Morreria pela Ucrânia, diz ativista após deixar Brasil para lutar com pró-russos

Por Amanda Campos , iG São Paulo |

compartilhe

Tamanho do texto

Ex-policial militar, Rafael Lusvarghi foi preso durante protestos anti-Copa em SP; 'É uma honra para mim', afirmou sobre a luta

Reprodução/Facebook
Rafael Lusvarghi deixou de lado sua vida como ativista no Brasil para se tornar militante na Ucrânia

Os primeiros raios de sol cortam o céu da Ucrânia quando os grupos rebeldes no leste do país iniciam sua rotina de guerra.

Chanceler: Rússia reconhecerá resultado das eleições na Ucrânia 

Para eles, o dia começa antes das 5h (horário local), com café da manhã, e só termina no início da noite após uma rotina exaustiva.

Em áreas ocupadas pelos grupos pró-russos em cidades próximas a Donetsk - conhecida por ser o reduto dos separatistas - o dia é repleto de treinamentos e adrenalina, combinação que atraiu o brasileiro Rafael Lusvarghi, 29, a se juntar aos militantes ucranianos.

Dia 27: Presidente da Ucrânia conquista bancada aliada pró-Ocidente; Rússia preocupa

"É uma grande honra para mim poder servir a um povo e terra que amo em uma causa justa. A vida aqui pra mim como militar é muito difícil, mas gratificante. Um tipo de sacrifício que nem chamo de sacrifício, pois faço com alegria", explicou ele durante conversa com o iG.

Em conversa por meio de uma rede social, o ex-policial militar explicou que viveu na Rússia quando era mais jovem e até tentou se alistar nas forças armadas do país para conseguir cidadania. Mas a aproximação com os ideais do povo liderado por Vladimir Putin só aconteceu no dia 20 de setembro, quando ele desembarcou na Ucrânia após sair da prisão em São Paulo.

Testemunha: Explosões são ouvidas em Donetsk após eleição na Ucrânia

O militante foi detido no dia 12 de junho enquanto participava das manifestações contra a realização da Copa do Mundo em São Paulo. Ele ficou 45 dias preso sob acusação de atos violentos. 

"Esse processo ainda está acontecendo, mas não pretendo voltar ao Brasil. Não estarei presente em fevereiro [em uma audiência] e estou ciente que posso ser procurado pela polícia por causa disso", explicou.

"Sem falar que o risco de morte aqui é muito alto. Além disso, se continuar vivo, pretendo ajudar a reconstruir a Ucrânia", acrescentou.

Questionado sobre como é ser considerado um separatista, o brasileiro disse que tem orgulho de suas ações e ainda corrigiu a reportagem, afirmando que "separatista" é o governo de Petro Poroshenko.

Dia 24: Putin culpa Ocidente por crise na Ucrânia e nega formação de império

"Não gosto do termo porque 'separatistas' são, na verdade, os membros do governo que tomaram Kiev e quiseram romper com a Comunidade de Estados Independentes. O cessar fogo nem existe na pratica", acusou ele.

Rafael Lusvarghi e outros militantes no leste da Ucrânia. Foto: Reprodução/FacebookAo lado de outro combatente, Rafael Lusvarghi com bandeira brasileira em um campo do leste ucraniano. Foto: Reprodução/FacebookRafael Lusvarghi deixou de lado sua vida como ativista no Brasil para se tornar militante na Ucrânia. Foto: Reprodução/FacebookRafael com um cavalo em meio a neve. Foto: Reprodução/FacebookLusvarghi com roupa militar durante uma ação na Ucrânia. Foto: Reprodução/FacebookApós ter sido preso nas manifestações de SP, Rafael exibe cicatriz que fez em estúdio de tatuagem. Foto: Reprodução/FacebookPoliciais prendem Rafael Lusvarghi durante ato contrário a realização da Copa do Mundo em São Paulo, em meados de junho. Foto: Reprodução/FacebookPoliciais tentam conter Rafael durante protesto em São Paulo. Foto: Reprodução/Facebook

Otan: Rússia ainda tem soldados na Ucrânia

Em conversa com o The Guardian em setembro, moradores de Komsomolske descreveram o estado dos soldados que voltam das batalhas como "Ensanguentados, sujos e com um forte odor". Na prática, porém, esses grupos são considerados sortudos. Segundo a ONU, os confrontos já deixaram mais de 3,7 mil mortos e forçou mais de 824 mil ucranianos a fugirem das suas casas, segundo dados do Acnur, Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados.

Há ainda 430 mil deslocados no interior do país, enquanto 387 mil fugiram para a Rússia, 6,6 mil pediram asilo na União Europeia e 581 na Bielorrússia. No dia 2 de setembro, o Acnur indicou a existência de mais de 500 mil deslocados por causa do conflito.

Dia 22: Ucrânia tem de encontrar meio de pagar pelo gás em uma semana, diz Rússia

Para o brasileiro, esse tipo de dificuldade é um incentivo para manter sua luta pela secessão das cidades do leste. "A guerra nunca me assustou. Não tenho medo da morte. Ver o que a guerra causa, ainda mais aqui, me entristece. Mas ao mesmo tempo fortalece minha determinação de ir até Kiev e acabar logo com isso", afirmou  Lusvarghi.

Sem saber quando voltará ao Brasil, o militante diz sentir saudade de coisas simples, como um bom churrasco e a companhia da família.

"Amo minha terra. Minha família e amigos são coisas que valorizo demais. Mas aqui [Ucrânia] a vida é melhor. Fora dos combates, a violência não existe", disse. "Claro que sinto saudades da minha mãe, dos cavalos (era da cavalaria da P.M.) e de caldo de cana também [risos]", brincou.

Vídeo: Menina escapa por um triz de placa de vidro na Ucrânia

"Ele sabe o que faz"

A decisão de Lusvarghi em lutar na Ucrânia foi apoiada por sua família. Para o irmão do militante Lucas Marques Lusvarghi, o ex-policial já participou de operações militares em outros países e transmite segurança aos mais próximos.

Saiba mais: Leia todas as notícias sobre a crise na Ucrânia

"Ele tem treinamento adequado para isso e sabe o que está fazendo", afirmou Lucas, funcionário público em uma cidade do interior de São Paulo. "Acredito que ele está mais seguro lutando na Ucrânia do que militando aqui no Brasil, principalmente se considerarmos a perseguição política que estava sofrendo aqui", disse.

Leia tudo sobre: russia na ucraniarussiaucraniarafael lusvarghilusvarghispigspdeicblack bloc

compartilhe

Tamanho do texto

notícias relacionadas