Ativistas mascarados entraram em confronto com policiais da Cidade do México; dois fotógrafos foram agredidos pela polícia

Uma enorme marcha que começou de forma pacífica com milhares exigindo o retorno dos 43 alunos desaparecidos terminou em violência quando um pequeno grupo de manifestantes mascarados enfrentaram a polícia na principal praça da Cidade do México.

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Ativista grita ao ser cercada por policiais enquanto observadores de direitos humanos tentam alcançá-la durante passeata perto de aeroporto da Cidade do México (20/11)
AP
Ativista grita ao ser cercada por policiais enquanto observadores de direitos humanos tentam alcançá-la durante passeata perto de aeroporto da Cidade do México (20/11)


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A marcha exigia notícias sobre o paradeiro dos alunos de uma universidade de professores rurais na quinta-feira (20), dia em que se comemora a Revolução do México (1910-1917), mas os mexicanos não estavam em clima de comemorações. Muitos dos manifestantes levavam bandeiras de "luto" na marcha, com as cores nacionais - vermelhas e verdes - substituídas por listras pretas.

"O país inteiro está indignado", disse a dona de casa Nora Jaime. "Não só eles", acrescentou, referindo-se aos 43 jovens que não foram mais vistos desde ataque da polícia em uma cidade do sul do país, no dia 26 de setembro "Há milhares de desaparecidos, milhares de sepulturas clandestinas, milhares de mães que não sabem onde estão seus filhos."

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A manifestação na Cidade do México era pacífica, em contraste com os recentes protestos que acabaram com um prédio do governo de Guerrero incendiado. Sempre que manifestantes mascarados tentavam se juntar a marcha, os manifestantes gritavam "Sem violência!" e "Tirem as máscaras!".

Os manifestantes convergiram na praça principal da cidade, onde as famílias dos estudantes desaparecidos estavam em uma plataforma em frente ao Palácio Nacional segurando cartazes com imagens dos rostos de seus parentes. Em meio a cânticos para o presidente Enrique Peña Nieto renunciar, os membros das famílias repetiram não acreditar na afirmação do governo de que os jovens foram mortos por uma gangue de drogas.

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"Não estamos cansados", disse um homem a partir do palanque. "Pelo contrário, estamos zangados com este governo mexicano e toda a sua estrutura, porque eles não fazem nada a não ser enganar as famílias."

Depois de a maioria dos manifestantes deixar a praça, um pequeno grupo de jovens mascarados começou a enfrentar a polícia com pedras e paus. Os policiais, então, responderam com extintores de incêndio, forçando-os a deixarem o local. Durante o confronto, ao menos dois fotógrafos de notícias, incluindo um da The Associated Press, foram feridos pela polícia. Os oficiais ainda levaram duas câmeras e algumas lentes do fotógrafo da AP.

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No início do dia, cerca de 200 manifestantes jovens, alguns com os rostos cobertos por máscaras ou bandanas, entraram em confronto com a polícia quando tentavam bloquear uma via expressa para o aeroporto internacional. Os ativistas atiraram pedras, fogos de artifício e bombas de gasolina. Alguns passageiros tiveram de caminhar até o terminal, mas os voos não foram interrompidos e vias expressas foram reabertas.

Muitos civis, indignados com os desaparecimentos dos alunos, acabaram se juntandoo ao ato apesar do tempo frio e alguma chuva leve. Maria Antonieta Lugo fez parte de um grupo de donas de casa "porque temos filhos da mesma idade" e "Isso pode acontecer com nossos filhos também", disse ela.

Maria Teresa Perez levantou um cartaz com uma foto de seu filho, Jesus Horta Perez, de 45 anos, sequestrado por homens armados em uma loja no subúrbio da Cidade do México em 2009 e nunca mais foi visto novamente.

"Eles estão gritando pelos cerca de 43 desaparecidos, mas também pelos outros milhares de desaparecidos, porque além destes 43 anos, 33 mil sumiram", disse ela.

O México apresenta oficialmente 22.322 desaparecidas desde o início da guerra contra as drogas do país, em 2006. E a busca pelos alunos desaparecidos acabou evidenciando outros crimes, quando valas comuns não relacionadas ao crime foram descobertas.

Os 43 alunos de uma faculdade rural conhecida como Ayotzinapa desapareceram após seguirem para a cidade de Iguala, em Guerrero, a fim de sequestrar ônibus. A polícia de Iguala interceptou o grupo por ordem do prefeito e os entregou ao grupo criminoso Guerreros Unidos, uma quadrilha com laços com o político, de acordo com promotores. Segundo os promotores, há evidências de que membros da gangue mataram os estudantes e incinerarem seus restos mortais.

É a ligação entre o governo local e a quadrilha de traficantes que enoja muitos mexicanos.

"Eu acho que a razão pela qual as pessoas estão aqui hoje não é apenas por Ayotzinapa", disse um manifestante, Alejandro Gonzalez, que estudou design industrial em Pachuca. "Eu acho que hoje, mais do que nunca, as pessoas estão percebendo as estruturas políticas podres e inúteis do país."

*Com AP

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