Há quase dois meses a cidade curda está sitiada por militantes; repórter Ersin Caksu é um dos poucos a ter acesso a esse local

BBC

Há quase dois meses a cidade curda de Kobani, no norte da Síria, está sitiada por militantes do grupo autodenominado Estado Islâmico.

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Refugiados de Kobani tentam a sorte no lado turco da fronteira
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Refugiados de Kobani tentam a sorte no lado turco da fronteira


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Ersin Caksu, repórter do jornal pró-curdos Ozgur Gundem, é um dos poucos jornalistas a conseguir entrar na cidade. Ele enviou um depoimento à BBC sobre a rotina de combates e o espírito de solidariedade que mantém a cidade funcionando:

"Cheguei em Kobani em 19 de setembro, quatro dias depois de os ataques terem começado. A maioria dos civis que vi nos primeiros dias já desapareceram. Muitos fugiram à Turquia, mas outros, infelizmente, morreram nos confrontos.

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Cerca de 400 mil pessoas moravam em Kobani e nas 360 aldeias ao seu redor. Agora, apenas 4 mil delas vivem em áreas relativamente seguras da cidade. Há também 5 mil civis em Til Seir, aldeia localizada em uma área minada entre as cercas de arame farpado da fronteira turca e uma linha de trem.

Quando o Estado Islâmico começou a atacar, as pessoas agarraram o que conseguiram e fugiram para essa área. Algumas famílias também fugiram para Suruc, no lado turco da fronteira. O único contato entre Kobani e Suruc é via telefone celular.

As pessoas se preocupam com seus conhecidos dos dois lados da fronteira. Enquanto os civis em Kobani estão envolvidos na luta contra o 'Estado Islâmico', seus parentes em Suruc estão tentando sobreviver como refugiados.

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Ruínas e fome

Como o cemitério virou campo de batalha, mortos estão sendo enterrados em outros lugares. O leste de Kobani está em ruínas, em decorrência dos duros combates, de morteiros, ataques suicidas do 'Estado Islâmico' e bombardeios aéreos das forças de coalizão.

Antes da guerra, o leste era a região mais próspera da cidade. E mesmo os bairros do sul estão devastados, mesmo que em menor grau.

Jornalista mostra áreas de Kobani
Reprodução/BBC
Jornalista mostra áreas de Kobani

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Confrontos de rua persistem, e nenhuma das casas sequer tem portas. Todas estão conectadas por buracos em suas paredes. É possível passar de uma casa a outra por esses buracos e acabar parando em uma parte diferente da cidade, quatro ou cinco ruas adiante. E, em todas as ruas, há carros crivados de bala e destruídos.

Desde que o combate começou, as ruas deixaram de ser limpadas, e a cidade foi invadida por moscas. Agora que o clima está esfriando, o cheiro ruim está menos intenso.

A fome e a falta d'água tornam a situação desesperadora para cães de rua e animais de estimação abandonados.

A maioria dos civis que permaneceram aqui são idosos ou mulheres com crianças pequenas. Ainda que não estejam autorizados a ir a frentes de combate, alguns desafiam essa proibição. Zelil Osman, 67, está combatendo ao lado dos dois filhos.

"Enquanto os mais jovens estão morrendo, você quer que eu tenha medo da morte?", ele me perguntou. Sobrevivência de muitas pessoas depende da ajuda de vizinhos e parentes

À noite, os civis só saem de casa em casos de emergência. Se alguém fica doente, liga para as autoridades locais, que enviam um carro com dois combatentes da Unidades de Proteção Popular para buscar o paciente.

Solidariedade

Cidade está sitiada há quase dois meses, alvo de duros ataques
AFP
Cidade está sitiada há quase dois meses, alvo de duros ataques

Quando a cidade é alvejada por um morteiro do 'Estado Islâmico' ou há outra ameaça, é declarado um breve estado de emergência, e os combatentes curdos levam os civis para abrigos.

Em meio à guerra, Kobani está imbuída de um forte espírito solidário. É fácil se deslocar pela cidade durante o dia, simplesmente porque o primeiro veículo que passar por você vai te oferecer carona.

Talvez a solidariedade ajude a explicar por que Kobani tem resistido por tanto tempo. Poucas pessoas ainda moram em suas próprias casas. Quando necessário, residências vazias são transformadas em refúgios. E quem se mantém em casa compartilha seus poucos mantimentos - queijo, pickles, geleias e vegetais secos que haviam sido estocados para o inverno.

Quando alguém precisa de um carro, por exemplo, os combatentes curdos destrancam uma garagem, registram o nome e a placa do dono original do carro (para que ele seja compensado) e permitem o uso coletivo do veículo.

Não há mais atividade comercial na cidade. O único comércio ainda aberto é uma padaria, que distribui seus pães gratuitamente. Muitos jovens estão combatendo militantes islâmicos

Outros alimentos, em geral enlatados que estavam armazenados ou chegaram via ajuda humanitária, são distribuídos em determinados dias da semana, com o máximo de igualdade possível.

A água é fornecida por caminhões-pipa. E a administração local também distribui farinha nas casas uma vez a cada três dias.

Civis ajudam consertando veículos, armas e geradores, em uma cidade que está sem luz elétrica há 18 meses. Voluntários também auxiliam médicos no tratamento de feridos, carregam munição às frentes de combate, cozinham aos combatentes e consertam suas roupas.

Inverno

À medida que o inverno se aproxima, cresce a incidência de doenças, e a higiene se tornou um desafio. Há apenas cinco médicos na cidade, e ante a aguda falta de recursos e equipamento, o máximo que eles podem fazer é cobrir as feridas. Cidade está sitiada há quase dois meses, alvo de duros ataques

Os três hospitais de Kobani foram danificados pelos bombardeios, e os médicos têm de trabalhar em um pequeno edifício de dois cômodos.

Assim, os doentes evitam recorrer a eles. "(Os recursos) não devem ser desperdiçados conosco", diz uma idosa. "Nossos jovens estão lutando e sendo feridos. Os suprimentos médicos devem ser usados neles."

E como o cemitério local virou um campo de batalha, os mortos de Kobani estão sendo enterrados sem cerimônia em outra área da cidade.

Uma mulher chamada Xatun me disse, após o enterro de uma parente - uma jovem combatente -, que não há tempo para luto no momento.

"Não estamos chorando agora. Quando Kobani estiver livre, chorarei duas vezes - (lágrimas) de tristeza pelos jovens que enterramos e de alegria, porque seu sacrifício não terá sido à toa."

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