do Paquistão com Saad Bin Laden - mas um relatório de 2011 sugeriu que ele havia retornado ao Irã.

Os EUA ofereceram até US$ 5 milhões por informações sobre seu paradeiro.

Mustafa Hamid

Mustafa Hamid, o sogro de Saif al-Adel, serviu como instrutor de tática em um acampamento da Al-Qaeda perto de Jalalabad, no Afeganistão, e seria o elo entre o grupo e o governo do Irã, de acordo com os EUA.

Afirma-se que Hamid, após a queda do regime talebã, tivesse negociado a transferência segura de vários altos membros da Al-Qaeda e suas famílias para o Irã. Em meados de 2003, Hamid foi preso pelas autoridades iranianas, mas um relatório diz que ele foi solto em 2011 e retornou ao Egito após a revolução popular que derrubou o presidente Hosni Mubarak.

Matiur Rehman

Matiur Rehman é um militante paquistanês que foi identificado como chefe de planejamento da Al-Qaeda. Ele é tido como o arquiteto do plano frustrado de "bomba líquida" para explodir aviões de passageiros sobre o Atlântico em 2006.

Ele também foi identificado pela polícia paquistanesa como um dos envolvidos no sequestro, em 2002, do repórter do Wall Street Journal Daniel Pearl, que foi assassinado. A última informação que se tem dele é de que estava escondido no Paquistão.

Abu Khalil al-Madani

Pouco se sabe sobre Abu Khalil al-Madani, que foi identificado como membro do conselho Shura da Al-Qaeda em um vídeo de julho de 2008. Seu nome sugere que tenha origem árabe.

Adam Gadahn

Adam Gadahn, cidadão americano que cresceu na Califórnia, surgiu como um propagandista de alto perfil para a Al-Qaeda, aparecendo em uma série de vídeos.

Depois de se converter ao Islã quando adolescente, mudou-se em 1998 para o Paquistão e se casou com uma refugiada afegã. Gadahn faz traduções para a Al-Qaeda e passou a ser associado ao comandante capturado da Al-Qaeda Abu Zubaydah. Acredita-se que ele tenha feito treinamento em um acampamento de militantes no Afeganistão.

Em 2004, o Departamento de Justiça americano citou-o como um dos sete agentes da Al-Qaeda que planejam ataques iminentes contra os EUA. Pouco tempo depois, ele apareceu em um vídeo em nome da Al-Qaeda, se identificando como "Azzam, o americano".

Em setembro de 2006, ele apareceu em um vídeo com Ayman al-Zawahiri incitando seus compatriotas americanos a se converter ao Islã e apoiar a Al-Qaeda.

No mês seguinte, Gadahn tornou-se o primeiro cidadão americano a ser acusado de traição desde a Segunda Guerra Mundial. A acusação disse que ele "sabidamente aderiu a um inimigo dos Estados Unidos...com intenção de trair os Estados Unidos". Uma recompensa de US$ 1 milhão foi oferecida por ele.

Em 2011, ele apareceu em vários outros vídeos se regojizando das informações secretas sobre interesses globais dos EUA reveladas pelo Wikileaks, de acordo com os promotores no julgamento do soldado Bradley Manning.

Ele também apareceu em vários outros vídeos incitando muçulmanos no Ocidente a realizar ataques.

Analistas dizem que Gadahn não faz parte da liderança sênior da Al-Qaeda e não possui qualquer importância operacional ou ideológico.

Abou Mossab Abdelwadoud

Ex-estudante universitário de Ciência e notório fabricante de bombas, Abdelwadoud é o líder da Al-Qaeda no Magrebe Islâmico (AQMI).

Ele tornou-se líder da organização militante islamista argelina Grupo Salafista para a Pregação e Combate (GSPC), em meados de 2004, sucedendo Nabil Sahraoui, morto em uma grande operação do Exército.

Após deixar a universidade, em 1995, Abdelwadoud juntou-se ao Grupo Islamita Armado (GIA), precursor do GSPC que compartilhou seu objetivo de estabelecer um Estado Islâmico na Argélia. Acredita-se que ele tenha se tornado membro do GSPC em 1998.

Abdelwadoud, cujo nome verdadeiro é Abdelmalek Droukdel, foi um dos signatários de uma declaração, em 2003, anunciando uma aliança com a Al-Qaeda.

Em setembro de 2006, o GSPC disse que havia se unido à Al-Qaeda e, em janeiro de 2007, anunciou que havia mudado seu nome para "Al-Qaeda na Terra do Maghreb Islâmico" para refletir a sua fidelidade. Abdelwadoud disse que consultou Ayman al-Zawahiri sobre os planos do grupo.

Três meses mais tarde, 33 pessoas foram mortas em ataques a bomba contra prédios oficiais em Argel. Abdelwadoud supostamente supervisionou a operação. Em dezembro daquele ano, dois carros-bomba mataram pelo menos 37 pessoas na capital.

As ambições de liderança do grupo aumentaram e, posteriormente, foram realizados vários ataques em todo o Norte da África. O grupo também declarou sua intenção de atacar alvos ocidentais e enviar jihadistas para o Iraque. Cidadãos ocidentais também foram sequestrados e mantidos como reféns; alguns foram mortos.

Em novembro de 2012, Abdelwadoud apareceu em um vídeo elogiando seus combatentes e aliados jihadistas como "salvadores" da unidade do Mali enquanto consolidavam seu domínio sobre o norte do país. Seu avanço territorial só foi interrompido pela intervenção de forças francesas.

 


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