Entenda a fragilidade do cessar-fogo na Ucrânia

Por BBC Brasil | - Atualizada às

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Neste domingo (7), houve bombardeio perto do aeroporto de Donestsk; trégua havia durado a maior parte do dia de sábado

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Firmado na sexta-feira, o cessar-fogo na Ucrânia já dá sinais de que pode fracassar.

Hoje: Trégua vacila e mulher é morta por fogo de artilharia na Ucrânia

EPA
Pressão interna foi importante para a decisão dos presidentes

Ontem: Cessar-fogo se mantém no leste da Ucrânia neste sábado

Neste domingo (7), houve bombardeio perto do aeroporto de Donestsk. A trégua havia durado a maior parte de sábado, mas no final do dia, bombardeios em Mariupol mataram uma mulher. O conflito já deixou cerca de 2.600 mortos desde abril.

Mas, se o acordo era tão frágil, por que Rússia e Ucrânia chegaram a um entendimento?

Bridget Kendall, correspondente para assuntos diplomáticos da BBC, analisa o que está por trás do cessar-fogo firmado entre representantes da Ucrânia, da Rússia, rebeldes pró-Rússia e a Organização para a Segurança e Cooperação na Europa (OSCE).

Trégua frágil

Sexta: Governo da Ucrânia assina acordo de trégua com rebeldes pró-russos

Além do objetivo mútuo de fazer todo o possível para parar o derramamento de sangue e o sofrimento, as opções do presidente ucraniano Poroshenko eram limitadas.

Ele percebeu que não ia ser tão fácil travar uma campanha para esmagar os rebeldes no leste do país e seguir em frente no objetivo de tirar a Ucrânia do caos econômico em que o país encontra-se.

Uma recente injeção de tropas e armamento pesado -presumivelmente da Rússia- fez com que os rebeldes pró-Rússia abrissem novas frentes e forçou as tropas ucranianas a um recuo abrupto e humilhante.

Leia: Otan acusa Rússia de atacar a Ucrânia; presidente ucraniano promete trégua

A reação de pânico em Kiev ficou clara. Nas palavras do presidente Poroshenko, parecia uma "agressão russa direta e aberta."

Na reunião há duas semanas em Minsk entre Putin e Poroshenko, foi sinalizado que à Ucrânia não seria permitido ganhar a guerra no leste.

Getty Images
Cessar-fogo corre risco de fracassar após nova onda de violência no leste ucraniano

Grã-Bretanha: Se houver trégua, UE pode retirar sanções contra a Rússia

O governo ucraniano tem em mente que a Rússia sempre pode montar uma contra-ofensiva, ou apenas manter a região constantemente instável, dificultando os planos de Poroshenko para as eleições parlamentares no próximo mês.

Amigos cautelosos

Além disso, o presidente Poroshenko deve ter saído do encontro com poucas ilusões sobre a ajuda militar do Ocidente. Depois do último encontro da OTAN ficou claro que, quando se trata da Rússia, os países ocidentais são pragmaticamente cautelosos.

Sem dúvida o Ocidente está disposto a apoiar Kiev política e economicamente, e a prestar assessoria, capacitação e assistência militar. Mas a Ucrânia não faz parte da Otan e o Ocidente não está preparado para ir à guerra com a Rússia por ela.

Os líderes da França e da Alemanha têm dito repetidamente nas últimas semanas que o conflito será resolvido na Ucrânia com um cessar-fogo.

Violência: Forças ucranianas e rebeldes se enfrentam antes do anúncio de trégua

Comboio de caminhões brancos com ajuda humanitária deixa Alabino, nos arredores de Moscou, Rússia (12/08). Foto: APManifestante ao lado de transeuntes na Praça da Independência em Kiev (9/08). Foto: ReutersManifestante segura coquetel molotov enquanto tenta impedir que trabalhadores municipais e voluntários limpem barricadas em Kiev (9/08). Foto: ReutersMembro de equipe antibomba inspeciona cratera com os restos de um projétil depois de uma noite de combates em Donetsk, Ucrânia (6/08). Foto: APMulher deixa prédio danificado por suposto bombardeio levando seus pertences na área central de Donetsk, Ucrânia (29/07). Foto: ReutersRebeldes pró-Rússia em um tanque com a bandeira da Rússia em uma estrada a leste de Donetsk, Ucrânia (21/07). Foto: APPrimeiro-ministro ucraniano Arseniy Yatsenyuk, à dir., conversa com um oficial durante inspecção ao Exército fora da cidade de Slovyansk, Ucrânia (16/07). Foto: APPremiê ucraniano, Arseniy Yatsenyuk (E), cumprimenta soldado ao inspecionar tropas em Slovyansk, leste da Ucrânia (16/07). Foto: APMulher chora perto de prédio que desmoronou após ataque aéreo em Snizhne, a 100 km a leste da cidade de Donetsk, no leste da Ucrânia (15/07). Foto: APCombatente da República Popular de Donetsk se despede de sua família, que deixa essa cidade no leste da Ucrânia para refugiar-se na Rússia (14/07). Foto: APCombatentes separatistas pró-russos esperam atrás de sacos de areia em posto de controle em Donetsk, Ucrânia (10/07). Foto: ReutersMilitares ucranianos perto das armas apreendidas de separatistas pró-russos perto Slaviansk, Ucrânia (8/07). Foto: ReutersMilitante mascarado pró-Rússia organiza o trânsito em posto de controle após ataque das tropas ucranianas em Slovyansk (24/4). Foto: APAtiradores mascarados pró-Rússia guardam entrada de escritório regional ucraniano do Serviço de Segurança em Luhansk com bandeira russa ao fundo (21/4). Foto: APAtivista mascarado pró-Rússia guarda barricada em prédio da administração regional capturado em Donetsk. Cartaz diz: 'EUA, tirem as mãos do leste da Ucrânia' (19/4). Foto: APAtivista mascarado pró-Rússia olha para o lado de fora de janela em prédio da administração regional de Donetsk, Ucrânia (18/4). Foto: APAtirador pró-Rússia abre caminho para veículo de combate com homens armados em seu topo em Slovyansk, Ucrânia (16/4). Foto: APAtivista mascarado pró-Rússia guarda barricada em prédio da administração regional em Donetsk, Ucrânia (15/4). Foto: APAtivista pró-Rússia é visto durante invasão de delegacia na cidade de Horlivka, leste da Ucrânia (14/4). Foto: APAtivistas armados pró-Rússia ocupam a delegacia de polícia no leste da Ucrânia, na cidade de Slaviansk (12/04). Foto: APAtivistas pró-Rússia ocupam delegacia de polícia e constroem uma barricada na cidade ucraniana oriental de Slovyansk (12/04). Foto: APHomens armados não identificados caminham em área perto de unidade militar ucraniana em Simferopol, Crimeia (18/3). Foto: APSoldado armado, provavelmente russo, anda perto de uma base militar ucraniana na aldeia de Perevalnoye (9/3). Foto: ReutersUm homem armado, que se acredita ser um soldado russo, anda perto da base naval ucraniana na Crimeia, no porto de Yevpatory (8/3). Foto: ReutersMarinheiro observa navio inativo Ochakov, que foi afundado por tropas russas e bloqueou o tráfego de cinco embarcações ucranianas em Myrnyi, oeste da Crimeia, Ucrânia (6/3). Foto: APCriança brinca perto de soldado russo (D) enquanto soldados ucranianos observam do outro lado do portão de base em Perevalne, Crimeia (4/3). Foto: APSoldado pró-Rússia bloqueia base naval na vila de Novoozerne, Crimeia, na Ucrânia (3/3). Foto: APGrupo de homens armados sem emblemas em uniformes cortam luz do Quartel-General das forças navais ucranianas em Sevastopol, Crimeia, Ucrânia (2/3). Foto: APComboio russo se move de Sevastopol para Sinferopol na Crimeia, Ucrânia (2/3). Foto: APHomem com uniforme sem identificação monta guarda enquanto tropas tomam controle de escritórios da Guarda Costeira em Balaklava, em Sevastopol (Crimeia), na Ucrânia (1/3). Foto: APSoldados em uniformes sem identificação montam guarda em Balaklava, nos arredores de Sevastopol, na ucraniana Península da Crimeia (1/3)
. Foto: APEmblema em veículo e placas de outros carros indicam que tropas são do Exército russo (1/3). Foto: APHomens armados não identificados e vestidos com uniformes de camuflagem bloqueiam a entrada do prédio do Parlamento da Crimeia em Simferopol, Ucrânia (1/3). Foto: APHomens armados não identificados bloqueiam entrada de Parlamento da Crimeia em Simferopol, Ucrânia (1/3). Foto: APHomem armado não identificado com uniforme de camuflagem bloqueia estrada que leva a aeroporto militar em Sevastopol, na Crimeia. Foto: APSoldados em uniformes sem identificação montam guarda durante tomada de controle de escritórios da Guarda Costeira em Balaklava, Crimeia, na Ucrânia (1/3). Foto: APSoldados em uniformes sem identificação montam guarda durante tomada de controle de escritórios da Guarda Costeira em Balaklava, Crimeia, na Ucrânia (1/3). Foto: APSoldados em uniformes sem identificação montam guarda nos arredores de Sevastopol, na ucraniana Crimeia. Foto: APHomem com uniforme sem identificação patrula aeroporto de Simferopol, na Ucrânia (28/2). Foto: AP

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As opções russas

Mas se a Ucrânia ficou com poucas opções, o que acontece com a Rússia? Por que o presidente Vladimir Putin aceitou parar agora?

Ele poderia ter pressionado - como esperavam os nacionalistas conservadores russos- para anexar o leste da Ucrânia ao território russo. Ou declarar um novo território protegido em Novorossiya (Nova Rússia, como o império russo nos séculos 18 e 19 chamava uma parte da Ucrânia) para criar uma "ponte" de terra para a Criméia.

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O fato é que Putin teve ampla oportunidade de assumir o controle do leste da Ucrânia, se ele quisesse fazer. Mas não está claro que vantagem ele tiraria do território.

A área é pobre, muitas indústrias perderam seu poder, a população local está traumatizada e dividida. E seria uma luta sangrenta e confusa envolvendo um grande número de tropas russas e, por isso, não se sabe quantas baixas russas haveria. Pode ser um risco que Putin não está disposto a assumir.

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Talvez seja melhor tentar parar o conflito agora, quando os rebeldes têm uma vantagem militar, quando o governo ucraniano parece vulnerável, na esperança de um acordo de paz, para ter mais chances de conseguir um acordo que atenda as principais reivindicações da Rússia.

Sanções ocidentais também podem desempenhar um papel importante na vontade do Kremlin para apoiar a trégua, até porque há relatos de que os preços estão subindo na Rússia, especialmente de alimentos, o que pode afetar as pessoas mais pobres naquele país.

No final, é provável que a pressão interna seja, para ambos os presidentes, um fator importante na sua tomada de decisão sobre o cessar-fogo e o interesse de alcançar a paz.

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