Cidade colombiana registra onda de desmaios

Por BBC | - Atualizada às

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El Carmen de Bolívar teve quase 276 casos semelhantes apenas neste segundo semestre; maioria deles vem da mesma escola

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Nos últimos 12 dias, os médicos de El Carmen de Bolívar, uma cidade no Norte da Colômbia, já atenderam pelo menos 200 meninas com sintomas muito parecidos: desmaios, tonturas, dor de cabeça, dormência e formigamento em várias partes do corpo. A razão para as reações ainda é um mistério.

El Heraldo/Reprodução
Menina é socorrida por pedestres que a carregam após desmaiar repentinamente no Norte do país

Elas não foram as primeiras a darem entrada no Hospital Nuestra Señora del Carmen com quadro similar. De acordo com o prefeito de El Carmen de Bolívar, Francisco Veja, foi registrado um total de 276 casos como esses desde o meio do ano. Todos com adolescentes, sendo a maioria deles estudantes do Colégio Espírito Santo.

O próprio Ministro da Saúde da Colômbia, Alejandro Gaviria, citou na quinta-feira (28): "246 meninas que apareceram com sintomas bizarros".

Diante do quadro, aumentaram as especulações sobre as causas que estariam levando as jovens a desmaiarem. Na falta de um diagnóstico preciso, multiplicam-se as teorias que correm no boca a boca entre os colombianos.

Para acabar com as especulações, especialmente as que ligam os casos a uma possível reação adversa à vacina contra o Vírus do Papiloma Humano (HPV), o ministro da Saúde convocou uma coletiva de imprensa e revelou a hipótese "que parece mais provável no momento" – e que é, inclusive, "apoiada por especialistas". Segundo Gaviria, os sintomas seriam uma ‘resposta psicogênica em massa’.

Veja fotos que mostram como são as doenças de perto:

Foto mostra cirrose, que ocorre quando o tecido do fígado (em vermelho) é substituído por tecido fibroso (azul), e a reação resulta na formação de nódulos. Foto: Hidden Beauty: Exploring the Aesthetics of MedicaA doença de Paget atinge os ossos e se caracteriza pela regeneração óssea desordenada. A luz amarela indica que as células estão se reproduzindo sem controle. Foto: Hidden Beauty: Exploring the Aesthetics of MedicaEsta foto ilustra uma doença autoimune, que ocorre quando nossos mecanismos de defesa confundem uma parte do corpo com um invasor e a ataca. Foto: Hidden Beauty: Exploring the Aesthetics of MedicaA foto ilustra a formação do osso trabecular no fêmur, de aparência esponjosa. Foto: Hidden Beauty: Exploring the Aesthetics of MedicaA imagem mostra m melanoma, o câncer de pele. O círculo no centro  é um folículo capilar rodeado por células do tumor. Foto: Hidden Beauty: Exploring the Aesthetics of Medica As placas de Petri são peças de vidro ou plástico usadas por cientistas para analisar culturas bacteriológicas. Foto: Hidden Beauty: Exploring the Aesthetics of MedicaA placenta age como um mediador entre a mãe e um bebê, regulando a troca de nutrientes e produtos metabólicos. A foto mostra o local na placenta onde se desenvolve o cordão umbilical. Foto: Hidden Beauty: Exploring the Aesthetics of MedicaOs tubos de ensaio mostram amostras de soro sanguíneo: 1], o de uma pessoa saudável, o 2º tem hemácias danificadas, o 3º acusa icterícia e o 4º altas taxas de gordura no sangue. Foto: Hidden Beauty: Exploring the Aesthetics of Medica

Medo coletivo
"A resposta psicogênica em massa é uma espécie de sugestão de medo coletivo que se contagia de um lado para o outro e termina apresentando um fenômeno estranho", explicou o ministro aos jornalistas. "Os sintomas aparecem, mas quando os médicos vão examinar clinicamente as meninas não encontram nenhum tipo de doença."

O ministro citou casos similares ao redor do mundo. Um deles aconteceu em Taiwan, após uma campanha de vacinação em massa para prevenir a gripe suína (N1H1); o outro, na Austrália. Ele, no entanto, não forneceu datas nem mais detalhes de como eles ocorreram. No entanto, Gaviria ressaltou que as meninas estão, sim, doentes: "Não estamos subestimando o problema. Ele tem de ser levado a sério e seguiremos acompanhando e apoiando a comunidade, mas isso não parece ser um problema de uma doença clínica".

Gaviria ainda acrescentou que o Ministério da Saúde colombiano quer trabalhar nesta semana com a Associação Colombiana de Psiquiatria, que se mostrou disposta a se deslocar até El Carmen de Bolívar para estudar os casos.

O ministro novamente reiterou que o motivo para os sintomas nas garotas não aparenta ser clínico e que nada tem a ver com a vacina contra o vírus do HPV. "Não há nenhuma evidência que possa haver uma relação entre as duas coisas", acrescentou ele, insistindo ter o apoio da Organização Mundial da Saúde, da Organização Pan-Americana da Saúde "e de todas as associações científicas."

Mistério continua
As explicações do ministro não convenceram a todos. "A coletiva de imprensa dele abalou os ânimos de vários pais das garotas", disse Vicente Arcieri, jornalista da sucursal do El Heraldo em Cartagena das Índias.

Uma hora depois da coletiva de imprensa, várias pessoas protestaram por cinco horas em Troncal de Occidente - a estrada que liga o interior do país com a costa - pela postura das autoridades com o caso.

O jornalista Vicente Arcieri está acompanhando bem de perto o caso e esteve no Hospital Nuestra Señora del Carmen na quinta. Segundo ele, somente nesse dia, 10 meninas deram entrada no hospital com os sintomas já conhecidos – desmaios, tonturas, dormência e formigamento em várias partes do corpo.

Foram esses os casos mais recentes de um fenômeno que tem preocupado cidadãos e autoridades colombianas há meses. Dez das primeiras pacientes que deram entrada no Hospital Nuestra Señora del Carmen estão sendo tratadas em Bogotá, no Hospital Infantil Universitário de San José.

Uma delas é a filha de María Romero. Foi a primeira das que apresentaram os sintomas em El Carmen de Bolívar, no dia 21 de março. Elas recorreram primeiro ao centro de saúde da região e tiveram que voltar para lá pela mesma razão em 23 de abril. "Desde então não tivemos descanso", contou por telefone.

No hospital de Bogotá disseram que o resultado de um teste feito com a filha de Romero apontou que ela teve intoxicação por chumbo, assim como outra menina do grupo.

O chefe de toxicologia do hospital, Camilo Uribe, explicou na quarta-feira (27) ao diário colombiano El Tiempo que não havia características claras ou específicas que indicassem o que as outras pacientes poderiam ter. E acrescentou que os próximos exames estariam focados em endocrinologia, imunologia e psiquiatria.

As autoridades informaram que o diagnóstico sairá em uma semana. Uma resposta que poderá acabar com o mistério e acalmar os ânimos na Colômbia.

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