Com atores negros, "zoológico humano" é cancelado em Londres após protestos

Por BBC | - Atualizada às

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Batizada de Exhibit B, polêmica performance teria abertura nesta terça, mas foi suspensa por críticas alegando racismo

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Uma performance artística polêmica com atores negros em uma espécie de "zoológico humano" foi cancelada em Londres depois de protestos realizados, na sua noite de abertura, nesta terça-feira (24).

Sofie Kniff
Atriz posada para a performance Exhibit B, cancelada após protestos a chamarem de racista

Batizado de Exhibit B, o evento artístico propôs a atores que aparecessem em jaulas e presos a correntes para tratar das "repugnantes atitudes referentes à raça durante a era colonial". No entanto, os manifestantes consideraram a performance ofensiva e racista.

O centro cultural Barbican cancelou os cinco dias de apresentações devido à "natureza extrema do protesto" que representaria "uma ameaça à segurança dos atores, do público e funcionários".

Liberdade de expressão
Criada pelo sul-africano Brett Bailey, a Exhibit B já foi apresentada em 12 cidades em vários países. Ela tem o objetivo de mostrar uma versão moderna do "zoológico humano", em que africanos eram exibidos para a curiosidade do público ocidental no século 19 e início do século 20.

Na apresentação, os visitantes andam por salas em que atores negros representam tanto os “zoos” do passado como também pessoas que buscam asilo em outros países nos dias de hoje.

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Zoológicos humanos foram tentativa de legitimar a colonização

"É perturbador que tais métodos sejam usados para silenciar artistas e que não seja permitido ao público ver esse importante trabalho", disse o Barbican em um comunicado.

"A Exhibit B discute, de forma séria e responsável, questões sobre racismo. Havia passado por 12 cidades, envolvendo 150 artistas e sendo vista por 25 mil pessoas, com uma reação bastante positiva."

O centro de artes ainda destacou sua preocupação com "as potenciais implicações desse silenciamento de artistas para a liberdade de expressão".

Violência
Um porta-voz da Polícia de Londres disse ter recebido um chamado nesta terça, às 18h34, com relatos de brigas em um protesto no local. Os policiais foram até o local, mas ninguém foi preso, afirmou.

Segundo a organizadora do protesto, Sara Myers, não houve uso de violência por parte dos manifestantes. "Nós de fato fechamos as portas (do centro cultural) e ficamos do lado de fora, batendo tambores, cantando e apitando. Não houve qualquer tipo de briga."

Myers afirmou estar "extremamente satisfeita" com o cancelamento da performance: "Lamento muito que tenha sido necessário protestar para que eles a cancelassem, porque estávamos tentando negociar com eles há um mês, dizendo que ela era ofensiva e não nos agradava. Tentamos explicar porque a performance era racista. E eles apenas respondiam que não era".

Relembre casos de racismo ocorridos no Brasil:

Caso do ator Vinícius Romão chamou atenção no Rio de Janeiro no começo deste ano. Foto: ReproduçãoEle ficou 15 dias detido após ter sido erradamente reconhecido por uma vítima de assalto. Foto: Reprodução/ TV GloboO pai do ator, o militar reformado Jair Romão, comemorou a soltura do filho e o arquivamento do processo. Foto: Carlos MoraesCaso não foi o único no Rio. Em fevereiro, um jovem negro suspeito de assalto foi preso pelo pescoço por uma trava de bicicleta. Foto: Reprodução internetO futebol é outro campo em que casos de racismo ocorrem. O tema é preocupação do País para a Copa do Mundo. Foto: Divulgação/CBFO primeiro caso foi vivido por Tinga, no Peru, pela Libertadores. A torcida rival imitou som de macaco quando ele pegava na bola. Foto: VIPCOMM/DIVULGAÇÃOO jogador recebeu mensagens de apoio de diversas torcidas e de representantes da sociedade. Foto: Eugenio Savio/APO volnate Arouca do Santos, foi xingado de 'macaco' por torcedores em uma partida pelo Campeonato Paulista contra o Mogi Mirim. Foto: FLICKR OFICIAL/SANTOS/REPRODUÇÃO O árbitro Márcio Chagas recebeu ofensas durante jogo pelo Campeonato Gaúcho encontrou seu carro amassado, com bananas na lataria. Foto: Arquivo pessoalDilma Rousseff recebe o árbitro Marcio Chagas e o meia Tinga, do Cruzeiro. Foto: Site oficial da Presidência da República

"Cúmplice de racismo"
Quase 23 mil pessoas assinaram uma petição online na qual a performance era chamada de "cúmplice do racismo". "Ficamos ofendidos, apesar de não estarmos surpresos, que o colonialismo que esta obra supostamente expõe faz nada mais do que reforçar o quão efetivo ele era e como ainda permanece, sendo um instrumento usado por supremacistas brancos", diz a petição.

Em resposta, o Barbican disse "não ser neutro quanto à questão do racismo", que se opõe totalmente ao preconceito racial e que não apresentaria uma obra que o apoia. De acordo com o centro cultural, a Exhibit B "busca confrontar a objetificação de seres humanos e questionar o quanto a sociedade evoluiu".

"Tratar desses temas em uma obra de arte sempre será controverso e difícil, e entendemos que algumas possam se incomodar com a forma com que eles são retratados na Exhibit B", concluiu.

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