Presidente desdenha dos pobres, diz ex-primeira-dama francesa em livro

Por BBC Brasil | - Atualizada às

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Em biografia, ex-esposa traída diz que o líder é 'obcecado com popularidade'; livro pode prejudicar Hollande, dizem analistas

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A ex-primeira-dama francesa, Valérie Trierweiler, lança nesta quinta-feira (4) um livro que traça um perfil ácido do presidente francês François Hollande - e pode comprometer ainda mais a já desgastada imagem do presidente.

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Merci pour ce moment (Obrigada por este momento, na tradução literal), com tiragem de 200 mil exemplares, é publicado apenas uma semana após Hollande ter rachado com a ala de esquerda do partido socialista - que critica a "guinada sócio-liberal" do presidente -, em meio a uma turbulência política.

Na obra, Trierweiler escreve, por exemplo, que Hollande "não gosta dos pobres", a quem ele chamaria de "sem dentes" e teria "orgulho" dessa tirada de humor.

O presidente teria apelidado Trierweiler de "Cosette", personagem do romance Os Miseráveis, de Victor Hugo, em razão da origem humilde da ex-primeira-dama. Ela descreve o ex-marido como um homem "frio, cínico, que não sorri, menospreza os outros e que se desumanizou após a conquista do poder".

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Esse perfil contrasta com a imagem de Hollande, de uma pessoa bem humorada, que adora fazer brincadeiras, prefere evitar disputas e que não saberia impor sua autoridade.

"Apesar da forte impopularidade, Hollande manteve até o momento uma imagem pessoal relativamente boa, de alguém simpático, íntegro e próximo das pessoas. Esse livro pode manchar gravemente essa imagem", diz Florian Silnicki, especialista em estratégia de comunicação.

Segredo total

O livro só chega às livrarias francesas nesta quinta, mas na quarta-feira já era o mais encomendado no site da Amazon francesa.

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A obra foi escrita em total sigilo e sua produção e distribuição parecem um romance de espionagem. Para manter o segredo, os livros foram impressos na Alemanha e só foram transportados de caminhão para a França na quarta-feira. Trierweiler utilizou um computador não conectado à internet para evitar vazamentos.

O trabalho sai por uma pequena editora, Les Arènes, a fim de limitar o número de pessoas envolvidas na publicação. Hollande só soube da publicação na noite de terça-feira.

Na obra, a ex-mulher conta em detalhes sua relação com Hollande, iniciada em 2005 (quando ele ainda estava oficialmente com Ségolène Royal) e os 20 meses que ela passou no Palácio do Eliseu, sede da Presidência francesa.

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Em janeiro passado, Hollande, que nunca se casou, pôs fim à sua relação com Trierweiler por meio de um lacônico comunicado que ele mesmo ditou à agência France Presse, após o escândalo de seu caso extraconjugal com a atriz Julie Gayet.

Trechos do livro foram publicados na quarta-feira pela revista Paris Match, onde Trierweiler trabalha, pelo Le Monde e outras publicações.

Segundo o Monde, Trierweiler afirma que Hollande é "obcecado pela popularidade como um viciado que só pensa nas drogas e se deixa influenciar por tudo o que é comentado e escrito".

Hollande bate recorde de impopularidade. Segundo uma pesquisa do instituto Ifop divulgada na quarta-feira, o presidente perdeu 4 pontos e só é apreciado por 19% do eleitorado.

Tentativa de suicídio

Para a imprensa francesa, o livro é um "acerto de contas" de Trierweiler após a traição que levou à ruptura de sua relação com o presidente.

No livro, ela conta que o presidente "jurou" não ter um caso com a atriz Julie Gayet quando rumores sobre o affaircomeçaram a circular. Também descreve em detalhes um episódio em que toma uma overdose de soníferos e é hospitalizada, após ver as fotos que revelaram o romance, publicadas por uma revista de celebridades.

Segundo Trierweiler, nos meses em que ela escreveu o livro, Hollande esteve sempre em contato com ela, enviando flores e fazendo convites para jantar. A ex-esposa disse que chefe de Estado francês lhe enviou inúmeras mensagens de texto - 27 em apenas um dia.

Os políticos franceses em geral preferiram não fazer comentários sobre o lançamento do livro, alegando se tratar de um assunto "privado".

Essa é a primeira-vez que uma ex-primeira-dama escreve um livro criticando o presidente.

Danielle Mitterrand, Bernadete Chirac e Cécilia Attias (ex-mulher de Nicolas Sarkozy) também publicaram livros, mas não falaram mal dos chefes de Estado na época.

Pelos cálculos da imprensa francesa feitos com base na tiragem do livro, Trierweiler deverá receber mais de € 200 mil (cerca de R$ 600 mil) pela publicação.

"Obrigada por esse momento" é publicado poucos dias após do lançamento do livro da ex-ministra Cécile Duflot, do partido ecologista, que deixou o governo criticando a política atual e Hollande.

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