Vitaliy Sikirynsky culpa governo russo pelo conflito na Ucrânia; já Inna Polomarchuk, de Moscou, considera o líder uma vítima

Para Vitaliy Sikirynsky, a Rússia é a culpada pelo conflito entre separatistas e o governo na Ucrânia
Arquivo pessoal
Para Vitaliy Sikirynsky, a Rússia é a culpada pelo conflito entre separatistas e o governo na Ucrânia

Ainda nem anoiteceu e o centro da cidade de Ternopil, região ocidental da Ucrânia, está vazio. Em regiões próximas, um ruído ensurdecedor atravessa o ar como se fosse um trovão.

O evento que se segue, porém, em nada lembra o fenômeno natural: pesada troca de artilharia entre Exército e rebeldes pró-russos em áreas vizinhas aumenta o clima de tensão.

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O cenário de guerra, no entanto, ainda não afetou a cidade natal de Vitaliy Sikirynsky. Durante esses quase cinco meses de conflito, principalmente no leste, o jovem de 25 anos admite ter aproveitado para "mergulhar" no trabalho e assim, manter a cabeça ocupada.

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"É claro que tenho medo. Estamos todos apavorados. Mas continuei trabalhando normalmente durante esse período mais violento. Mas hoje a situação está mais calma. Não dizem que a esperança é a última que morre? Sou prova viva disso", disse ele durante conversa com o iG .

Nascido em Ternopil, uma das cidades mais importantes da área ocidental ucraniana, o jovem, chefe do departamento de questões sociais e políticas da Administração Regional de Ternopil, acredita que o país vai superar a fase difícil. Mas talvez leve mais tempo do que ele gostaria.

Com a anexação da Crimeia pela Rússia no início deste ano, a Ucrânia já perdeu metade de seu litoral, alguns de seus principais portos e incontáveis ​​bilhões de dólares em direitos de exploração mineral do Mar Negro. Além disso, em junho, a Rússia cortou o envio de gás natural para a Ucrânia e a falta do combustível já afeta a eletricidade. Segundo ele, há racionamento de energia elétrica e regiões ficam sem eletricidade entre 9h e 11h e das 20h às 22h.

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"A situação econômica piora a cada semana. A televisão estatal está começando a nos preparar para um futuro difícil. Por enquanto, o maior problema é o racionamento de energia elétrica. Acho que não é preciso ir às ruas armado, mas as pessoas precisam se conscientizar de outras maneiras. Somos um povo muito egoísta", ponderou.

Questionado sobre quem os ucranianos culpam pela atual situação do país, Sikirynsky não titubeia: o presidente Vladimir Putin.

"Putin é, por si só, um governo. Ele é a personificação da Rússia. Por muito tempo ele se recusa a admitir que apoia os insurgentes. Mas como explicar o número de soldados russos mortos no leste, ou o armamento militar dos separatistas? Não confio no Putin, nem em sua política. A Rússia não é aliada", afirmou. 

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Desde abril, a ex-república soviética vive sob ações violentas entre insurgentes e forças do governo. Militantes do leste ocuparam prédios públicos em Lugansk, Donetsk e Slaviansk para exigirem integração à Rússia, como aconteceu com a Crimeia, ou a "federalização" da área. Sikirynsky é contrário a ambas exigências.

"Essa seria uma decisão a ser acertada de maneira política, e não com uma guerra. A população do leste se tornou refém dos ideais pregados por Moscou. Eles financiam diretamente esses grupos. E isso é ilegal. É por isso que separar parte da Ucrânia está errado. E as mortes de tantos inocentes só exemplificam isso."

Moscou

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Do outro lado da fronteira, em Moscou, a vida de Inna Polomarchuk, de seus familiares e de grande parte da população russa não sofreu nenhuma alteração. E, segundo ela, não teria como ser diferente, já que a Rússia está envolvida nas negociações por paz, e não na luta armada da Ucrânia. "Não enviamos nosso Exército para a Ucrânia", declarou ela ao iG .

Inna Polomarchuk, que mora em Moscou, defende a política 'mediadora' de Vladimir Putin na Ucrânia
Arquivo pessoal
Inna Polomarchuk, que mora em Moscou, defende a política 'mediadora' de Vladimir Putin na Ucrânia


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"Os EUA e a Europa querem que o mundo acredite em uma invasão russa na Ucrânia porque temem o desenvolvimento econômico do nosso país. Mas não há fatos que comprovem essa 'ação'. Há militantes russos que aderiram a causa de seus irmãos ucranianos. Somos vizinhos! Temos a mesma história, as mesmas raízes", defendeu. 

Inna, 30, defende que nenhum país tem o direito de intervir militarmente em outras nações e lamenta que essas regras internacionais nem sempre sejam respeitadas pelas grandes potências mundiais. "A Rússia não segue o exemplo dos EUA, que realizaram incursões militares em países como Afeganistão e o Iraque."

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"O que acontece na Ucrânia é um problema nosso, como região, e temos o direito de resolver, como Putin está tentando fazer, dentro da lei", afirmou. "Grande parte da população ucraniana é de origem russa e o que eles querem é ter o direito de escolher viver sob a cultura russa e de falar sua língua nativa. E a grande maioria dos russos concorda com essas reivindicações", acrescentou Inna.

Nascida em Artyomovsk, Ucrânia, em 1984, época em que o país ainda era república da ex-URSS, a professora de inglês e seus pais aderiram à cidadania russa com o fim do bloco, nos anos 1990, enquanto seus avós decidiram se tornar cidadãos ucranianos. Ela explica que assim como sua família, essa é a realidade da maioria dos povos em ambos os lados da fronteira, o que faz dos russos e ucranianos um mesmo povo.

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"Para mim, nós somos uma mesma nação e todos esses problemas têm origem na política americana. 'Dividir para reinar'. É assim que eles pensam. E essa política funciona muito bem para eles. Mas não aqui. Tenho medo das ações do presidente ucraniano na área onde há população de etnia russa", afirmou ela.

Na sexta (5), a Ucrânia e rebeldes pró-russos assinaram acordo de cessar-fogo. A trégua tem por objetivo dar fim as lutas em um conflito que já deixou ao menos 2.600 mortos, de acordo com estimativa da ONU. Na quinta-feira (4), um oficial militar da Otan, Organização do Tratado do Atlântico Norte, disse à Associated Press que fileiras de soldados russos envolvidos diretamente no conflito haviam crescido no leste. 

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