Presidente Cristina Kirchner lançou ideia de transferir capital de Buenos Aires para cidade pacata e histórica no norte do país

BBC

Com apenas 230 mil habitantes, a pacata Santiago del Estero, no norte da Argentina, aparece pouco no noticiário do país.

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Presidente argentina Cristina Kirchner quer transferir capital de Buenos Aires para Santiago del Estero, no norte do país
Reuters
Presidente argentina Cristina Kirchner quer transferir capital de Buenos Aires para Santiago del Estero, no norte do país


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Mas, nas últimas semanas, Santiago del Estero virou o assunto principal na imprensa argentina.

A presidente Cristina Kirchner lançou a ideia de transferir a capital do país para a cidade, onde, devido à cultura local e às altas temperaturas normalmente registradas no verão, ainda se cultiva a tradicional "siesta" – o cochilo após o almoço herdado dos colonizadores espanhóis.

A principal justificativa para a mudança, segundo Kirchner, é a localização geográfica de Santiago del Estero.

"Com visão estratégica, deveríamos pensar em um desenho territorial diferente porque o mundo mudou", afirmou a presidente argentina durante visita à cidade no final de agosto.

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Segundo Kirchner, a transferência de Buenos Aires para Santiago del Estero aproximaria a Argentina de novos mercados de exportação, como a região asiática.

"Como dirigentes devemos nos adiantar [aos fatos]. Hoje, nosso comércio está cada vez mais orientado ao Oriente. Do mundo desenvolvido, só chegam crises e problemas. Enquanto do outro lado [países asiáticos] cada vez compram mais nossos produtos", afirmou.

'Saída para o Pacífico'

Conhecida como "mãe das cidades", por ser a mais antiga do país, Santiago del Estero – ou apenas Santiago, como é chamada pelos argentinos – foi fundada em 1563 e se localiza a cerca de 1,2 mil km de Buenos Aires.

Historiadores lembram que a cidade de Santiago del Estero foi disputada pelos incas, pelos espanhóis e pelo Chile, nos séculos 15 e 16. Também está a 400 km da fronteira com o Chile, país banhado pelo Oceano Pacífico e que, como o Peru, é visto como "porta de entrada" para a Ásia.

Já Buenos Aires se localiza às margens do Rio da Prata, próxima do Uruguai e do Brasil.

"Também temos de pensar como região, como Mercosul, Unasul, América do Sul", completou Cristina.

Críticas

A proposta de Kirchner gerou polêmica e dividiu a opinião pública argentina.

"Deve ser uma brincadeira", disse o senador opositor e cineasta Fernando Pino Solanas. "Se o governo quer uma saída para o Pacífico, que realize uma política externa adequada", afirmou a senadora Laura Alonso, também da oposição.

No entanto, nem mesmo Kirchner demonstra confiança na viabilidade de sua proposta. Na terça-feira, em pronunciamento na TV, a presidente exaltou a capital Buenos Aires e anunciou que a cidade abrigará o prédio "mais alto da América Latina", ainda a ser construído.

Santiago del Estero é a cidade mais importante da província de mesmo nome, governada por Claudia Ledesma Abdala, e considerada uma das mais pobres do país. As indústrias são raras e as principais fontes de receita da região são a agricultura, o comércio, o funcionalismo público e o turismo.

Abdala – os sobrenomes de origem árabe são comuns na região – sucedeu seu marido, o senador kirchnerista Gerardo Zamora, como governadora de Santiago del Estero após a Justiça ter impedido a candidatura dele.

Atualmente, Zamora é presidente do Senado argentino e terceiro na linha sucessória à Presidência, após Kirchner e o vice-presidente, Amado Boudou.

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