Filho de brasileira deixa a Bélgica para se juntar ao Estado Islâmico

Por iG São Paulo | - Atualizada às

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Nascido na Bélgica, Brian de Mulder se juntou ao grupo sunita na Síria em 2011; ele se converteu ao islamismo após depressão

Como vários garotos de Antwerp, Bélgica, Brian de Mulder sonhava ser um grande jogador profissional de futebol.  

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Brian de Mulder se juntou aos militantes do Estado Islâmico na Síria para lutar contra as forças pró-Assad


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Seu time favorito era o Futbol Club Barcelona e, assim como seu ídolo argentino Lionel Messi, ele orgulhosamente vestia a camisa "10" em seu time. Ele havia começado a jogar aos 6 anos de idade e se transformou em um atacante talentoso. A profissão era seu sonho, de acordo com informações da Time.

Em 2011, o nome de Brian, com então 17 anos, estava entre os vários cortados pelo clube local, que estava com problemas financeiros. Ele ficou arrasado com o que parecia ser o fim de um sonho, explicou sua família à Time. 

Brian foi criado em um lar católico e raramente se metia em problemas. Alto, magro e com o cabelo escuro, herança de sua mãe brasileira, Rosana Rodrigues, o rapaz, por muitas vezes, usava uma cruz branca em volta do pescoço, um presente de infância. Pouco depois de ser cortado do time, um grupo de adolescentes marroquinos convidou-o para jogar em casa. Ele aproveitou a chance para preencher seu vazio.

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Pouco depois de dois meses de convivência, ele começou a visitar a mesquita dos novos amigos. Eles o nomearam Ibrahim, disse sua irmã mais velha, Bruna Rodrigues. Mais tarde, ele se converteu ao Islã e mudou seu nome para Abu Qasem Brazili. Sua mãe, que mora na Bélgica há vários anos, ficou surpresa com a súbita transformação, mas apoiou o adolescente.

"Ela achou que era uma fase, uma questão adolescente”, explicou Bruna, se referindo a mãe, que se recusou aos pedidos de entrevista da Time. 'Em seis meses tudo voltaria ao normal', ela dizia. Mas só piorou", lamentou a irmã mais velha.

O belga era um bom aluno, mas as tensões começaram na escola quando ele começou a arrumar problemas com colegas não muçulmanos e deixou o colégio três meses antes de receber seu diploma. Após completar 18 anos, ele já sabia o básico do árabe e orava de joelhos cinco vezes por dia.

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"Foi mais filosófico naquela época", disse sua tia, Ingrid de Mulder. "Ele estava perguntando sobre as coisas, querendo saber sobre Deus. Era mais como aprendizado. Ele não era nada radical", ela afirmou.

Mudança

Reprodução/Twitter
Brian, na época em que era adolescente e jogava futebol em um clube da Bélgica

Naquela época, em meados de 2011, ele havia começado a ignorar seus amigos não muçulmanos, até mesmo excluí-los do Facebook, priorizando os mais devotos. Um deles, vizinho do brasileiro que se chamava Mohammed, levou Brian aos sermões de rua liderados por Fouad Belkacem, líder da organização local Sharia4Belgium.

O grupo foi dissolvido voluntariamente no ano passado, mas mantém uma rede oculta. Belkacem, conhecido como Abu Imran, é um islâmico de origem marroquino, conhecido por suas políticas radicais.

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Antuérpia, a segunda maior cidade da Bélgica, é célebre pelos seus diamantes e museus, sua arte e sua comida. Mas, como a guerra civil na Síria ficou ainda mais sangrenta ao longo de seus mais de 25 meses de conflitos, com supostamente mais de 94 mil mortos e 1,5 milhões de refugiados nos países vizinhos, líderes de redes extremistas sunitas como Belkacem começaram a radicalizar jovens e coloca-los na linha de batalha dos conflitos cada vez mais sectários contra as forças do presidente sírio, Bashar al-Assad. 

Ingrid está convencida que Belkacem doutrinou Brian, transformando o adolescente normal, descrito como um jovem de "coração de ouro" em "um robô programado" em poucos meses. A família estava tão convencida de que ele estava indo para a jihad que em junho de 2012, a mãe de Brian mudou com ele e sua irmã mais nova para Limburg, uma comunidade remota no nordeste do país. Não funcionou.

Ao longo dos próximos seis meses, Brian se transformou. Ele trocou suas roupas de marca por uma tradicional thawb branca e passou a criticar a mãe e irmãs pela maneira como se vestiam. Quando elas não quiseram se converter, ele disse que as abandonaria. Em uma noite em meados de janeiro de 2013, Brian fugiu para "seu próprio bem".

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Reprodução/Youtube
O jovem, de lenço rosa, durante sua conversão ouve os ensinamentos de Abu Imran em uma rua da Bélgica

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"Eu te amo, mas você nunca mais me verá de novo", ele disse à sua irmã mais nova. Ele deixou suas chaves e celular para trás. A família apresentou boletim de ocorrência por desaparecimento, mas ele não era mais menor de idade. (Ingrid diz que elas foram notificadas depois que Brian havia embarcado em um voo, no dia 23 de janeiro, de Düsseldorf para Istambul).

No final de fevereiro, Bruna fez uma busca detalhada no YouTube à procura de qualquer vestígio da luta na Síria . E em um vídeo que mostrava um grupo de rebeldes com fuzis orando em um campo aberto, ela reconheceu o irmão.

É uma história que pouco difere da de outras dezenas de jovens que como Brian saíram da Europa para guerrear no Oriente Médio. Ao menos 6 mil estrangeiros lutam na Síria desde março de 2011, dizem os especialistas, sendo a maioria árabes sunitas do Egito, Líbia, Tunísia e Arábia Saudita.

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Desse número, não mais do que 10% partiram do Ocidente. É o que diz relatório recente do Kings College London, considerando que cerca de 600 europeus em sua maioria muçulmanos ou radicalizadas convertidos da Grã-Bretanha, Holanda, França e Bélgica fizeram a viagem. 

Perfil

Reprodução/Youtube
Imagem do YouTube mostra Brian combatendo na Síria. Atrás dele, uma arma

Brian e outros, como Jejoen Bontinck, 18, também de Antuérpia, foram atraídos para o extremismo por meio da religião. O pai de Jejoen, Dimitri Bontinck, tentou localizar o filho em Aleppo, mas não teve sorte.

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Ele parece estar lutando ao lado de Brian com o mesmo objetivo de derrubar Assad. Críticos dizem que os jovens caíram sob o "feitiço" da Jabhat al-Nusra, o grupo jihadista listado como uma organização terrorista pelo Departamento de Estado dos EUA.

A dupla se ajusta ao perfil clássico dos militantes recrutados: adolescentes vulneráveis ​​e impressionáveis ​​ou homens em idade universitária que se decepcionaram, sentem-se marginalizados, discriminados ou têm dificuldades de assimilação na sociedade.

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Eles acabam seduzidos por aquilo que David Malet, professor na Universidade de Melbourne e autor de "Combatentes estrangeiros: Identidade Transnacional em Conflitos", descreve como "crise existencial que tem de ser vencida ou uma comunidade inteira será exterminada."

Em abril de 2013l, a família de Brian realizou coletiva com Vlaams Belang, partido político de extrema-direita da Bélgica, para destacar a ameaça de radicalização muçulmana no país. Duas semanas depois, a polícia invadiu casas em Antuérpia, Bruxelas e nas proximidades de Vilvoorde. Belkacem e outros cinco homens, acusados de empurrar adolescentes para a Síria, foram detidos.

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Para os Mulder, a ação trouxe pouco conforto. Aqueles que conhecem o jovem acham que ele está morto. A família o quer de volta, os outros, nem tanto. Funcionários europeus anti-terroristas têm alertado que os militantes que quiserem voltar representarão uma ameaça à segurança nacional e que eles não serão bem-vindos de volta.

A família recebeu informações de Brian no final de abril de 2013. Ele escreveu a sua irmã mais velha uma mensagem privada no Facebook em resposta aos vários pedidos dela para ele voltar para casa. Impenitente, ele alegou que não tinha mais família na Bélgica, a menos que elas se convertessem e se juntassem a ele. Mais tarde, ele escreveu para ela novamente sobre as atrocidades que havia presenciado e da falta de ajuda disponível aos civis. Ela respondeu que ele era "famoso" no país como Syriëstrijder ("guerreiro sírio") e que se ele realmente queria fazer a diferença, ele deveria fazê-lo a partir da Bélgica, conversando com ministros. Ele não respondeu. 

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Em 18 de maio do ano passado, quatro meses após Brian sumir, a família se reuniu na casa de Ingrid, no sul da Bélgica, para celebrar o aniversário de 20 anos do jovem. Bruna diz que tentou manter o alto astral, rindo e comendo alguns dos pratos favoritos do irmão: batata frita, bife e bolo de chocolate.

Eles esperam por mensagens dele, bem como de mais ajuda para evitar que outros caiam na mesma armadilha, mas não são otimistas. "A cada dia, mais e mais caras como Brian, eles estão indo para a Síria", diz ela. "Isso precise parar."

*Com Times e BBC

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