Entenda a violência extrema dos militantes do Estado Islâmico

Por BBC Brasil | - Atualizada às

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Nos últimos meses, o grupo tornou-se sinônimo de brutalidade como ecapitações, crucificações, apedrejamentos e genocídios

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O Estado Islâmico (EI), grupo radical elevado à categoria de nova ameaça global, é conhecido pela agressividade com que trata os adversários. Mas a crueldade de seus atos pode ser explicada?

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Decapitações, crucificações, apedrejamentos e genocídios são práticas recorrentes de grupo radical


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Nos últimos meses, o grupo tornou-se sinônimo de brutalidade - decapitações, crucificações, apedrejamentos e genocídios pautam as ações. Militantes enterram vítimas vivas e promovem todo tipo de limpeza religiosa e étnica no Iraque e na Síria, onde atuam.

Mas enquanto a selvageria pode parecer insensível para a vasta maioria dos seres humanos civilizados, para o EI trata-se de uma escolha racional. É uma decisão consciente aterrorizar os inimigos, além de impressionar e cooptar novos recrutas.

O Estado Islâmico é adepto da doutrina de guerra total sem limites e restrições – não há, por exemplo, arbitragem ou transigência quando se trata de solucionar disputas mesmo com rivais islamitas sunitas. E, ao contrário da organização que lhe deu origem, a al-Qaeda, o EI não recorre à teologia para justificar seus crimes.

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A violência tem suas raízes no que pode ser identificado como "duas ondas", à luz da escala e intensidade da brutalidade do EI.

A primeira onda, liderada por discípulos de Sayyid Qutb – um islamita egípcio radical considerado o teórico supremo do jihadismo moderno -, tinha como alvo regimes árabes seculares pró-Ocidente ou o que eles chamavam de "inimigo próximo", e, no geral, demonstravam moderação no uso da violência política.

Após o assassinato do presidente egípcio Anwar Sadat, em 1980, essa insurgência islamita foi dissipada até o final dos anos 90 a um custo de 2 mil vidas. Muitos dos militantes haviam seguido para o Afeganistão nos anos 80 para combater um novo inimigo global – a União Soviética.

'Máquina mortífera'

A jihad ("guerra santa") afegã contra os soviéticos deu origem à segunda onda que, mais tarde, ganhou um alvo específico – o "inimigo distante": os Estados Unidos, e em menor grau, a Europa. Essa segunda onda foi encabeçada por um multimilionário saudita que virou revolucionário, Osama Bin Laden.

Bin Laden fez um grande esforço para racionalizar o ataque da al-Qaeda aos Estados Unidos em 11 de setembro de 2001, chamando-o de "jihad defensiva", ou retaliação contra a dominação americana das sociedades muçulmanas.

Consciente da importância de arrebanhar corações e mentes, Bin Laden enviou sua mensagem aos muçulmanos e até a americanos como uma espécie de auto-defesa, e não agressão.

Esse tipo de justificativa, no entanto, não tem relevância para o líder do EI, Abu Bakr al-Baghdadi, que não parece se importar com o que o mundo pensa da sanguinolência dos ataques do grupo.

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Em contraste às duas primeiras ondas, o EI sobrepuja a ação violenta a qualquer preceito teórico ou teológico e em nenhum momento demonstrou ter um repertório de ideias que sustenta e nutre a sua base social. Trata-se de uma máquina de matar alimentada por sangue e armas.

AP
Centenas de jihadistas teriam engrossado as fileiras do EI nos últimos meses

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Indo além da doutrina de Bin Laden de que "quando as pessoas veem um cavalo forte e um cavalo fraco, por natureza vão escolher o mais forte", a vitória por meio do terrorismo de al-Baghdadi indica a amigos e inimigos que este é um "cavalo vencedor". "Saia do caminho ou você será esmagado; junte-se a nós e faça história" parece ser o lema do EI.

Evidências cada vez mais fortes mostram que, nos últimos meses, centenas senão milhares de antigos e obstinados inimigos do EI, como a Frente al-Nusra e a Frente Islâmica, responderam ao chamado de al-Baghdadi.

'Choque e pavor'

A propaganda sofisticada do EI mira jovens sunitas desiludidos e descontentes em todo o mundo porque o grupo é visto como uma vanguarda poderosa que oferece a vitória e a salvação.

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Longe de abominarem a brutalidade do grupo, os jovens recrutas são atraídos pelas táticas de choque e pavor contra os inimigos do Islã.

Suas façanhas no campo de batalha – especialmente o controle de enormes partes do território na Síria e Iraque e o estabelecimento do califado – ressoam perto e longe da região. Nada é melhor do que o sucesso, e os ganhos militares recentes do EI têm resultado em um boom no recrutamento.

Homens muçulmanos que vivem em países ocidentais se juntam ao EI e outros grupos extremistas porque eles se sentem parte de uma missão maior – ressuscitar um tipo idealizado perdido de califado e ser parte de uma comunidade unida com uma identidade forte.

Inicialmente, muitos jovens de Londres, Berlim e Paris e de outros lugares migram para as terras da jihad para defender correligionários perseguidos, mas acabam nas garras do EI, praticando atos de extrema crueldade, como a decapitação de civis inocentes.

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Os motores por trás do extremismo desenfreado do EI podem ser rastreados até suas origens com a al-Qaeda no Iraque, liderada por Abu Musab al-Zarqawi, que foi morto pelos americanos em 2006.

Tal como o grupo que lhe deu origem, o EI é alimentado pelo ódio aos xiitas e às minorias em geral, retratando-se como a ponta da lança de árabes sunitas na luta contra os regimes sectários de Bagdá e de Damasco.

Al-Zarqawi e al-Baghdadi veem xiitas como infiéis, uma quinta coluna no coração do Islã que deve ser exterminada.

Membros do Exército feminino treinam habilidades de combate antes de combaterem o Estado Islâmico em acampamento militar no Iraque (18/09). Foto: ReutersMilitar curdo lança morteiros em direção Zummar, controlada pelo Estado Islâmico, em Mosul, Iraque (15/09). Foto: ReutersMilitantes do Estado Islâmico levam soldados iraquianos capturados depois de assumir base em Tikrit, Iraque (junho/2014). Foto: APObama prometeu ofensiva com ataques aéreos na Síria e no Iraque para combater EI (12/09). Foto: ReutersMilitares curdos em tanque enfrentam militantes do Estado islâmico em Mosul, Iraque (7/09). Foto: ReutersMilitante curdo dá cobertura durante confrontos do Estado Islâmico na linha de frente da vila de Buyuk Yeniga, Iraque (4/09). Foto: ReutersMilicianos xiitas do Iraque disparam suas armas enquanto celebram a quebra de cerco do Estado Islâmico em Amerli (1/09). Foto: ReutersGrupo carrega caixão de militante xiita iraquiano da Organização Badr, que foi morto em confrontos com militantes do Estado Islâmico no Iraque (1/09). Foto: ReutersCriança chora em helicóptero militar após ser retirada pelas forças iraquianas de Amerli, ao norte de Bagdá (29/08). Foto: ReutersCurdos e militantes islâmicos lutam no norte do Iraque (12/08). Foto: ReutersIraquianos carregam retratos do primeiro-ministro iraquiano Nuri al-Maliki enquanto se reúnem em apoio a ele em Bagdá, Iraque (11/08). Foto: ReutersMilhares de iraquianos fugiram com avanço de militantes do EI, inclusive integrantes de minorias religiosas (9/08). Foto: APTropas curdas implantam segurança intensa contra os militantes islâmicos do Estado em Khazer (8/08). Foto: ReutersTropas curdas patrulham em um tanque durante operação contra militantes do Estado Islâmico em Makhmur, nos arredores da província de Nínive, Iraque (7/08). Foto: ReutersParentes choram a morte de homem da YPG, morto durante confrontos com combatentes do Estado Islâmico na cidade iraquiana de  Rabia, na fronteira do Iraque-Síria (6/08). Foto: ReutersVoluntários xiitas do Exército iraquiano se recuperam em hospital após serem feridos em confrontos com militantes do Estado Islâmico em Basra, sudeste de Bagdá (6/08). Foto: ReutersMulher visita túmulo de um parente em cemitério durante as celebrações do Eid al-Fitr, que marca o fim do Ramadã, em Bagdá (28/07). Foto: ReutersSoldado iraquiano perto de corpo de um membro do Estado Islâmico que morreu durante confrontos com forças iraquianas em Tikrit, Iraque (19/07). Foto: ReutersBandeira preta usada pelo Estado Islâmico do Iraque e do Levante flamula de delegacia danificada em Mosul, norte do Iraque (1/7). Foto: APVoluntário xiita do Conselho Supremo Islâmico Iraquiano aponta arma durante treinamento em Najaf, Iraque (26/6). Foto: ReutersMembros das forças de segurança iraquianas tomam suas posições durante reforço de segurança no oeste de Bagdá, Iraque (24/6). Foto: ReutersXiitas iraquianos se preparam para patrulhar a aldeia de Taza Khormato, na rica província petrolífera de Kirkuk, no Iraque (22/6). Foto: APCombatentes xiitas levantam suas armas e entoam palavras de ordem após autoridades pedirem ajuda para conter os insurgentes em Sadr, em Bagdá, Iraque (17/06). Foto: APManifestantes gritam em favor do Estado Islâmico do Iraque e do Levante em frente do governo provincial de Mosul (16/4). Foto: APCombatentes tribais xiitas mostram suas armas enquanto tomam parte de Dujail, ao norte de Bagdá, Iraque (16/06). Foto: ReutersCombatentes tribais xiitas levantam suas armas e gritam palavras de ordem contra sunita Exército Islâmico em Basra, Iraque (16/6). Foto: APImagem postada em site militante em 14/6 parece mostrar membros do EIIL mirando contra soldados à paisana depois de tomar base in Tikrit, Iraque. Foto: APImagem postada em site militante em 14/6 parece mostrar membros do EIIL com soldados iraquianos à paisana capturados após tomada de base em Tikrit, Iraque
. Foto: APImagem postada em site militante em 14/6 parece mostrar membros do EIIL com soldados iraquianos à paisana capturados após tomada de base em Tikrit, Iraque. Foto: APCombatentes iraquianos xiitas seguram suas armas enquanto gritam palavras de ordem contra o Estado Islâmico do Iraque e do Levante em Cidade Sadr, Bagdá (13/6). Foto: APVoluntários esperam para se juntar ao Exército e combater militantes predominantemente sunitas em Bagdá, Iraque (13/6). Foto: ReutersPresidente dos EUA, Barack Obama, fala sobre a situação no Iraque em pronunciamento na Casa Branca, em Washington (13/6). Foto: APImagem postada em Twitter militante mostra membro do Estado Islâmico do Iraque e do Levante com sua bandeira em base militar na Província de Ninevah, Iraque (12/6). Foto: APImagem publicada por militantes no Twitter mostra combatentes do Estado Islâmico do Iraque e do Levante em local na fronteira entre o Iraque e a Síria (12/6). Foto: APMuitas famílias começaram a deixar Mosul depois de ocupação por insurgentes sunitas (13/6). Foto: ReutersForças de segurança curda se posicionam do lado de fora da cidade petrolífera de Kirkuk após abandono de tropas iraquianas (12/6). Foto: APVeículos queimados pertencentes às forças de segurança iraquianas são vistos em posto de controle no leste de Mosul (11/6). Foto: ReutersPolicial federal do Iraque monta aguarda enquanto colega faz buscas em carro em posto de controle de Bagdá, Iraque (11/6). Foto: APFamílias que fogem da violência na cidade de Mosul esperam em posto de controle nos arredores de Irbil, região do Curdistão iraquiano (10/6). Foto: ReutersRefugiados que deixam Mosul se dirigem à região autônoma curda em Irbil, Iraque, a 350 km a norte de Bagdá (10/6). Foto: APMilitares se preparam para assumir suas posições durante confrontos com militantes no norte da cidade de Mosul, Iraque (9/06). Foto: AP

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Seguindo os passos de al-Zarqawi, al-Baghdadi ignora constantes apelos de seu mentor, Ayman al-Zawahiri, líder da al-Qaeda, para evitar a matança indiscriminada de xiiitas e, em vez disso, atacar os regimes xiitas e alauítas no Iraque e na Síria, respectivamente.

Estados Unidos

Ao explorar a brecha entre sunitas e xiitas no Iraque e o aprofundamento da guerra civil sectária na Síria, al-Baghdadi construiu uma poderosa base de apoio entre sunitas rebeldes e fundiu seu grupo nas comunidades locais.

Ele também reestruturou sua rede militar e cooptou militares experientes do antigo Exército de Saddam Hussein que acabaram por transformar o EI em uma força de combate sectária profissional.

Até agora, o EI vem focando nos xiitas e não no "inimigo distante". A luta contra os EUA e a Europa está distante e não é uma prioridade: é preciso, primeiro, aguardar a libertação em casa.

No auge de bombardeios israelenses de Gaza em agosto, militantes criticaram o EI nas redes sociais por matar muçulmanos enquanto não faziam nada para ajudar os palestinos. O EI reagiu dizendo que a luta contra os xiitas têm prioridade sobre todo o resto.

Agora que os EUA e a Europa uniram forças contra o EI, o grupo vai usar todos os seus ativos em retaliação, decapitando mais reféns. Há também uma probabilidade crescente de que o grupo ataque alvos diplomáticos no Oriente Médio.

Embora possa querer encenar uma operação de grandes proporções no território americano ou europeu, restam dúvidas se o EI tem a capacidade de realizar ataques complexos como os de 11 de setembro de 2001.

Há alguns meses, em resposta à ebulição de seus seguidores, al-Baghdadi reconheceu que sua organização não estava preparada para atacar os americanos em casa.

Ele disse, porém, que desejava que os EUA fizessem uma ofensiva terrestre para que o EI pudesse se envolver diretamente com os americanos - e matá-los.

Fawaz A Gerges ocupa a cadeira Emirates em Estudos Contemporâneos sobre Oriente Médio na universidade LSE, em Londres. Ele é autor de vários livros, incluindo 'Journey of the Jihadist: Inside Muslim Militancy' ('Jornada de um Jihadista: Por dentro da Militância Muçulmana', em tradução livre).

Obama: 'Não hesitarei em atacar o EI na Síria'

Um dia antes do aniversário dos ataques de 11 de setembro, o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, anunciou na quarta-feira (10) que "não hesitará" em realizar ataques contra o Estado Islâmico na Síria e no Iraque.

Em um pronunciamento na TV americana, Obama também disse que vai financiar e treinar rebeldes sírios para combater o grupo radical islâmico. Ele afirmou ainda que pedirá apoio do Congresso do país para levar o plano adiante.

"Quem ameaçar os Estados Unidos, não encontrará porto seguro", afirmou Obama, referindo-se ao terrorismo.

Ele destacou, entretanto, que a ofensiva será diferente das ocorridas no Afeganistão e no Iraque, acrescentando que não haverá tropas americanas em solo. Segundo Obama, seu objetivo é "enfraquecer e, em última análise, destruir" o Estado Islâmico por meio de uma estratégia de contra-terrorismo sustentada e abrangente.

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