Venezuelanas sofrem com a escassez de próteses de silicone

Por iG São Paulo | - Atualizada às

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Obcecadas pela beleza, mulheres acabam escolhendo marcas chinesas e alteram o tamanho das próteses ideais para o corpo

A crônica escassez e alimentos e produtos básicos na Venezuela começou a invadir o território da beleza feminina e um dos ícones culturais do país: o implante de silicone nos seios.

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AP
Cirurgião realiza cirurgia de implante de silicone em hospital de Caracas, Venezuela (4/09)


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Obcecadas pela beleza, as venezuelanas agora enfrentam escassez de próteses de mama das marcas mais reconhecidas. E o desespero delas é tão grande que, junto a seus cirurgiões, elas têm recorrido a tamanhos de próteses bem diferentes do ideal ou de fabricação chinesa, com padrões de qualidade menos rigorosos.

Antes, as venezuelanas tinham acesso aos implantes aprovados pelo órgão americano que regulamenta medicamentos e alimentos, o FDA, Food and Drug Administration. Mas agora, médicos dizem ser impossível encontrar as próteses devido a uma política de controle de câmbio restritiva que impede as empresas locais de importem produtos estrangeiros, já que não têm acesso aos dólares para realizar a transação.

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"As mulheres estão reclamando", disse Ramon Zapata, presidente da Sociedade de Cirurgiões Plásticos. "As venezuelanas são muito preocupadas com sua auto-estima."

A Venezuela tem uma das taxas de cirurgia plástica mais altas do mundo e o implante de mama é o procedimento mais famoso deles. Os médicos realizaram 85 mil implantes no ano passado, de acordo com a Sociedade Internacional de Cirurgia Plástica Estética. Apenas os EUA, Brasil, México e Alemanha - todos com populações significativamente maiores - realizaram mais procedimentos.

Até pouco tempo atrás, as mulheres participavam de sorteios de implantes realizados por farmácias, locais de trabalho e até políticos durante as campanhas. Durante as manifestações de rua contra o governo, era possível ver ocasionalmente alguns cartazes protestando contra o aumento do preço das próteses mamárias em meio a cartazes contra a escassez de alimentos ou contra a desvalorização da moeda.

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"É a cultura do 'eu quero ser mais bonita do que você'", diz o cirurgião Daniel Slobodianik. "É por isso, inclusive, que mulheres de bairros pobres têm implantes."

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Stefanía Fernández posou amordaçada em campanha contra Nicolás Maduro, na Venezuela. Ela foi miss Universo em 2009. Foto: Reprodução/Daniel BracciA modelo Stefanía Fernández e outras personalidades da Venezuela se uniram em campanha de fotos contra o governo de Nicolás Maduro na Venezuela. Foto: Reprodução/Daniel BracciStefanía Fernández foi miss Universo em 2009 e se juntou a campanha contra Nicolás Maduro, na Venezuela. Foto: Reprodução/Daniel BracciA deputada venezuelana da oposição Maria Corina Machado também foi fotografada, na Venezuela. Foto: Reprodução/Daniel Bracci

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Slobodianik realizava vários implantes mamários por semana, mas agora executa ao menos dois por mês. Ele diz que as mulheres telefonam para seu consultório diariamente perguntando se ele tem o tamanho do implante que procuram. Quando essas próteses não podem ser encontradas, as pacientes escolhem a segunda melhor opção, quase sempre um tamanho acima do ideal.

Apesar das várias reclamações pela falta das próteses, parece que o governo não tem se inclinado a resolver o problema. O consumo das cirurgias plásticas sempre foi contrária a revolução socialista. O falecido presidente Hugo Chávez chamou a fixação de cirurgia plástica do país de "monstruosa" e protestou contra a prática de dar implantes mamários a jovens em seus aniversários de 15 anos.

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Nas redes sociais, alguns venezuelanos escrevem sobre o assunto em tom crítico, dizendo que o pânico pela falta de implantes mostra a falta de valores da sociedade da Venezuela. 

Na ausência de marcas americanas, a cirurgia plástica tornou-se uma área dominada pela parceira comercial da Venezuela, a China, cuja importação dos produtos é frequentemente prioridade sobre os outros países. Eles também são muito mais baratos.

Enquanto um par de implantes aprovado pelos reguladores europeus pode custar até US$ 600, o equivalente chinês vale um terço disso. Alguns médicos venezuelanos se recusam a usar os aparelhos chineses, que não estão sujeitos a inspeções governamentais aleatórias ou estudos clínicos.

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"Não estou dizendo que não sejam seguros, mas eu já tive que remover vários implantes chineses que se romperam", diz Slobodianik. "Simplesmente não me sinto bem trabalhando com eles."

Para os médicos que têm de lidar com as expectativas de suas pacientes, a escassez não é o pior problema. O médico Miguel Ángel Useche conta que as mulheres às vezes economizam durante anos para pagar suas operações e é muito difícil dizer para elas que precisarão esperar.

"Muitas vezes as pacientes ligam e dizem: 'Eu tenho feito tantos sacrifícios pela cirurgia mamária. Como você pode não me ajudar?'"

*Com AP

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