Kamaldeep Bhui, da Qeen Mary University, defende que jovens estão doentes e, portanto, não deveriam responder por crimes

Adolescentes e jovens adultos que saem do Reino Unido para se juntar ao Estado Islâmico estão apenas depressivos e solitários e deveriam ser aceitos de volta em território britânico sem ser criminalizados por seus atos, afirmou um professor ao Telegraph.

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Mohammed el-Araj, do oeste de Londres, foi morto em confronto junto ao EI na Síria
Reprodução/Twitter
Mohammed el-Araj, do oeste de Londres, foi morto em confronto junto ao EI na Síria


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Kamaldeep Bhui, professor de psiquiatria cultural e epidemologia na Queen Mary University de Londres, disse que a radicalização deveria ser tratada como um problema de saúde, assim como o consumo de drogas e o abuso de álcool.

Segundo ele, os jovens à caminho da radicalização são geralmente bem instruídos e de famílias ricas, mas se sentem entediados com suas vidas e socialmente isolados. E as garotas são tão propensas a serem radicalizadas quanto os garotos.

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Bhui diz que pode haver até 500 militantes britânicos na Síria e dezenas de mulheres que foram para a guerra do grupo sunita se casar com jihadistas. Um desses militantes é conhecido como "John Jihadi" e foi filmado decapitando os jornalistas americanos James Foley e Steven Sotloff.

Mas o professor disse que vários adolescentes ficaram rapidamente desiludidos depois de serem iniciados na guerra. Ele ouviu mais de 600 pessoas em comunidades muçulmanas de Bradford e Londres para aprender o que impulsiona os britânicos a arriscar suas vidas em um país estrangeiro.

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"Algo neles sugere que eles estão descontentes", disse. "O grupo que simpatizou com o EI era jovem, tinham acesso a educação em tempo integral e geralmente formado por ricos. Eles eram mais propensos à depressão e isolamento social", acrescentou.

"Há até um pouco de ingenuidade juvenil. Eles têm fantasias românticas e nunca experimentaram a sharia ou um califado antes e, ao chegar lá [na Síria] eles veem que as coisas não são como eles imaginavam".

O professor descobriu que os simpatizantes das ideologias jihadistas ou terroristas eram suscetíveis a serem bem-educados e de famílias que ganham mais de 75 mil euros, aproximadamente 234 mil reais. 

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"Nós percebemos também que as mulheres eram ligeiramente mais propensas a terem alguma simpatia pela radicalização. Isso é uma epidemia crescente entre as garotas", acrescentou ele.

Para o especialista, é fundamental que os pais muçulmanos mantenham um olhar atento sobre seus filhos para perceberem sinais de depressão ou solidão. Ele advertiu que os jovens que se envolvem em universos paralelos como os jogos de vídeo, quadrinhos ou têm identidades alternativas estão sob risco maior.

O premiê David Cameron disse que os britânicos que viajam para a Síria ou o Iraque para se juntar ao Estado Islâmico serão tratados como "um inimigo do Reino Unido" e poderiam ter suas cidadanias destituídas.

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No mês passado, o Telegraph relatou como centenas de recrutas da Al-Qaeda, incluindo britânicos, estão sendo mantidos em casas seguras no sul da Turquia antes de ser contrabandeados pela fronteira com a Síria para lutar na jihad. Dois britânicos morreram em conflitos na região, incluindo Mohammed "Mo" El-Araj, 23, de Notting Hill, oeste de Londres.

Cameron tem pressionado o parlamento por aumento no rigor legal em monitorar suspeitos extremistas e disse que os passaportes poderiam ser removidos para os que tentarem viajar para o exterior rumo a Síria.

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Mas Bhui acrescentou: "Eu acho que seria um desastre você criminalizá-los e renega-los como cidadãos britânicos. Algumas dessas crianças são jovens e inexperientes. Eles não queriam ser radicalizados."

Curiosamente, o professor revelou que os migrantes não são suscetíveis a se tornarem radicais porque são mais pobres, mais ocupados em meio a luta para ganhar a vida e lembram dos problemas nos países não-ocidentais.

"Aqueles que têm uma vida dura como os imigrantes estão muito ocupados para fantasiarem sobre ataques terroristas", diz ele.

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E ele disse que os imãs locais podem ser cruciais para manter os jovens no caminho certo.

"A mesquita é um fator de proteção", acrescentou: "Esses jovens estão desconectados de suas famílias, desconectados de suas origens e quando eles entram em contato com terroristas, acham que estão fazendo a coisa certa ao se conectarem de forma mais ortodoxa ao Islã", afirmou.

"Sugiro que seja importante ter acesso a formas de ensino ortodoxas", avaliou.

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