Mistério sobre aeronave desaparecida em março continua, e parentes se dividem entre esperanças e incertezas

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Seis meses atrás, a chinesa Li Ling estava se preparando para o retorno do marido, Bian Liangjing, que trabalhava no exterior havia cerca de um ano. Dentista de formação, Bian, de 28 anos, não tinha recursos suficientes para abrir a sua própria clínica, por isso aceitou um emprego bem pago em um canteiro de obras em Cingapura para economizar dinheiro.

Parentes de trabalhador chinês Bian Liangking, desaparecido no voo MH370, esperam por milagre
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Parentes de trabalhador chinês Bian Liangking, desaparecido no voo MH370, esperam por milagre

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Além disso, Bian tinha outro forte motivo para estar ansioso para voltar à China: fazia mais de um ano que ele não via o filho Haohao, que agora tem dois anos de idade.

No último dia 8 de março, Bian embarcou no voo MH370 , que saiu de Kuala Lumpur, na Malásia, com destino a Pequim. Ele chegaria em poucas horas se o avião da Malaysia Airlines não tivesse desaparecido com todos os seus 239 passageiros e tripulantes sem deixar nenhum rastro.

Nesta segunda-feira, outros parentes e amigos dos passageiros chineses do voo MH370 se reuniram para marcar os seis meses do incidente. Em Pequim, cerca de 30 pessoas se reuniram em um dos templos budistas mais frequentados da capital chinesa.

Alguns choraram quando um homem recitou um poema, e houve tensão quando a polícia tentou tirar pessoas do local, segundo relatos de repórteres da BBC.

Ela vive em uma fazenda com os pais do marido e os irmãos dele. Na parede da sala, há várias fotos do casamento de Li Ling e Biang. Os noivos vestem roupas claras em frente a um fundo falso com a imagem de uma floresta.

Fotos como essas são comuns em casas chinesas. Mas para a família de Bian, em vez de recordarem momentos felizes, elas são uma constante lembrança de sua ausência.

Mesmo a alegia trazida pelo pequeno Haohao não consegue mascarar a dor sentida por Li Ling.

"Às vezes ele chama outras pessoas de 'papai'", diz ela enquanto lágrimas se formam em seus olhos. "Ele só quer o pai. Eu digo a ele que o papai vai voltar em breve, que ele só viajou para ganhar algum dinheiro".

A maioria daqueles dos passageiros do voo MH370 eram chineses. Alguns, como Bian, trabalhadores que buscavam oportunidades no exterior, outros haviam viajado a negócios ou para conferências, enquanto alguns poucos retornavam das férias.

Mas se há uma coisa que une todos os parentes e amigos das vítimas é a busca por respostas. Onde está o avião? O que aconteceu a bordo? Eles ainda estão vivos?

Apesar das intensas buscas na costa da Austrália com equipamentos de alta tecnologia, nenhum traço da aeronave foi encontrado.

O mistério que ainda ronda o incidente fez com que parentes e amigos das vítimas formassem um fórum na internet onde buscam por respostas.

Eles vasculham blogs de aviação, falam com especialistas e buscam qualquer pista que possa ter sido perdida. O grupo se chama Voice370 e tem 300 membros de diversos países.

"A coisa mais difícil é não saber nada", diz Jimmy Wang, de 31 anos, que abandonou seus estudos de pós-graduação na Suécia para apoiar sua angustiada mãe na China.

"O grupo é muito importante. Você só pode depender de pessoas que estão em uma situação parecida com a sua", diz.

Wang diz que, no fórum, os parentes discutem estratégias para fazer os governos e a Malaysia Airlines divulgarem mais informações sobre as buscas.

Refletindo um sentimento que é dividido por muitos dos parentes das vítimas, Wang diz considerar que o governo da Malásia cometeu "um erro após o outro" no caso.

Outros, como Liangwei, irmão de Bian, decidiram sair do mundo virtual e tomar ações mais diretas.

Liangwei faz quase todas as semanas uma viagem de quatro horas de duração até Pequim para buscar por respostas.

Ele conta que chegou a ser detido por várias horas pelas autoridades chinesas ao tentar passar a noite – ao lado de outros parentes de vítimas – no escritório da Malaysia Airlines em Pequim, porque não tinham dinheiro para um hotel.

"O governo chinês não nos ajudou em nada", diz. "Eles querem que fiquemos satisfeitos com a indenização que recebemos, fiquemos em casa e esperemos".

Liangwei afirma que o desaparecimento do avião "devastou" sua família.

"Eu não consigo olhar para meu sobrinho", diz Liangwei. "Quando eu olho para ele, vejo os olhos do meu irmão. Este foi um enorme desastre para a família, mas ainda estamos esperando. Nós ainda temos esperanças de que ele ainda esteja vivo".

A poucos metros de Lianwei, o pequeno Haohao brinca com um carrinho elétrico. Apesar de toda a aflição ao seu redor, ele parece um menino feliz.

Sua mãe está determinada a dar a ele uma vida o mais normal possível. Ela ainda aguarda por um milagre, esperando não ter que contar a Haohao que seu pai não voltará para casa.

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