Refém morto no Iêmen decidiu ser jornalista durante a Primavera Árabe

Por BBC |

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O refém americano Luke Somers havia viajado ao país como professor, mas se transformou em jornalista ao testemunhar os fatos relacionados à Primavera Árabe em Sanaa

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O refém americano Luke Somers - um dos mortos durante uma ação de resgate de forças especiais americanas no Iêmen - havia viajado ao país como professor, mas se transformou em jornalista ao testemunhar os fatos relacionados à Primavera Árabe em Sanaa.

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Somers viajou ao país como professor, mas se transformou em jornalista ao testemunhar os fatos relacionados à Primavera Árabe

Ele morreu neste sábado (6) junto com o também refém Pierre Korkie, da África do Sul, quando comandos (militares das forças de elite americanas) invadiram a vila onde eles eram mantidos em Shabwa, no sul do país, por militantes de um ramo da al Qaeda no Iêmen. Ambos teriam sido baleados por extremistas durante a ação.

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Somers havia se mudado para Sanaa em fevereiro de 2011 quando ainda era um professor – sem nenhuma expectativa de que sua carreira se voltasse para o jornalismo. Mas, quando a Primavera Árabe chegou à região, os tumultos e confrontos convulsionaram a capital do Iêmen. Somers, que tinha 33 anos, começou então a documentar os eventos à sua volta com uma câmera.

Ele nasceu na Grã-Bretanha, mas era cidadão americano. Estava apenas a duas semanas em Sanaa quando fotografou um jovem manifestante sendo levado para um hospital por seus amigos. Na época, ele era um fotógrafo amador e contou à BBC como havia conseguido a imagem.

"Eu estava parado em frente a um acampamento de manifestantes contrários ao governo quando as orações da tarde estavam acontecendo. Um tiroteio começou nas proximidades e todos ficaram em silêncio. Logo um jovem ferido passou carregado por homens agitados", disse Somers.

Ele logo começou a trabalhar para publicações locais, como o Yemen Times e o National Yemen. Suas fotos e reportagens também eram publicadas por órgãos de mídia internacionais. Somers também participou da cobertura da BBC sobre a evolução rápida dos eventos no país, mandando fotos e também relatos de testemunhas dos eventos.

Muito sangue foi derramado no conflito, e Somers descreveu como o cheiro da morte ficava nas roupas mesmo horas após ele ter deixado os hospitais improvisados onde tirava boa parte de suas fotos.

Em agosto de 2013, um mês antes de ser sequestrado em uma rua de Sanaa, ele disse à BBC: "Eu ainda estou no Iêmen, mas penso em partir logo".

Venda de refém

Segundo o correspondente de segurança da BBC, Frank Garner, autoridades americanas dizem acreditar que Somers foi sequestrado por combatentes locais e depois vendido à AQAP (sigla da al Qaeda na Península Árabe) – uma das mais perigosas ramificações da rede extremista internacional, segundo Washington.

A AQAP se baseou no leste do Iêmen e obteve muito apoio especialmente após a revolução que derrubou o presidente Ali Abdullah Saleh em 2011. O grupo conseguiu juntar milhares de dólares sequestrando reféns e exigindo o pagamento de resgates. Mas os governos britânico e americano se recusam a pagar, diminuindo as chances de negociação.

Analistas dizem que o grupo pode agora estar tentando competir com o grupo autointitulado "Estado Islâmico", que opera na Síria e no Iraque e ganhou notoriedade internacional devido à crueldade dos assassinatos de reféns exibida em vídeos divulgados na internet.

Ataque

Autoridades americanas dizem que os reféns foram baleados pelos seus sequestradores no momento do resgate na região sulista de Shabwa. Comandos americanos invadiram a vila onde eles eram mantidos em cativeiro com apoio aéreo de aviões não tripulados. Os militares teriam encontrado os reféns já baleados.

Somers teria sido levado ainda com vida para um navio americano, mas morreu devido à gravidade dos ferimentos – segundo disse uma autoridade americana ao jornal New York Times.

O presidente americano Barack Obama classificou as mortes dos reféns como "bárbaras". Ele afirmou ter dado a ordem para que as forças especiais tentassem resgatar Somers e outros reféns mantidos no mesmo local porque todas as informações de inteligência "indicavam que a vida de Luke estava em perigo iminente".

Uma primeira tentativa de resgate de Somers havia falhado no mês passado. Diversos militantes da AQAP teriam sido mortos no ataque de sábado.

"Terroristas que procuram machucar nossos cidadãos vão sentir o braço longo da Justiça americana", disse Obama.

Polêmica

Enquanto isso, ativistas de uma organização não governamental da África do Sul criticaram a ação americana devido à informações de que o professor Korkie, de 56 anos, seria libertado no domingo (7), pois as negociações teriam evoluído, no seu caso.

Ele havia sido sequestrado no ano passado na segunda maior cidade do país, Taiz. Sua mulher Yolande também foi capturada, mas acabou sendo libertada sem o pagamento de resgate. O casal estava há quatro anos no Iêmen trabalhando como voluntários em um hospital.

"Nós recebemos com tristeza a notícia de que Pierre foi morto em uma tentativa de Forças Especiais Americanas, nas primeiras horas dessa manhã, de libertar reféns no Iêmen", afirmou em comunicado a organização Gift of the Givers.

"A devastação psicológica e emocional de Yolande e sua família será agravada pelo conhecimento de que Pierre deveria ser libertado pela al Qaeda amanhã". A organização e amigos do casal haviam iniciado uma campanha para arregadar os US$ 3 milhões exigidos de resgate.

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