Erros levaram países a indiretamente financiar Estado Islâmico, diz analista

Por BBC | - Atualizada às

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Para diretor de centro de pesquisas, ingenuidade e políticas ruins levaram ajuda do Catar e Arábia Saudita a extremistas

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Muitos países do Golfo são acusados de financiar o grupo extremista Estado Islâmico (EI), que controla parte dos territórios do Iraque e da Síria. Mas nem tudo é tão simples em uma guerra como esta.

Veja fotos do Estado Islâmico no Iraque:

Membros do Exército feminino treinam habilidades de combate antes de combaterem o Estado Islâmico em acampamento militar no Iraque (18/09). Foto: ReutersMilitar curdo lança morteiros em direção Zummar, controlada pelo Estado Islâmico, em Mosul, Iraque (15/09). Foto: ReutersMilitantes do Estado Islâmico levam soldados iraquianos capturados depois de assumir base em Tikrit, Iraque (junho/2014). Foto: APObama prometeu ofensiva com ataques aéreos na Síria e no Iraque para combater EI (12/09). Foto: ReutersMilitares curdos em tanque enfrentam militantes do Estado islâmico em Mosul, Iraque (7/09). Foto: ReutersMilitante curdo dá cobertura durante confrontos do Estado Islâmico na linha de frente da vila de Buyuk Yeniga, Iraque (4/09). Foto: ReutersMilicianos xiitas do Iraque disparam suas armas enquanto celebram a quebra de cerco do Estado Islâmico em Amerli (1/09). Foto: ReutersGrupo carrega caixão de militante xiita iraquiano da Organização Badr, que foi morto em confrontos com militantes do Estado Islâmico no Iraque (1/09). Foto: ReutersCriança chora em helicóptero militar após ser retirada pelas forças iraquianas de Amerli, ao norte de Bagdá (29/08). Foto: ReutersCurdos e militantes islâmicos lutam no norte do Iraque (12/08). Foto: ReutersIraquianos carregam retratos do primeiro-ministro iraquiano Nuri al-Maliki enquanto se reúnem em apoio a ele em Bagdá, Iraque (11/08). Foto: ReutersMilhares de iraquianos fugiram com avanço de militantes do EI, inclusive integrantes de minorias religiosas (9/08). Foto: APTropas curdas implantam segurança intensa contra os militantes islâmicos do Estado em Khazer (8/08). Foto: ReutersTropas curdas patrulham em um tanque durante operação contra militantes do Estado Islâmico em Makhmur, nos arredores da província de Nínive, Iraque (7/08). Foto: ReutersParentes choram a morte de homem da YPG, morto durante confrontos com combatentes do Estado Islâmico na cidade iraquiana de  Rabia, na fronteira do Iraque-Síria (6/08). Foto: ReutersVoluntários xiitas do Exército iraquiano se recuperam em hospital após serem feridos em confrontos com militantes do Estado Islâmico em Basra, sudeste de Bagdá (6/08). Foto: ReutersMulher visita túmulo de um parente em cemitério durante as celebrações do Eid al-Fitr, que marca o fim do Ramadã, em Bagdá (28/07). Foto: ReutersSoldado iraquiano perto de corpo de um membro do Estado Islâmico que morreu durante confrontos com forças iraquianas em Tikrit, Iraque (19/07). Foto: ReutersBandeira preta usada pelo Estado Islâmico do Iraque e do Levante flamula de delegacia danificada em Mosul, norte do Iraque (1/7). Foto: APVoluntário xiita do Conselho Supremo Islâmico Iraquiano aponta arma durante treinamento em Najaf, Iraque (26/6). Foto: ReutersMembros das forças de segurança iraquianas tomam suas posições durante reforço de segurança no oeste de Bagdá, Iraque (24/6). Foto: ReutersXiitas iraquianos se preparam para patrulhar a aldeia de Taza Khormato, na rica província petrolífera de Kirkuk, no Iraque (22/6). Foto: APCombatentes xiitas levantam suas armas e entoam palavras de ordem após autoridades pedirem ajuda para conter os insurgentes em Sadr, em Bagdá, Iraque (17/06). Foto: APManifestantes gritam em favor do Estado Islâmico do Iraque e do Levante em frente do governo provincial de Mosul (16/4). Foto: APCombatentes tribais xiitas mostram suas armas enquanto tomam parte de Dujail, ao norte de Bagdá, Iraque (16/06). Foto: ReutersCombatentes tribais xiitas levantam suas armas e gritam palavras de ordem contra sunita Exército Islâmico em Basra, Iraque (16/6). Foto: APImagem postada em site militante em 14/6 parece mostrar membros do EIIL mirando contra soldados à paisana depois de tomar base in Tikrit, Iraque. Foto: APImagem postada em site militante em 14/6 parece mostrar membros do EIIL com soldados iraquianos à paisana capturados após tomada de base em Tikrit, Iraque
. Foto: APImagem postada em site militante em 14/6 parece mostrar membros do EIIL com soldados iraquianos à paisana capturados após tomada de base em Tikrit, Iraque. Foto: APCombatentes iraquianos xiitas seguram suas armas enquanto gritam palavras de ordem contra o Estado Islâmico do Iraque e do Levante em Cidade Sadr, Bagdá (13/6). Foto: APVoluntários esperam para se juntar ao Exército e combater militantes predominantemente sunitas em Bagdá, Iraque (13/6). Foto: ReutersPresidente dos EUA, Barack Obama, fala sobre a situação no Iraque em pronunciamento na Casa Branca, em Washington (13/6). Foto: APImagem postada em Twitter militante mostra membro do Estado Islâmico do Iraque e do Levante com sua bandeira em base militar na Província de Ninevah, Iraque (12/6). Foto: APImagem publicada por militantes no Twitter mostra combatentes do Estado Islâmico do Iraque e do Levante em local na fronteira entre o Iraque e a Síria (12/6). Foto: APMuitas famílias começaram a deixar Mosul depois de ocupação por insurgentes sunitas (13/6). Foto: ReutersForças de segurança curda se posicionam do lado de fora da cidade petrolífera de Kirkuk após abandono de tropas iraquianas (12/6). Foto: APVeículos queimados pertencentes às forças de segurança iraquianas são vistos em posto de controle no leste de Mosul (11/6). Foto: ReutersPolicial federal do Iraque monta aguarda enquanto colega faz buscas em carro em posto de controle de Bagdá, Iraque (11/6). Foto: APFamílias que fogem da violência na cidade de Mosul esperam em posto de controle nos arredores de Irbil, região do Curdistão iraquiano (10/6). Foto: ReutersRefugiados que deixam Mosul se dirigem à região autônoma curda em Irbil, Iraque, a 350 km a norte de Bagdá (10/6). Foto: APMilitares se preparam para assumir suas posições durante confrontos com militantes no norte da cidade de Mosul, Iraque (9/06). Foto: AP

Segundo Michael Stephen, diretor do Royal United Services Institute (um centro de pesquisa britânico sobre questões segurança) no Catar, aqueles que estão lutando contra o grupo normalmente acusam o Catar, a Turquia e a Arábia Saudita de serem os responsáveis pela existência do grupo. Mas a verdade, diz Stephen, é mais complexa.

É verdade que alguns indivíduos ricos do Golfo financiaram grupos extremistas na Síria, levando sacolas de dinheiro para a Turquia e entregando milhões de dólares de uma só vez. A prática era comum em 2012 e 2013, mas diminuiu desde então e responde por apenas uma pequena parte da renda total que fluiu para os cofres do EI em 2014, diz o analista.

É verdade também, de acordo com Stephen, que a Arábia Saudita e o Catar financiaram grupos sunitas ultraconservadores, acreditando que o presidente sírio, Bashar al-Assad, cairia em breve e que o islamismo era o verdadeiro veículo para seus objetivos políticos.

Ligações tênues
Os grupos Liwa al-Tawhid, Ahrar al-Sham e Jaish al-Islam têm essas características e ligações tênues com a Frente al-Nusra, uma ramificação oficial da Al-Qaeda na Síria. O Catar atraiu críticas especialmente por suas ligações duvidosas com este grupo.

Por sua vez, a Turquia operava uma política de segurança altamente questionável na fronteira, em que grandes quantidades de armas e dinheiro eram levadas para a Síria, com o apoio do Catar e da Arábia Saudita.

Todos acreditavam que isso facilitaria o fim do regime Assad e colocaria a Síria sob o poder sunita, quebrando a ligação xiita iraniana com o Mediterrâneo.

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No entanto, com a ascensão incontrolável do EI, esses grupos foram destruídos por ele ou decidiram que era melhor se juntar ao time vencedor e simplesmente desertaram, levando suas armas e dinheiro com eles.

Apenas a Al-Nusra se manteve firme, gerenciando uma tênue aliança com o EI, mas ainda assim estima-se que ao menos 3 mil combatentes da Al-Nusra trocaram de lado neste período.

Então, isso quer dizer que o Catar financiou o EI? Stephen diz que, a príncipio, a resposta é não. Mas, indiretamente, uma combinação de políticas ruins e ingenuidade levaram armas e dinheiro do Catar para as mãos do grupo.

A Arábia Saudita é também inocente de um financiamente direto do grupo, mas, assim como o Catar, cometeu sérios erros na hora de escolher seus aliados por sua determinação em retirar o presidente Al-Assad do poder.

Stephen acredita que os dois países devem fazer um exame de consciência neste momento, mas duvida que isso será feita em público.

Reprodução/Youtube
O jornalista norte-americano James Foley no momento antes de ser decapitado por rebelde

Simpatia popular
Há questões ainda mais complexas, como a simpatia popular por um grupo que age explicitamente contra os interesses dos xiitas - aliados aos iranianos - na região e que tem o apoio tático de mais pessoas no Golfo do que muitos preferem admitir.

Os horrendos atos cometidos pelo EI são difíceis de serem apoiados por qualquer pessoa, mas seu objetivo de criar um califado é certamente atraente para algumas correntes do pensamento islâmico.

Muitos daqueles que apoiam este objetivo já foram à Síria para lutar e morrer pelo EI e outros grupos extremistas. Outros apenas expressam seu apoio de forma passiva e continuarão a fazer isso por muitos anos.

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O grupo tem se destacado sobre qualquer outro nos êxitos nos combates e na sua campanha de sucesso em diferentes idiomas para atrair homens e mulheres jovens à sua causa.

Em qualquer atividade - da luta armada, passando pela organização e pela hierarquia -, o EI está anos-luz à frente das outras facções que atuam na região: basta salientar que ele já apresenta com o que parece ser o início da estrutura de um semi-Estado - ministérios, tribunais e até mesmo um sistema tributário rudimentar, que exige dos cidadãos bem menos do que Al-Assad exigia na Síria.

É dessa forma consistente que o grupo tem atuado desde que começou sua tomada de território no início de 2013. Ao tomar o controle de uma cidade, o EI rapidamente garante o controle de fontes de água, do petróleo e derivados na área, centralizando a sua distribuição e tornando a população dependente do grupo.

Dependência e apoio não são a mesma coisa, mas é impossível quantificar o número de "cidadãos" do EI que apoiam o grupo por vontade própria ou por simplesmente estarem se curvando ao seu poder em busca de estabilidade ou por medo.

Economia
Para entender como a economia do EI funciona, é preciso mergulhar no pantanoso mundo de atravessadores e negócios questionáveis. O EI exporta cerca de 9 mil barris de petróleo por dia por preços que variam entre US$ 25 e US$ 45.

Parte destes barris vai para a Turquia por meio de atravessadores curdos. Outra parte é destinada ao consumo interno. E uma terceira leva vai para o regime de Al-Assad, que, por mais paradoxal que seja, vende armas ao grupo.

"É a economia tradicional de uma guerra", destaca o analista Wladimir van Wilgenburg.

De fato, estes negócios escusos e alianças incomuns estão começando a se tornar parecidos com os eventos da guerra civil no Líbano, em que os dois lados do conflito também fechavam negócios entre si.

O ponto mais importante é que o EI consegue se autofinanciar. Não pode ser isolado do mundo porque está intimamente ligado ao status quo regional, o que beneficia não apenas o grupo mas também as pessoas com quem ele luta.

A questão ainda maior é se este pilar é tão importante na região que leve o grupo a nunca ser derrotado. Sem uma intervenção militar ocidental isto é improvável, porque as tribos sunitas iraquianas não tem poder de fogo ou os recursos necessários, assim como os Exércitos do Iraque e da Síria.

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