Doutrinamento de filho de brasileira no Estado Islâmico segue lógica de seita

Por BBC Brasil | - Atualizada às

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Para especialistas, organização religiosa Sharia4Belgium define relação de confiança e oferece 'segunda' família para adeptos

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A rápida radicalização de Brian De Mulder, o belga de origem brasileira que combate na Síria ao lado do Estado Islâmico, apresenta características de doutrinamento de seitas por parte do grupo radical islamista Sharia4Belgium, afirmam especialistas ouvidos pela BBC Brasil.

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AP
Como Brian, milhares de jovens ocidentais engrossaram as fileiras do chamado 'Estado Islâmico'

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Analistas político-sociais e psicólogos foram unânimes ao considerar que a organização foi responsável pela transformação do adolescente católico em um muçulmano extremista e teve um papel crucial em sua decisão de participar do conflito sírio.

"A influência da Sharia4Belgium foi mais que provavelmente decisiva em sua opção de ir para a Síria", afirma o psicólogo Jean-Claude Maes, fundador da organização SOS-Sectes, que ajuda vítimas de seitas na Bélgica.

Segundo o psicólogo, De Mulder e outros belgas que seguiram o mesmo caminho se enquadram no perfil típico dos adeptos de seitas: pessoas, em geral, equilibradas, mas que passam por uma fase frágil ou de questionamento de identidade, algumas delas idealistas em busca de uma causa a servir.

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De acordo com Hanissa Touag, socióloga especializada em islã, o Sharia4Belgium atuou como uma seita, isolando seus membros de suas famílias, reabilitando sua autoestima, proporcionando, na figura de seu líder, Fouad Belkacem, um "pai espiritual".

Efeito de grupo

A organização ofereceu a esses jovens a "segurança de pertencer a um grupo social que deu sentido a suas vidas e respostas a suas questões naquele momento específico", observa Bilal Benyaich, cientista político-social autor de vários livros sobre o islã e a radicalização dos muçulmanos na Bélgica.

Como Brian, milhares de jovens ocidentais engrossaram as fileiras do Estado Islâmico.

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Reprodução/Youtube
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"Inicialmente não são as ideias do grupo que contam, mas sim a segurança que ele proporciona. É esse sentimento de pertencer que explica a radicalização hoje em dia, mais que a religião em si mesma. É o fenômeno psicológico normal de pensamento de grupo", concorda Rik Coolsaet, diretor do departamento de ciências políticas da Universidade de Gand e membro da Rede Europeia de Especialistas em Radicalização (ENER, na sigla em inglês).

"(Brian) estava procurando algo e encontrou a Sharia4Belgium. Poderia ter sido um grupo de motociclistas, de neonazistas", observa.

"Hoje em dia, se você quer ser antissistema, rebelde, para os jovens de origem imigrante o mais fácil é ser aceito em grupos salafistas (corrente conservadora do islã)", opina Benyaich.

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Uma vez estabelecida a confiança no grupo, tem início o que o psicólogo Maes chama de "fase de reconstrução".

"Seu antigo 'eu' deve 'morrer'. O adepto concede a sacrifícios porque acredita que se tornará melhor, mais autônomo. E, na verdade, torna-se mais e mais dependente", explica.

Evolução

Coolsaet ressalta que o discurso da Sharia4Belgium foi se tornando mais violento com o passar dos anos.

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. Foto: APImagem postada em site militante em 14/6 parece mostrar membros do EIIL com soldados iraquianos à paisana capturados após tomada de base em Tikrit, Iraque. Foto: APCombatentes iraquianos xiitas seguram suas armas enquanto gritam palavras de ordem contra o Estado Islâmico do Iraque e do Levante em Cidade Sadr, Bagdá (13/6). Foto: APVoluntários esperam para se juntar ao Exército e combater militantes predominantemente sunitas em Bagdá, Iraque (13/6). Foto: ReutersPresidente dos EUA, Barack Obama, fala sobre a situação no Iraque em pronunciamento na Casa Branca, em Washington (13/6). Foto: APImagem postada em Twitter militante mostra membro do Estado Islâmico do Iraque e do Levante com sua bandeira em base militar na Província de Ninevah, Iraque (12/6). Foto: APImagem publicada por militantes no Twitter mostra combatentes do Estado Islâmico do Iraque e do Levante em local na fronteira entre o Iraque e a Síria (12/6). Foto: APMuitas famílias começaram a deixar Mosul depois de ocupação por insurgentes sunitas (13/6). Foto: ReutersForças de segurança curda se posicionam do lado de fora da cidade petrolífera de Kirkuk após abandono de tropas iraquianas (12/6). Foto: APVeículos queimados pertencentes às forças de segurança iraquianas são vistos em posto de controle no leste de Mosul (11/6). Foto: ReutersPolicial federal do Iraque monta aguarda enquanto colega faz buscas em carro em posto de controle de Bagdá, Iraque (11/6). Foto: APFamílias que fogem da violência na cidade de Mosul esperam em posto de controle nos arredores de Irbil, região do Curdistão iraquiano (10/6). Foto: ReutersRefugiados que deixam Mosul se dirigem à região autônoma curda em Irbil, Iraque, a 350 km a norte de Bagdá (10/6). Foto: APMilitares se preparam para assumir suas posições durante confrontos com militantes no norte da cidade de Mosul, Iraque (9/06). Foto: AP

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"Em 2010 (quando a organização foi criada) ninguém podia dizer que era um grupo terrorista. Eram pessoas em busca de um horizonte, de poder viver sua religião plenamente", analisa.

A radicalização do grupo, segundo Coolsaet, teria sido simultânea à de seus membros que se tornariam jihadistas.

Para o cientista político, os primeiros belgas que se somaram ao conflito sírio desconheciam o nível de violência ao que submeteriam.

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"Em agosto de 2012, quando se teve notícia dos primeiros belgas indo pra Síria, não existia o Estado Islâmico no Iraque ou Levante. Os jihadistas belgas se organizavam entre si, sob a coordenação de 'emirs'. A situação evoluiu e eles aderiram aos grupos mais radicais, que defendem as mesmas ideias que eles", acredita.

O cientista político-social Bilal Benyaich rejeita essa tese: "Eles foram (à Síria) para fazer o jihad", afirma.

"Eles não saem daqui com um instinto assassino, mas se tornam assassinos se é preciso para poder alcançar o objetivo de ter um país 'realmente' muçulmano", afirma.

Para Maes, trata-se de uma perversão de valores e ideais.

"Eu diria até que a cultura ocidental contemporânea nos incita ao crime ao dizer que o fim justifica os meios", afirmou.

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O psicólogo, que atendeu a alguns jihadistas que regressaram à Bélgica, observa que as famílias "se sentem, em geral, muito culpadas e traumatizadas", mas "não poderiam ter previsto" o que aconteceria com seus filhos.

"É muito difícil extrair um jovem desse tipo de relação. Depende de quão longe já foi o doutrinamento e do limite ético dessa pessoa. Normalmente o detonador é uma pessoa que representa algo para o adepto, em quem ele tem confiança, com experiência de rua", explica Coolsaet.

"Não subestime o poder desse tipo de doutrinamento que cria uma 'segunda família' onde todos se apóiam e se ajudam mutuamente", alerta Benyaich.

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